Março 2016

A linha

Sentou-se, e ali ficou a olhar para o fundo do túnel. Observava aquela escuridão e via nela a única solução para todos os seus males. Não tinha nada a perder. Já não tinha mesmo nada que o prendesse ali. Tinha perdido nesse dia a única pessoa que contava para ele. Com ela desapareceu a última réstia de esperança num futuro. Ela tinha sido a única pessoa que nunca desistira dele, apesar de tudo o que tinha feito. Os roubos, os insultos, as bebedeiras, e por último a violência e a droga.

Mais um comboio passara e ele ali pasmado, como que em transe, de pé a olhar para a linha.

Não era de agora que sabia ser a indecisão uma das amarras que o prendia nos momentos críticos. Nunca fora capaz de decidir nada sem passar um tempo infinito a pensar nos prós e nos contras. Ponderava, pesava, imaginava cenários, e no fim nem sempre a decisão saía.

Sentou-se, e ali ficou a olhar para o fundo do túnel. Observava aquela escuridão e via nela a única solução para todos os seus males. Não tinha nada a perder. Já não tinha mesmo nada que o prendesse ali. Tinha perdido nesse dia a única pessoa que contava para ele. Com ela desapareceu a última réstia de esperança num futuro. Ela tinha sido a única pessoa que nunca desistira dele, apesar de tudo o que tinha feito. Os roubos, os insultos, as bebedeiras, e por último a violência e a droga.

Sempre que se metia em apuros, ela arranjava maneira de o ajudar. Primeiro na escola, e depois por aí, que sarilhos era algo que se colava a ele como fuligem em chaminé. Foram tantas as vezes o arrastara para casa, depois de o encontrar caído na sarjeta perto do tasco lá da rua, que lhe perdera a conta. Nunca lho soube agradecer. Na verdade só agora se sentia agradecido. A infância não tinha sido feliz. A mãe morrera no parto e o pai culpara-o a ele. Infeliz por ter perdido o amor da sua vida, entregara-se ao álcool. Nunca fora um pai. Os maus tratos, só terminaram quando a avó se apercebeu da gravidade da situação e o resgatou. Foi busca-lo ao Porto, deu-lhe uma cama na sua pequenina casa, alimentou-o e obrigou-o a ir à escola. Mas já era tarde. Já estava estragado. Já não sentia nada. Não sabia o que era gratidão. Mal sabia ler, apesar dos seus 12 anos. Nunca se adaptara naquela escola. Mais velho que os colegas, transformou-se rapidamente num rufia. A marginalidade acabou por ser uma consequência. Primeiro pequenos delitos, que se transformaram em delitos mais graves, quando a droga entrou na sua vida.

Já nada havia a fazer, só a sua avó é que não aceitara isso.

Odiara-a porque o queria afastar dos amigos. Odiara-a durante a última desintoxicação forçada, fechado num quarto, privado do que mais precisava. Vivera num inferno profundo de onde parecia não ser possível voltar, e quando finalmente regressou do abismo, ela morreu. Disseram-lhe que fora o coração, que era fraco. Não queria acreditar. O maior coração do mundo, fraco?

Sozinho não tinha força para continuar. Não conseguia viver com a culpa. Não conseguia seguir em frente. Não interessava a ninguém, ninguém sentiria a sua falta.

Olhou em volta, via as pessoas atarefadas a chegar à plataforma. Miúdos da idade dele agarrados aos telemóveis. Cada um centrado em si mesmo. Ouviu um barulho e olhou para trás. Mais miúdos a correr. Passaram por uma velhota que caminhava com dificuldade. Lembrou-lhe a sua avó e sentiu um aperto no coração. Naquela correria desenfreada, bastou um toque na bengala para que ela se desequilibrasse e caísse de joelhos no chão. Deu por si a levantar-se num salto e a agarrá-la pelo braço para a ajudar. Os joelhos estavam esfolados, estava a tremer, e mal se segurava nas pernas. Ajudou-a a sentar. Foi buscar-lhe a bengala caída no chão. Ela agradeceu e chamou-lhe “meu querido”. Sorria, e naquele sorriso era evidente a dor que sentia. Disse-lhe que tinha um neto da mesma idade. Disse-lhe que lhe haveria de falar de si.  De como era educado e com bom coração. Estava mudo. Não sabia o que dizer. O comboio aproximava-se e ela levantou-se a custo. Todos se precipitaram para as portas. Ele percebeu que ela sozinha não iria conseguir. Deu-lhe um braço para se apoiar, com o outro forçou caminho e manteve a porta aberta para que ela conseguisse entrar. Ela subiu o degrau, muito devagarinho. Olhou-o nos olhos agradeceu de novo, dizendo baixinho, “deves ser o orgulho da tua avó”. Sentiu um calor no peito seguido de uma tontura que o desorientou.

O comboio partiu, e desta vez sabia que não voltaria a tentar. Sabia que a oportunidade estava perdida. Muito mais comboios passariam naquela linha, mas não passariam disso mesmo. Comboios. Tinha escolhido viver. iria redimir-se de outra forma. Não sabia ainda como, mas faria com que valesse a pena. A sua avó aprovaria a decisão.

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