Naquele dia cheirava a flores

Hoje o dia estava completamente diferente, como se o Universo estivesse a criar um cenário diferente para este episódio da minha vida, um cenário que já antevia o pior. Este dia já tinha começado há muito tempo, eu é que não quis ver.

Naquele dia cheirava a flores, e a cidade parecia ter saltado de um postal só para me fazer feliz. Os sinos tocaram e pétalas de rosa e bagos de arroz choviam sobre o nosso amor. Eu já tinha dito sim e tu já tinhas prometido amar-me para sempre, na saúde e na doença. Tu escreveste que me ias amar mas enquanto a tinta criava promessas naquelas folhas eu não li nas entrelinhas, não vi sequer em letras pequenas qualquer aviso sobre o que poderia correr mal.

Hoje o dia estava completamente diferente, como se o Universo estivesse a criar um cenário diferente para este episódio da minha vida, um cenário que já antevia o pior. Este dia já tinha começado há muito tempo, eu é que não quis ver. “ Não estou preparado para viver com pessoas doentes”. Quando esta frase te saiu da boca foste capaz de esquecer que a primeira palavra da tua filha foi papá, esqueceste o meu sorriso e as nossas conversas, esqueceste as noites em dançámos como se o mundo fosse nosso. Hoje perdemos qualquer laço ou afiliação, hoje fomos despromovidas e somos só duas doentes.

“Todas as revoluções se evaporam e deixam atrás de si apenas o limo de uma nova burocracia.” Mas eu não queria revoluções, eu só queria que me amasses e dissesses que ia correr tudo bem. Queria não ter recebido aquela carta, não ter sabido da maldita doença e não te ter contado. Queria ter continuado só cega. Agora, “que importa que já o saibas? Só se sabe o que já não nos surpreende”. Agora eu sei-te de cor, sei que o que eu tentava esconder de mim própria se revelou, sei que vais embora.

Não era este o fim que imaginava para a nossa história. Naquele dia, quando me olhei ao espelho, vestida de branco achei que era para sempre e tu prometeste que ia correr tudo bem. Hoje sou eu que digo a mim própria que vai tudo correr bem. Chorei um dia inteiro, arrumei-te as malas, limpei a casa e agora estou à espera de mais dias de sol e flores.

“Então, eu acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas.” Por isso, sem rancores espero que saibas onde ir. O meu diagnóstico chegou por carta e com termos médicos, já tu não terás a mesma sorte, não há na medicina nenhuma condição que descreva o teu coração frio e vazio. Provavelmente, também encontrarás alguém que não estará preparado, por isso, cuida-te.

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