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Tempestade perfeita

Tinha-me transformado num bloco imóvel, agarrado ao chão, presa por tantas amarras e ancoras que não mais me era possível voar. Não existia uma folga que fosse para a espontaneidade. Aquele espírito livre que vivia cá dentro, não mais o era. Perdera a capacidade de voar, e quase fenecera quando as asas mirraram por falta de uso, transformando o coração de águia em rato de gaiola.

Não sou a pessoa mais organizada deste mundo. Às vezes pareço, mas não sou.

Sou distraída, dispersa, pessoa de mil princípios e poucos fins. Se a deixar, a cabeça paira muito acima do meu pescoço, perdendo-se por vezes de mim e eu dela. Precisa constantemente de amarras ou ancoras que a mantenham ligada à terra. Por isso, ao longo da vida adquiri hábitos para me manter mais ou menos coesa. Rotinas, cadernos de notas, listas de tarefas, alertas virtuais de todo o tipo. Contudo, recentemente, depois de uma gigantesca tempestade emocional, percebi que eu já não era eu.

Tinha-me transformado num bloco imóvel, agarrado ao chão, presa por tantas amarras e ancoras que não mais me era possível voar. Não existia uma folga que fosse para a espontaneidade. Aquele espírito livre que vivia cá dentro, não mais o era. Perdera a capacidade de voar, e quase fenecera quando as asas mirraram por falta de uso, transformando o coração de águia em rato de gaiola.

Esta tempestade que me virou do avesso e que tanto amaldiçoei, arrasou tudo em mim. Arrancou a armadura protectora da rotina, levou a roupa confortável das listas de tarefas, deixando exposto na pele nua, o ADN descodificado, com todas as fragilidades (e forças) à vista de quem as quisesse ler. Ficou a nu, tudo o que sempre esteve lá antes das mil e uma camadas de educação, preconceitos e socialização adquirida. Depois do vendaval, a visão desse eu primordial, daquelas asas libertas a querer testar o espaço, criou uma revolução mental que quase me levou à loucura. Na dor daquela exposição forçada, reconheci quem era. Naquela teimosia de compreender tudo, percebi como tinha chegado ali, e mesmo depois de chegar ás causas e consequências das decisões tomadas até aquele momento, duvidei delas, e de mim. Acho que somos quem somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas. Confesso, tive momentos em que não sabia quem era, quem queria ser e do valor desse querer. Ainda hoje, não sei se a transformação é negativa ou positiva, sei simplesmente que é irreversível. No fundo, todas as revoluções se evaporam e deixam atrás de si apenas o limo de uma nova burocracia.

Tive medo de estagnar, pois vi caminhos possíveis, mas fiquei imóvel demasiado tempo.  Pesando bem, não sei dizer o que era maior, se o medo de falhar, ou a vergonha do ser em que me tinha transformado. Não queria caminhar nua, exposta, sem a segurança a que me habituara. Não queria ser compreendida. Acima de tudo, não queria dar nas vistas.

No meio do turbilhão de duvidas, a cabeça solta apanhou-me distraída, ameaçando fugir de novo levando o coração com ela, para voar atrás de sonhos loucos. Segurei-a com força, até ter os braços cansados. Não me podia dividir, cedências mutuas tinham que acontecer. Apesar de ter intuído onde tinha chegado e porquê, necessitava urgentemente de reconstruir novas amarras para que o corpo pudesse sobreviver, para que não fosse arrastado na próxima tempestade. Até os sonhos precisam de corpo, de substância para se concretizarem. Convenci-me que sabia o que estava a fazer, escolheria com cuidado.  A experiência seria o meu escudo e a minha arma, a minha mais valia, seria eu a controlar desta vez. Menos peso, mais mobilidade. E foi assim que adquiri rotinas novas, novos alertas, para não perder nada de mim, para me manter inteira, para garantir que esta dualidade fosse viável. Devagar, ganhei  densidade e coerência, sempre tentando manter o equilíbrio. O espírito, queria voar, sabia que o céu é o limite. Mas o corpo, sensato, sussurrava: Que importa que já o saibas? Só se sabe o que já não nos surpreende.

Agora, que sei o que sei, quando sinto no vento, um sinal de revolução no horizonte emocional, organizo o espaço à minha volta, para serenar a mente. Para que a tempestade não chegue a formar-se. Porque saber não é nada, se não agirmos com base nesse extra de consciência. Descobri que a minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prémio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema e simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Ter percebido como cheguei aqui, ajuda-me a decidir, mas retira a leveza de uma escolha cega e inconsequente. Assumir o presente, com a responsabilidade de quem somos e do que queremos ser, liberta-nos da dependência do destino, mas assusta como o raio! Afinal, significa que o nosso destino está nas nossas mãos.

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