As ondas que te levaram

As ondas beijaram a areia um pouco mais alto hoje, apagando o teu nome, que entretanto havia escrito numa areia semi-molhada, levando com elas o último pedaço de ti.

Sento-me aqui, nas areias da praia que uma vez considerámos como “nossa”, a agradecer aos ventos, ondas e grãos de areia o facto de já não seres um dos pesos que carrego às costas.

Mentiria se dissesse que está tudo esquecido, que significaste puramente nada. Que foste apenas mais um caso de uma noite, ou, neste caso, de 731 noites, noites essas passadas entre camas alheias a um dos nossos corpos e esta praia, praia que foi a “nossa” durante os dois anos que estiveste a meu lado.

Guardo daqui muitas memórias, sabes? Não só tuas, não só nossas. Mas especialmente, minhas.

Cresci neste Oeano, enterrando os pés na areia desta nossa encosta tão Portuguesa, percorrendo todas estas praias e prainhas que vão deste tão nosso local às costas Algarvias.

Quantas foram as vezes que não me deitei neste areal, ansiando por ficar com um bronzeado que fizesse inveja a um estrangeiro que se deita nas praias do Algarve todo o dia, e fica,mesmo assim, tão vermelho tal a casca de um lagostim.

Quantas vezes não corri pelas encostas destas dunas, de modo a rebolar por elas a baixo ou não corri para as rochas para dar saltos de dois metros e meio, causando pequenos ataques cardíacos à minha mãe.

Existiram vezes que decidi, se bem que muito loucamente, ir sozinha à água, apesar de saber nadar pouco ou nada, e de vir a rebolar nas ondas.

Hoje, e sabes tu tão bem quanto eu, sou capaz de atravessar um piscina olímpica sem problemas ou parar a meio, mas as lembranças de quase-afogamentos ficaram.

Esta praia traz-me tantas memórias, maioritariamente memórias que nem aqui ocorreram.

É em umas praias mais a Sul que eu me costumo deliciar a ver os surfistas e body boarders, nas suas acrobacias e treinos, ou mesmo provas de competição.

É mais a Sul ainda que me delicio no Verão a ver jogos de “Call of Duty” humano entre Nadadores-Salvadores e mais a Sul ainda que levo a Leonor à praia, por ser uma praia tão mais calma.

Mas esta? Esta aqui é especial. Foi a “nossa”,em tempos passados que no futuro permanecerá tão presente quanto o presente atual.

As ondas beijaram a areia um pouco mais alto hoje, apagando o teu nome, que entretanto havia escrito numa areia semi-molhada, levando com elas o último pedaço de ti.

Quando um dia esta garrafa der à costa e que, quem quer que seja, se decida a ler estas palavras por mim escritas, quero que saibas que foste levado a percorrer outros mundos dentro do teu próprio Mundo, através de simples palavras e desejos que sejas feliz.

Se um dia a esta praia regressares, aproveita para veres a vista de uma forma diferente, a vista desta praia, do nosso campo de batalha.

 

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