Vozes que se ouvem no silêncio

Posso ter sido eu a desaparecer primeiro, mas enquanto sei que para ti tudo aconteceu há uma vida atrás e que provavelmente só te lembras de mim quando me vês de raspão, eu, por outro lado, penso mais vezes do que as que sou capaz de admitir nos porquês que ficaram por explicar e que era tarefa tua perguntar.
Se isso não é uma vitória tua, não sei o que será.

Pensei ver-te naquele dia a sair do metro. Tu sabes que dia era. Tu estavas a entrar, eu ia a sair. Se é que eras mesmo tu. Algo dentro de mim diz-me que sim, que eras tu, mesmo que não te tenha olhado nos olhos. Senti um par de olhos posto em mim de forma intencional e não da forma como os passageiros do metro pousam os olhos no infinito num jeito triste de submissão às rotinas dos dias misturada com esperança que o tempo passe mais rápido do que aquilo que lhes parece passar dentro de uma daquelas carruagens envelhecidas e lúgubres.

Mais uma vez escapei por um triz ao nosso inevitável confronto. Tenho-o conseguido com sucesso há tantos anos que podia fazer disto carreira.
Mas se pensas que acho que estou a ganhar, está muito errado. Se é que sequer pensas sobre isto. Posso ter sido eu a desaparecer primeiro, mas enquanto sei que para ti tudo aconteceu há uma vida atrás e que provavelmente só te lembras de mim quando me vês de raspão, eu, por outro lado, penso mais vezes do que as que sou capaz de admitir nos porquês que ficaram por explicar e que era tarefa tua perguntar.
Se isso não é uma vitória tua, não sei o que será.

Apercebi-me disto e de muitas outras coisas no dia em que escalei uma montanha. Não era uma montanha anormalmente grande, mas a escalada da primeira é sempre um marco importante. Mas pelo meio da apreciação da minha própria vitória, veio a minha consciência interromper e encher-me a cabeça de memórias das pequenas derrotas como que para me acalmar o ego momentaneamente inchado.

Foi também nesse dia que comecei a notar um padrão. Aparentemente, a natureza lembrava-me de ti. Foi essa a conclusão inicial, embora errada. Não era a natureza que trazia a tua recordação, mas sim os momentos em que me encontrava sozinha, sem distracções, num silêncio que só é preenchido pela minha própria mente. É aí que regressam as memórias que tenho de ti, quer esteja no cume de uma montanha ou à deriva no mar, cujas ondas reflectem de forma perfeita a forma como os meus pensamentos do passado inexplicado funcionam: vêm e voltam a ir, para vir novamente e tornar a partir. Sem grande explicação. É natural e não há nada que possa fazer para mudar as coisas.

Mas naquele dia no metro, sem qualquer natureza à nossa volta, o sentimento voltou e então apercebi-me que os silêncios incómodos que nos deixam sozinhos com os nossos próprios medos estão por todo o lado e quando menos esperamos, preenchendo-se sozinhos sem que tenhamos qualquer influência na escolha do seu conteúdo.

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