O melhor lugar do mundo

Aquela era praia deles. Aquele recanto que Ela visitava de Verão e de Inverno, juntamente com os irmãos. Aquele pedaço de areia coberto de águas límpidas que quase ninguém conhecia, mas para o qual eles sabiam o caminho de olhos fechados.

Hoje, as visitas à sua praia de infância não sabem ao mesmo. Os risos de crianças à sua volta, os castelos na areia que Ela recorda, os mergulhos e as apostas não são mais do que memórias que se misturam com o som do rebentar das grandes ondas, em pleno Verão.

Aquela era praia deles. Aquele recanto que Ela visitava de Verão e de Inverno, juntamente com os irmãos. Aquele pedaço de areia coberto de águas límpidas que quase ninguém conhecia, mas para o qual eles sabiam o caminho de olhos fechados.

Recorda-se do dia em que apanhou o seu maior susto – quando o seu irmão mais novo desapareceu depois de um mergulho. Os miúdos têm destas coisas: nadara para uma gruta próxima, sem avisar ninguém, e o facto de os pais os terem proibido de ir para lá era sinónimo de desespero por não poder pedir ajuda. Ela, como irmã mais velha, teria que assumir a responsabilidade, e sabia perfeitamente que os pais nunca a perdoariam. A solução foi fazer-se ao mar. Ao longe, já a uns bons metros da costa, a nadar e a tremer ao mesmo tempo, olhou para trás e viu o seu petiz a acenar-lhe e a rir-se do seu desespero como se fosse a melhor comédia do mundo. O regresso à praia fez-se acompanhar de uma boa sessão de luta de irmãos. Conveniente para descarregar o stress. E hoje, esta é uma das melhores memórias que guarda por ser a concretização daquele amor que os unia: a vida dos três era uma só. Eles eram um só.

Hoje, as visitas à sua praia de infância não sabem ao mesmo. Anos passados, só pode visitá-la sozinha. Ninguém mais pertence ali, a não ser Ela e os seus irmãos. Mas esses estão longe, do outro lado do mar. Mas apesar disso, parece que este ainda é o local onde estão mais perto: só o oceano os separa.

Ali, Ela sabe que ouve as mesmas ondas que eles, que vê o mesmo azul que eles. Não há ecrã ou fotografia que cubra essa distância ou o vazio no seu coração. Ela maldiz a Vida de todas as vezes que sente a areia nos pés – porque a sente fria, húmida, densa, quando antes os seus pés descalços apenas a sentiam leve nos breves momentos em que não estavam no ar no meio de brincadeiras e mergulhos. Porque a Vida foi dura, muito dura. Porque a Vida obrigou os irmãos a deixar aquela praia só para Ela. E hoje as visitas a este lugar são de uma solidão profunda, de uma saudade imensa. O mar traz-lhe saudade e leva-lhe as lágrimas que lhe escorrem da cara a cada visita.

E ainda assim, este é o melhor lugar do mundo.

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Publicado por

Joana Sousa

Engenheira Civil de profissão, fotógrafa, actriz, decoradora, escritora, sonhadora de paixão. Autora do blog Jiji.

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