O quarto de infância

O alívio – agora sei-o – deve-se ao facto deste ser o destino que escolho e tão bem me acolhe quando preciso de lamber as feridas. Feridas essas que ganho noutros sítios, longe daqui. A vista da ponte é a materialização da chegada e a representação de um abraço materno que nos conforta e assegura que vai tudo ficar bem no final e que, se algo não está bem, então não é o final. Algo assim.

Sofro de impaciência crónica. Passo 90% do meu tempo a tentar escapar de uma qualquer situação para ir para a seguinte, por mais que tenha ansiado pela chegada da primeira. Parece que a única coisa que me move é a expectativa de algo e não a coisa em si. Nunca percebi porque sou assim, daí nunca ter conseguido corrigir este meu grande defeito.

Estou neste momento no meu quarto de infância e adolescência a fazer de tudo para agarrar e apreciar este momento. Não me sentia tão confortável neste quarto há sei lá quanto tempo. Passei a última meia hora a arrumá-lo ao meu gosto, já que a minha mãe têm uma ligeira tendência a transformá-lo num pequeno armazém já que hoje em dia venho cá tão pouco. Muito menos do que aquilo que gostaria.
Sempre que me lanço na missão de arrumar este quarto, demoro muito mais do que o suposto porque me perco com as memórias de cada objecto. Sou ridiculamente apegada a objectos pelas memórias que lhes estão associadas, é terrível. E, para piorar, também obcecada por tentar tornar o meu quarto numa espécie de montra não daquilo que sou, mas daquilo que gostaria de ser e como gostaria que me vissem. Creio que – por isso – é seguro dizer que o meu quarto é uma fachada, uma encenação de mim mesma. É como se fosse a maquilhagem do meu interior, que disfarça as suas imperfeições e salienta as suas mais-valias.

Mas nos raros momentos em que me permito falar comigo mesma, descubro nas minhas falhas uma razão de o serem. Pela aparente perfeição e ordem com que mantenho o meu quarto, descobri que a minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.

Ahhhh, sim. Isso explica muita coisa. Uma delas, é que no fundo sou muito mais sábia do que o que as pessoas pensam. Nada que uma boa sessão de introspecção não revele. E, com isto, tenho poupado centenas de euros em psicólogos que apenas me diriam o que sempre soube, mas nunca admiti.

“Mas que importa que já o saibas? Só se sabe o que já nos não surpreende.” -, diz-me a minha consciência durante a nossa sessão seguinte.
Tem toda a razão, como sempre, e – de facto – não me surpreende, tal como já não me surpreende que ela tenha uma resposta para tudo.

Como quando atravesso, de noite e sempre à sexta-feira, a ponte a caminho da cidade que me viu nascer e sinto um inconfundível alívio a instalar-se no meu peito, na minha cabeça e nos meus ombros. Nunca o entendi porquê para além do óbvio prazer se voltar onde fui feliz e onde criei algumas das melhores memórias da minha vida. Mas acontece que não é apenas isso. Não. Isso só explica a felicidade e o prazer. O alívio – agora sei-o – deve-se ao facto deste ser o destino que escolho e tão bem me acolhe quando preciso de lamber as feridas. Feridas essas que ganho noutros sítios, longe daqui. A vista da ponte é a materialização da chegada e a representação de um abraço materno que nos conforta e assegura que vai tudo ficar bem no final e que, se algo não está bem, então não é o final. Algo assim.

E assim encaro este meu quarto. Como um santuário, um local onde venho para me curar, para hibernar e escudar mesmo quando o mundo desaba lá fora. Do alto deste sexto andar com vidros duplos a toda a volta não se ouve nem sente nada que não se queira. Excepto o que já carrego comigo. Os medos, os pecados, as inseguranças. Por mais que tente, não desaparecem. Mas dentro deste quarto, acabo sempre por pensar mais nos tormentos de adolescência do que nos actuais. Afinal, muito confessei a estas paredes quando eram mais jovem. Também não sei porquê – e isto a minha consciência ainda não me conseguiu dizer -, mas faço um esforço enorme por lembrar-me de mim quando tinha 15/16 anos. Parte de mim gostava de conseguir passar uma mensagem à minha eu do passado para lhe dizer que tudo ia ficar bem e que nada era o fim do mundo por mais que o parecesse; a outra parte deseja apenas lembrar-se do dia-a-dia da minha antiga eu.

Parece impossível, mas tenho mais memórias dos meus 7/8 anos (até aos 10/11) do que dos anos de adolescência. Às vezes deito-me nesta minha cama deste meu quarto, segundos antes de adormecer e segundos após despertar no dia seguinte e não me lembro das minhas rotinas desses tempos. Era a minha mãe que me acordava ou era o meu telemóvel? Quem me levava à escola? O que é que eu fazia à noite, em casa, já depois da escola?

Não sei. Varreu-se tudo da minha memória e não sei porquê. Atormenta-me e revolta-me tanto o esquecimento como a impossibilidade de recuperar as memórias perdidas.
E é a partir do despertar deste misto de sentimentos que me sinto mais próxima da eu de 15 anos. Tão próxima que quase consigo pegar-lhe na mão e sussurrar-lhe o conhecimento que sei que ela quereria obter para começar a revolução que sempre ambicionou instalar.
Mas todas as revoluções se evaporam e deixam atrás de si apenas o limo de uma nova burocracia.

Gostava de lhe dizer que é quem é por alguma razão, mas ao pensar que palavras formar, reparei que nem eu própria – a eu se agora – o sei explicar. Não sei porque não me sinto como os outros ou porque não quero o mesmo que os outros, porque não valorizo as mesmas coisas que eles ou mesmo porque desejo as coisas que desejo. Só sei se quero ou não algo, se o desejo ou não. Os porquês ficam para outra década.

Então, eu acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas.

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