Abril 2016

Os Livros

Ele dizia que cada palavra que eu ouvia dava origem a uma nova história na minha cabeça. Que eu colecionava histórias a partir daquilo que me diziam. Uma sensibilidade, portanto.

O autocarro já tinha passado a minha casa e eu continuava a ouvir na minha cabeça, como uma música em repetição, as palavras que ele me tinha deixado.
Um escritor que eu nunca tinha lido, escrevia algo que ele decidiu identificar comigo. Com a minha desordem. Com a minha insegurança e instabilidade que não me deixava ficar onde ele me queria.
Vasculhei a minha carteira à procura do bloco que trago sempre comigo e de uma das muitas canetas que deixo soltas pela mala. Comecei a transcrever a frase pela minha memória. As palavras a surgirem, como se ainda saíssem da boca dele. Ainda com o mesmo timbre. Algumas delas, quase incompreensíveis pelo português que ainda não é perfeito.
Quando terminei de escrever, olhei o bloco e li em voz alta: Descobri que a minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado para ocultar a desordem da minha natureza.

Em baixo escrevo GGM. Apenas as iniciais. Tenho a certeza que quando chegar ao meu destino vou procurar a biblioteca mais próxima e requisitar todos os livros do autor. Irei ler tudo e a frase vai continuar a ressoar sem aviso prévio, ao longo dos dias que passem por mim.

Antes de ir, mesmo antes de abrir a bagageira do carro, tirar a minha mala, não percebi porquê tão pesada, talvez dos meus fantasmas, disse-lhe que já sabia que acabaríamos por tomar caminhos diferentes. Existiam demasiados obstáculos no caminho dele. Ele tinha colocado propositadamente para que ao longo do trilho, tudo fosse um teste que ele se teria de certificar que eu passaria.

A resposta dele foi simples à minha certeza:

Que importa que já o saibas?

Só se sabe o que já nos não surpreende.

Anos mais tarde, num livro que carreguei comigo durante algum tempo, voltei a descobrir essas palavras. Ele tinha-se sempre apoderado das palavras dos outros como suas. Era impossível perceber quando parafraseava ou elas vinham de dentro. Acontecia que ele tinha as palavras perfeitas para qualquer ocasião. Tenho a certeza que até para a própria morte. Deixaria tudo previamente escrito para que alguém fosse capaz de ler, antes de o caixão cair no buraco aberto na terra.

Antes de partir, encontrei em nós e naquilo que tínhamos construído, uma revolução a formar-se. Quando me encaminhava para o meu destino, já a mesma tinha despontado. Ele já percorria as ruas com cartazes. Já gritava palavras indistintas contra tudo aquilo no qual ele tinha acreditado antes. Comigo. Mas como tudo à nossa volta, o regime começou a cair. Ele acabou por se saturar das mesmas situações. Das minhas discussões ou da falta de encanto que eu já não tinha comigo. Não havia mais nada que ele pudesse sugar em proveito próprio, de dentro de mim. Eu estava sem nada. As mãos vazias, a roupa servia apenas para tapar os ossos que passaram a ser cada vez mais salientes. A minha memória parecia ter-se evaporado. Deixei de conseguir realizar algumas tarefas básicas. Ele tinha retirado tudo de mim. Eu não passava de um cabide com o intuito de apenas segurar a certeza dele.

Mas como eu tinha escrito no meu pequeno bloco do ano anterior: Todas as revoluções se evaporam e deixam atrás de si apenas o limo de uma nova burocracia.

Acabei por aproveitar a revolução que ele criou, para fortificar a minha. Desisti dos ideais em que acreditava e que eram apenas fundamentados pelas ideias que ele me impunha. Levantei-me e reclamei a plenos pulmões, tudo aquilo que ele tinha afastado de mim.

O tumulto passou a ser meu também e apesar as frases que fui guardando e das palavras que apontei em post-it para jamais esquecer, quando me sentei no lugar 33, sabia que estava de volta. Que sabia quem era. Que tinha encontrado no “partir” a minha voz, as minhas mãos e as minhas próprias palavras.

Por baixo da frase que ele me tinha deixado, sem um adeus, um até já, um espero que sejas feliz, escrevi: Então, eu acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas.

Na certeza de que aquilo que tinha chorado, tinha sido a minha forma de me libertar dele, percorri as bibliotecas em busca de novas palavras. Aquelas que eu poderia formar e que seriam sempre minhas. Do meu livro. Escrevendo a minha própria história.
Ele dizia que cada palavra que eu ouvia dava origem a uma nova história na minha cabeça. Que eu colecionava histórias a partir daquilo que me diziam. Uma sensibilidade, portanto.

Mas assim que vi o mar ao longe, por entre as casas em fila, por entre as estradas que me encaminhavam os olhos para o azul que se movimentava no horizonte, soube que preferia a minha criação de histórias do que o esquema que ele utilizava para se aproveitar de tudo e de todos.

Sugando as palavras dos escritores e o amor, no qual ele não acreditava, de dentro do coração das pessoas.

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