Março 2016

Uma pitada de aventura

Para juntar à constipação, as caminhadas pela natureza que a rodeava deixaram-na com uns belos pés cheios de feridas e com frieiras nas mãos, já que não estava à espera do frio que encontrou e não trazia consigo um casaco adequado. Desde o topo deste monte, viu Genebra e todo o terreno que teimosamente pisou ao longo dos dias anteriores e sorriu como uma idiota apercebendo-se do esplendor da vista com que estava a ser presenteada. Conseguia ver os Alpes! Os Alpes!

Durante mais de três meses viajou por alguns dos locais com que sempre sonhou sentada à secretária, todos os dias da sua vida. Visitou todos os cantos deste país, ou pelo menos tentou, e percorreu inúmeros caminhos decorados com línguas, culturas e sons bem diferentes do que já conhecia. O mundo abriu-lhe as portas e ela não hesitou em sair a correr!

Conheceu lugares e pessoas, e que pessoas… Nunca pensou que seria capaz de partilhar tanto de si com outro ser humano que não a conhecesse desde o dia em que nasceu, mas assim o fez, por duas vezes. Abriu o seu coração a duas pessoas que fariam parte da sua vida por muito tempo: Rita e Simón. Conheceu-a em Barcelona, uma companheira portuguesa perdida pelas ruas dessa cidade colorida, desesperada e desanimada por ter perdido o comboio que a levaria a Genebra, destino que tinham em comum.

Entenderam-se logo, tendo a nossa personagem principal convencido a sua futura amiga a não desistir da viagem e a reconsiderar o passo a dar a seguir. Decidiram que iam primeiro para Bordeaux, já que os bilhetes ficariam mais em conta se dividissem a viagem de comboio em dois trajetos. O comboio partiria no dia seguinte, então durante vinte e quatro horas ficaram a conhecer-se minimamente. Partilhavam o gosto exagerado por marisco e pelos longos dias passados na praia, tudo menos saudáveis. Desgostavam das mesmas coisas, ou grande parte das mesmas coisas, já que discordavam profusamente em relação a muitas outras. Seguiram viagem juntas, até Genebra, onde os caminhos se separaram, mas não por muito, já que voltariam a se cruzar daí a pouco tempo.

Genebra encheu-lhe os pulmões de ar fresco e e deixou-a com uma constipação tremenda. Passou quatro dias nesse país, banhado por um lago magnífico e com uma arquitetura antiga de cortar a respiração. Caminhou para todo o lado, sempre com a mochila que a acompanhava às costas e sempre com os olhos bem abertos. No quarto dia, falaram-lhe do Mont Selève, situado no país vizinho, França, e esse foi o seu próximo destino. Para juntar à constipação, as caminhadas pela natureza que a rodeava deixaram-na com uns belos pés cheios de feridas e com frieiras nas mãos, já que não estava à espera do frio que encontrou e não trazia consigo um casaco adequado. Desde o topo deste monte, viu Genebra e todo o terreno que teimosamente pisou ao longo dos dias anteriores e sorriu como uma idiota apercebendo-se do esplendor da vista com que estava a ser presenteada. Conseguia ver os Alpes! Os Alpes! Daí, seguiu para a Alemanha, onde acabou por reencontrar a língua francesa mais cedo do que esperava.

Simón, Simón, Simón: um francês que não tinha ar de francês e que encontrou pela Alemanha.

A Alemanha foi uma surpresa agradável onde passou mais dois dias do que tinha planeado anteriormente. Desde o motel com a cama mais confortável de sempre (talvez as más experiências e o cansaço dos últimos tempos estivessem por detrás dessa avaliação, mas mais valia ignorar isso), à simpatia de todas as pessoas que lhe dirigiam a palavra, tudo a surpreendeu. Conheceu o enigmático rapaz num café, – um dos mais baratos que encontrou e que frequentou  os quatro dias passados na cidade de Heidelberg – onde estava a tomar o seu último pequeno-almoço antes de seguir viagem. Reparou nele pois tal como ela, tinha encostado a sua mochila (gigante!) à mesa e além disso observava um mapa da Europa com uma atenção invejável. Não iria meter conversa com ele, mas a dona do café, uma alemã que preenchia todos os requisitos e assemelhava-se na perfeição à ideia de mulheres Alemãs que o resto do mundo tem – forte e alta, com uma voz que faria ressoar o compartimento, mas que ela entoava com uma graça tremenda, – decidiu juntar-lhes os destinos. Num inglês enferrujado mas perfeitamente compreensível, apresentou-os, chamando-a de moreninha e a ele de François, afirmando que eram ambos nómadas e que portanto, deveriam, com certeza, ter assuntos para falar. Começaram ambos a rir-se desalmadamente, mas lá se juntaram numa mesa e falaram, durante horas, sobre os sítios por que já tinham passado, e aqueles que iriam descobrir a seguir. Ela não conseguiu evitar em reparar no aspeto atraente do rapaz e sentia as suas faces a ficar extremamente quentes de cada vez que ele lhe pronunciava o nome. Em sua defesa, já não falava com alguém de uma forma tão entusiasta há mais de 1000 quilómetros, muito menos com alguém tão belo e charmoso.

Franceses, ha!

Os dois dias extra passados nesse país foram dedicados ao planeamento do resto da viagem com Simón, que insistiu inúmeras vezes que deviam alterar alguns pormenores dos seus planos, para que não seguissem viagem sozinhos. Depois de ela se certificar que ele não era perigoso nem nada que se imaginasse, lá cedeu. Iriam seguir para a Polónia, Eslováquia, Hungria, Roménia e daí, iriam pela primeira vez apanhar um avião para a Itália, onde os iriam esperar Rita.

Não se arrependeu um único momento de ter aceitado a companhia do rapaz, bem, exceto quando tiveram que partilhar uma cama minúscula na Eslováquia, mas bem, digamos que o arrependimento não durou muito tempo, já que o calor humano lhe soube bem, e os seus lábios num dos seus ombros também. Existiram momentos em que acharam que deviam levar as coisas mais longe, principalmente quando chegados à Roménia, tiveram novamente de dormir juntos e bem agarradinhos, já que o calor intenso sentido ao longo do dia, levava sempre a noites gélidas com o por-do-sol. Mas para além de alguns beijos apaixonados, nada mais aconteceu.

Chegado o dia de ir para Itália, Simón pediu-lhe que lhe falasse de Rita, coisa que ela fez, com muito entusiasmo. Encontraram-se em Verona, cidade lindíssima que ela sempre sonhou em ver com os próprios olhos. Durante os primeiros dias, teve que fazer o papel de ponte entre os dois amigos, mas cedo se apercebeu que tal deixava de ser necessário, já que ambos se estavam a entender bastante bem; talvez demasiado bem? Sentiu ciúmes e amuou várias vezes devido a proximidade deles, mas isso durou muito pouco tempo. Conseguia ver nos olhos deles que o cúpido lhes tinha atingido em cheio, e de certa forma, isso deixava-a feliz. Continuou a partilhar a cama com Simón, mas cedo encarregou-se de parar isso.

Estavam todos a jantar numa esplanada fantástica, iluminada com luzinhas brancas e amarelas. Tinham combinado que se iriam vestir a rigor, o que incluía vestidos comprados numa loja de segunda mão para elas, e camisa e calças compridas para ele. O vinho corria pelas mesas e a comida começava a escassear. Começaram a dançar, os três, acabando ela por deixá-los a dançar juntos, sob o pretexto que tinha que descansar os pés. Acabou por aceitar o convite para dançar de um outro rapaz, italiano que não falava uma palavra de inglês, mas que lhe sussurrava “bela” ao ouvido de cada vez que uma canção acabava. Quando a noite terminou, avisou-os de que iria continuar a conversar com o companheiro de dança, deixando-os ir para o quarto juntos. Muitas horas depois, após ter deambulado pelas ruas da cidade que serviu de palco ao amor de Romeo e de Julieta, subiu para o quarto, encontrando-os a dormir de mãos dadas.

Acordou na manhã seguinte com um beijo na cara de Rita e com Simón a sorrir de orelha a orelha: iriam passear por umas horas. E foi assim que a história deles começou e a viagem dela pela Europa acabou.

Três meses de 23 dias depois, com Lisboa à direita e o mundo à esquerda, com o conforto do seu sofá a algumas dezenas de quilómetros à direita e o desconhecido à esquerda, começou a sentir-se mal disposta. Aquilo que viu e viveu durante os últimos tempos deixaram-na ainda mais certa de que deveria viver uma vida de nómada e de que deveria expandir muito mais os seus horizontes. De que a incerteza e o desconhecido acorda um lado dela que nunca conseguiria alcançar estando presa numa vida rotineira; um lado apaixonado, aventureiro, cheio de receios mas com vontade de os ultrapassar, um lado que anseia as caminhadas sem fim, que lhe transforma os músculos em papa e os ossos em areia, um lado que a deixa alerta e em paz ao mesmo tempo. Mas aquilo que lhe revolvia o estômago e a punha a tremer da cabeça aos pés nesse momento, não era a incerteza entre qual o caminho a seguir, não. O que a deixava nesse estado era a certeza de que estava na altura de descansar por uns tempos e o medo de após se deixar levar por essa rotina que tanto abominava, não ser capaz de a abandonar por uma segunda vez. O medo de se deixar levar pelo fácil, pelo familiar. O medo de abafar esse lado de si mesma que a levava a arriscar.

Ainda existia tanto para ver! Sentia que nem sequer tinha saboreado uma migalha que fosse, daquilo que o mundo ainda tinha para lhe mostrar!

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