O caminho

Peguei na pequena embalagem dourada da L’oreal, abri e carimbei nos meus lábios o vermelho da paixão. É sexta-feira, o emprego que eu não queria ter fez com que as horas parecessem dias e agora vales-me tu, no teu Fiat 500 branco, o cavalo do príncipe encantado dos novos tempos.

Eu achava que estava no caminho certo e já estava a percorrer trilhos que nunca tinha percorrido, por isso andava por aí a sorrir orgulhosa com aquele sorriso parvo de ilusão, de quem acha que está a fazer a coisa certa. Até que apareceste tu e mudas-te as regras do jogo.

Bem, mas voltando à sexta-feira, desculpa se não ouvi nada do que disseste durante a viagem mas fiquei presa no teu sorriso e o teu olhar embriagou-me. E por falar em embriaguez, alguém será capaz de me explicar a minha eterna falta de jeito? Sou como uma pequena formiga com mãos de gigante que por onde passa dá m****. Eu nem gosto de álcool, mas ia jurar que se fosses investigado por cientistas eles iriam comprovar que tens o mesmo efeito em mim do que uma jarra de sangria.

Chegámos a Lisboa e fomos a uma casa de fados onde pelos vistos só se come quando a luz está apagada, o problema é que ninguém me avisou disso antes, e para além disso, para que conste, tu é que insististe no vinho e eu, como era o primeiro encontro e tinhas conduzido 200 Km achei por bem ceder. Porém, teria sido melhor se não o fizesse por que acho que as boas regras de conquista não incluem nenhuma alínea que diga “Por favor, experimente um vinho que não gosta, especialmente se já souber que não gosta, e não esconda o ar de desaprovação. Franza o nariz, entorte a boca como se de um AVC se tratasse e faça com que os seus olhos saltem fora de órbita, tudo isto enquanto a sua futura conquista e o empregado de mesa olham para si”. Eu sei, eu sei que isto não existe e por isso é que tentei provar quando a fadista ainda gritava em plenos pulmões, mas eu não ia  imaginar que terminava ali no exacto segundo em que as minhas papilas gustativas se estavam a contorcer, mas assim foi e a luz acendeu. Foi tal e qual como quando estamos no baile a gritar um segredo à nossa amiga e as colunas se desligam enquanto gritamos ao mundo um segredo que deveria ser só nosso. Não calhou eu fazer-te uma destas também…

Naquele momento adorava que tivesse existido uma réplica do célebre terramoto de 1755, com epicentro ali mesmo e que sob os meus pés se abrisse um buraco que me engolisse com ele levasse também esta vergonhoso momento.

Eu só queria que terminasse aqui, não tu, não nós, mas esta noite. Mas tu és persistente e falaste em hotel e então o meu coração teve um tremor que se fez sentir na mão que por sua vez estava mesmo ali ao lado do fatídico copo de vinho e bem…a tua camisa ganhou uma nova cor, é só o que posso dizer. Acho que já chega.

Apanhei o comboio para casa e nem me importei se hoje a lingerie era a condizer. Trocaste-me as voltas, abanaste o meu mundo e eu fui só eu. Será que há esperança para nós?

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