Maio 2016

…de onde houver mar

“De onde houver mar.” afirmaste como se me estivesses a dizer a coisa mais natural do mundo. A coisa mais natural do TEU mundo. E levaste a tua caneca de chá quente aos lábios.

Ainda me lembro daquela primeira vez que te vi. Estavas rodeada de gente, e irradiavas alegria no meio daquela pequena multidão. Os teus olhos de mar cruzaram-se com os meus e sorriste. Sorrimos.

“De onde és?” lembro-me de te ter perguntado de uma das primeiras vezes que falámos, sempre foste uma daquelas pessoas que parecia transpirar autoconfiança por onde quer que passasse, chegavas mesmo a intimidar os que te rodeavam.

“De onde houver mar.” afirmaste como se me estivesses a dizer a coisa mais natural do mundo. A coisa mais natural do TEU mundo. E levaste a tua caneca de chá quente aos lábios.

Agora aqui estava eu. Sentado numa qualquer praia em janeiro enquanto tentava recordar todas as palavras que alguma vez me tinhas dito, a tentar desvendar a pessoa que eras debaixo dessa tua capa.

Lembro-me de te ver diversas vezes de cabelo molhado e as roupas húmidas a colarem-se-te ao corpo: na rua, nos corredores, em qualquer lado, e o cheiro a maresia que espalhavas por onde quer que passasses.

Amei-te, e acho que nunca realmente percebeste isso. Acho que nunca quiseste perceber, acho que nunca conseguiste realmente lidar com essa possibilidade sequer.

Quero recordar-te, sabes? Quero recordar-te como eras, não apenas a tua superfície alegre e autoconfiante, quero também recordar quem eras no interior do teu mundo, com lágrimas e gritos e tristezas. Quero recordar-te por inteiro.

Como no dia do nosso primeiro beijo. No dia em que me ligaste a pedir que fosse ter contigo, à praia, claro. Quando cheguei eras a única pessoa na praia. O mar estava agitado e estavas bastante perto da água, demasiado. Corri até ti. Estavas enxarcada e a chorar.

Não disseste nada quando me viste. Apenas fizeste sinal para que me sentasse do teu lado. Sentei-me e passei o meu braço por detrás das tuas costas e encostaste a tua cabeça ao meu ombro. Apercebi-me do quanto gelada estavas e puxei-te um pouco mais até mim.

“Porque vieste?” a tua voz não soava como habitualmente. Soava vazia.

“Não sei. Vim.”

Desculpa. Gostava que tivéssemos tido mais tempo. Mas uma das coisas que aprendi contigo é que não podemos mudar as pessoas. E tu eras uma força da natureza. Tu eras como este mar de janeiro: revoltada, lutadora, abalavas tudo e todos por onde passasses.

A cada onda que rebenta e me salpica imagino-te.

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