Março 2016

Bilhete

Olhei a minha mala e pensei que nela ainda existia espaço para as tuas camisolas, quem sabe alguns dos teus livros e foi nesta ideia que escolhi o autocarro que estava à minha frente. Linha 9. O nove. Sempre o número pelo qual eu me regi para guardar memórias. As mesmas que tu esqueces-te e que nunca quiseste celebrar.

Um bilhete acabado de tirar, começa a desfazer-se na minha mão.
Na antecipação do que poderá acontecer quando, daqui a momentos, tiver de escolher.
Balanço na plataforma à espera que os autocarros se coloquem em fila, por entre as linhas 1 à 10.
O meu bilhete dá para qualquer autocarro. No bilhete não existe um número. Posso escolher a estrada que quiser tomar, assim que os vir chegar e eles se dispuserem, quase num bailado de sedução na espera que eu entregue este bilhete que começa a fazer-me suar as mãos, a um dos condutores e suba as íngremes escadas, escolhendo um lugar e deixando-me ir.

Enquanto circulo pela plataforma, penso na porta que a minha escolha poderá abrir. Não tenho como saber se será a escolha correcta. É-me impossível conhecer quem se sentará comigo. Sei apenas, enquanto ouço os motores a trabalhar, à espera que a alavanca que não os deixa passar já, se abra, que este é o meu caminho. Que preciso de escolher um lugar e deixar de lado a estrada pela qual eles me poderão conduzir.

Escolher o dia de hoje para comprar este bilhete não foi mero acaso.
Hoje, perdi alguém que jamais poderei ter de volta.
Quando a minha pacatez foi abalada, eu sabia que teria de escolher um autocarro. Adio esta escolha à quase um ano, porque a vida se entremeteu no caminho e me deu outras oportunidades.
Quando elas acabaram, eu simplesmente me sentei, e esperei que algo de emocionante chegasse até mim. Mas nunca pensei que aquilo que esperava por mim era o amor. Um amor que eu não queria e pelo qual não ansiava. Que acabaria por me desfazer aos poucos, alertando-me para que mais uma vez eu teria de me reconstruir.
Nesse medo de perder o que talvez nunca tenha tido, corri à bilheteira e pedi o meu bilhete. Hoje tinha de escolher.
Na minha cabeça havia apenas um desejo. Que nesse caminho eu ainda fosse capaz de ver o mar, e que nele encontrasse algum tipo de paz.

Quando os vi, em linha, o meu coração disparou de tal maneira,que senti ser capaz de ver a minha camisola levantar ao mesmo ritmo do meu batimento cardíaco. O mesmo que tu sempre tentaste “ouvir” com a tua mão sobre o meu peito. Mas parecia estar sempre morta. Sempre que chegavas alguma coisa em mim morria. Tudo ao meu redor ficava intocável e apenas nós os dois nos movíamos.

Quando as ideias de ti me começaram a correr pela mente apercebi-me o quanto gostaria de te ver ao meu lado, com o bilhete igual ao meu e que juntos, sem esquecer os sonhos, fôssemos capazes de escolher um autocarro juntos. Nesse autocarro, sentar-me-ia ao teu lado.
Até que vi o teu reflexo, junto à janela de um dos autocarros. Tu já tinhas escolhido o teu caminho sem mim. Não esperas-te, da mesma forma que eu tive medo de te ver partir e corri para me deixar ir.
Olhei esse autocarro que te iria transportar. Vi como estava cheio.
A única mala que eu trazia comigo já não tinha lugar, na barafunda de objectos que tu carregavas. Os lugares estavam cheios de fantasmas, que mais não eram que todas as tuas ambições, sonhos e ideias. Os teus medos também. As tuas vontades que não podiam coexistir com as minhas, pensaste tu, no dia em que entraste sem hesitar.

Olhei a minha mala e pensei que nela ainda existia espaço para as tuas camisolas, quem sabe alguns dos teus livros e foi nesta ideia que escolhi o autocarro que estava à minha frente. Linha 9. O nove. Sempre o número pelo qual eu me regi para guardar memórias. As mesmas que tu esqueces-te e que nunca quiseste celebrar.

Ao sentar-me, a minha imagem reflectida na janela do autocarro, dava para a tua. Desviei o olhar, porque jamais saberei ser capaz de te ver continuar a caminhar, numa estrada que não é a minha e por onde não me podes levar pela mão.

Quando o meu autocarro começou a andar para sair da estação, vejo-te saltar da porta do teu e fazer sinal ao condutor para que parasse.
Mas este não te vê. Porque ele é comandado por mim. Pelo meu coração e pelas memórias que criámos à parte dos dias terminados em nove.
Ainda te olho, coloco a mão no vidro e quando a retiro vejo a forma , que em pequena desenhei, o quente exposto sobre pedaço de tempo frio, a dizer-te adeus.

Logo eu, que nunca digo adeus.

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