Maio 2016

O Lugar Onde Acaba o Mar

Já passou uma semana desde que aqui estou. Continuo a comprar pão naquela mulher, da qual já não te deves recordar. A tua memória começou a falhar e perdida na minha solidão destes dias que passam devagar, penso que esse também deve ser um dos motivos para eu voltar a estes lugares. Não quero esquecer. Não posso esquecer. Não me deixes esquecer, Mãe.

inspirado no meu primeiro guião escrito em 2014.
fotografia da minha autoria, tirada em 2012/2013 em São Martinho do Porto.

Mãe, estou a voltar ao lugar onde vínhamos todos os verões.
Tenho a cabeça a latejar. A ondulação do autocarro começa a entranhar-se no meu estômago. Logo eu, que nunca enjoei. Nem nas viagens que sempre fizemos de carro.
De carro era directo. Chegávamos, já o carro aquecido do calor da estrada e de todas as nossas vontades de ter pelo menos uma semana de descanso e mesmo em frente à casa que tínhamos alugado por telefone, despejávamos tudo o que trazíamos connosco.
A casa às costas.

Hoje não sei onde o autocarro me vai largar. Não sei se ainda recordo os caminhos que fazíamos a pé. Do mercado. Da estrada que dá até à casa que voltei a alugar. Da avenida de onde se vê o mar, sem ondulação, a areia suave à superfície dos pés e os pescadores.

Mãe, não sei porque voltei.
Algo se partiu em mim. Começo a aperceber-me que preciso de regressar a alguns lugares para me encontrar. Para lembrar o que já fui e o que ainda quero ser.
A vida não tem sido graciosa comigo. Não sei porque te coloco isto nestes postais que vou comprando, quando tu já o sabes.
Só quero avisar-te. Quero que saibas onde estou se me perder ainda mais. Se procurar mais fundo dentro de mim, mais fundo nesse lugar e não souber voltar à minha superfície.

Ontem voltei ao mercado onde comprávamos pão. A mulher continua a ser a mesma. Agora um pouco mais enrugada. Já perdeu a juventude e penso que o amor também. Veste roupagem preta e quando lhe deixo cair os cêntimos nas mãos, reparos nas duas alianças que tem no dedo anelar, como que coladas uma na outra. Vejo as rugas e a secura que a vida ao lado do mar lhe proporcionou. No fundo  o salitre não estraga apenas as casas como dizia o pai.
Lembras-te do pai? Sempre tão descontraído? Sempre tão diferente! Ele era uma pessoa diferente ao pé do mar. Penso que nisso saí a ele.
Porque a ti, a ti não te oferecíamos descanso. Continuavas a preparar os lanches, a arrumar as toalhas, a manter a casa limpa de areia, antes que ela própria se tornasse uma pequena praia particular, que eu adoraria ter em criança. Vinhas mais cedo da praia, para que quando eu eu o pai chegássemos o almoço estivesse pronto e nisso, nisso, perdias tudo o que nós víamos de novo.
Naqueles momentos pachurrentos em que nada mais existe senão observar as acções casuais das pessoas com quem partilhamos o areal.

Perdeste o momento em que o pai caminhava na direcção oposta à minha, pelo litoral e eu observava um rapaz e uma rapariga, que no passadiço se tocavam. As mãos entrelaçadas. Os olhares muito fundos um no outro.
Deixei cair os brinquedos que trazia na mochila transparente, que chorei para me comprares, e fiquei a vê-los, tentarem tornar-se um só. Não conseguiam.
Quando o pai ao longe me chamou e olhei na sua direcção vi a razão de aqueles dois seres não poderem ser um só.
No passadiço estava uma outra pessoa. Uma rapariga de cabelo castanho que ondulava com o vento daquela manhã fresca. Olhava-os entre o ódio e a dor. Percebi-o porque também já o tinha visto nos teus olhos, Mãe. Em relação ao pai.
O pai volta a chamar-me, mas agora o meu nome é cruzado no ar com outro.
O rapaz larga as mãos da rapariga que junto dele estava e começa a fazer soar a madeira do passadiço enquanto corre para alcançar a rapariga do cabelo ondulante.
Apanho os brinquedos e caminho devagar até ao lugar onde o pai é apenas um ponto no meu horizonte.
Ainda olho para trás, para ver o que acontece à rapariga que ficou estática no lugar onde acaba o mar, mas os brinquedos caem e preciso de os apanhar, antes que o pai desapareça do lugar onde ainda o consigo ver.

Nunca te contei esta história, Mãe?
Os postais começam a ser pequenos para tudo o que te quero dizer. Sei que não vou ter tempo nem lugar para o fazer pessoalmente e sabes que sempre preferi escrever. Porém sei que sabes também, que depois das inúmeras depressões que partilhámos juntas, te conto tudo. Nada te oculto. Não posso, não consigo.
Era como se ocultasse a verdade de mim própria.
E sabes como me sinto em relação à mentira. Era como Florbela dizia: tenho-lhe um horror quase físico.

Já passou uma semana desde que aqui estou. Continuo a comprar pão naquela mulher, da qual já não te deves recordar. A tua memória começou a falhar e perdida na minha solidão destes dias que passam devagar, penso que esse também deve ser um dos motivos para eu voltar a estes lugares. Não quero esquecer. Não posso esquecer. Não me deixes esquecer, Mãe.

Volto a conhecer todos os recantos desta pequena vila marítima.
Como em criança, já me perdi pelas ruelas e voltei a decorar todos os lugares de interesse. Os pontos que me fazem voltar ao princípio do fim. Agora já sei ler os livros, por isso já me deixo entrar na biblioteca municipal.
Os livros são velhos. Parece que o sal e o sol também chegou até eles, mesmo dentro destas quatro paredes de estantes poeirentas.
Mas não obstante, carrego-os com o mesmo amor, como se fossem novos ou meus.
Caminho pela avenida que mostra toda a longitude da praia e vejo alternadamente, a vida correr à frente dos meus olhos.
Mas hoje existe um pormenor que não te posso esconder e que me proporcionou uma incredibilidade espontânea, na procura das minhas palavras. Das minhas histórias.
Ao lado do livro, trago um caderno e nele apontei o que vi.

Um ponto negro no areal. Quanto mais me aproximava dele mais lhe conseguia destacar os traços.
E então vi.
Mãe, vi a mulher que sempre nos vendeu o pão no mercado, pela manhã, em direcção ao mar, a carregar dois garrafões de água completamente vazios.

Como uma espia, fiquei a ver os seus passos marcados na areia quente do sol da tarde, encaminhando-se para o mar.
Lá encheu os dois garrafões com água do mar.
A custo os carregou para fora do areal e pela avenida.
Fiquei a olhar todos os movimentos, como uma estátua petrificada, até que algo em mim se movimentou e a segui.
Segui a mulher de negro, até ao lugar que era a sua casa.
Uma casa pequena. Singela. De paredes brancas. Janelas minúsculas, abertas para o vento que ondulava os cortinados rendilhados.
Deixei que, ao custo da idade, ela entrasse com demora dentro de casa.
Escondida na minha própria sombra, aguardei até ter a certeza que poderia ter um vislumbre do que aconteceria à água do mar que vinha em garrafões.

Aproximei-me das janelas, Mãe, e por elas espreitei, correndo o risco de que ela me visse, mas aos quase quarenta anos, deixei de ter esses medos. Podia e merecia ver tudo aquilo que me intrigava.
E vi.
Ela deixou cair a água na banheira.
Uma das janelas que ficava na frente da casa dava para a casa de banho.
Despiu-se e a roupa que lhe caiu do corpo, ficou num monte aos seus pés.
Entrou na banheira.
Fechou os olhos e deixou-se ficar.
Até que vi o seu rosto calmo deslizar e submergir na água que já lhe cobria o corpo frágil e enrugado.
E o borbulhar da respiração que eu devia ver à superfície, em poucos segundos, deixou de existir.

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