Julho 2016

Isabel

Isabel está perdida. E não existe medo maior do que esse. Do que a incerteza de não ter um lugar para onde ir.
De que a terra seja disforme e os pés não saibam como calcorrear o que pisam.

Isabel?

Isabel?

Isabel continuava a invocar o seu próprio nome dentro do seu cérebro, que deambulava, quase como um cortinado ao som do vento quente de verão.
Na mesa à sua frente, estava papel e caneta.
O papel repleto de pontos organizados por importância, alguns riscados, a maior parte ainda por concretizar.

Isabel olhava à sua volta.
A roupa dobrada cuidadosamente na estante que deveria conter livros. Os casacos categorizados por cores. A colcha da cama puxada sem um único vinco visível, pelas pessoas imaginárias que poderiam entrar pela porta do seu quarto. A mesma que estava trancada. A mesma à qual virava as costas, como sendo uma forma de ignorar o que está lá fora e que é capaz de ver através das cortinas brancas que caem à sua frente.

Na imagem que a janela enquadra, uma casa disfuncional e uma chaminé que nasce do meio do nada. As árvores a nascerem dos pontos extremos do enquadramento e um céu tão azul que seria impossível encontra-lo na caixa de lápis que vive na sala de estar.

Por entre as gotas verdes da cortina branca, Isabel vê uma nuvem enorme mover-se rapidamente. Mais rápido do que naquele que conhece como sendo o seu país.

Isabel há muito que deixou a sua casa. O seu país. Naquele lugar onde habitam os fantasmas e os mortos, não existia espaço para os sonhos que a consumiam. Aos poucos a rapidez do desejo tornou-se tão grande quanto aquela nuvem que observa disforme e que se vai dispersando.

Isabel abre as gavetas. Tudo organizado. Catalogar, organizar, coordenar, sistematizar, estruturar, arrumar, regular. Palavras de ordem. Sinónimos. Habitantes de um estado de espírito. Consumidores de um estilo de vida.
Estas palavras estão por toda a parte na vida de Isabel.
No que diz respeito a estas palavras, Isabel não é minimalista. Prefere tê-las todas por inteiro.

Mas quando fecha as gavetas as perguntas que a desorientam surgem novamente.
Isabel não sabe para onde vai. Para de quer ou deve ir. Não existem repostas. E sem respostas não há um ponto onde Isabel se possa agarrar, organizando as estradas que formam o seu caminho.
Isabel está perdida. E não existe medo maior do que esse. Do que a incerteza de não ter um lugar para onde ir.
De que a terra seja disforme e os pés não saibam como calcorrear o que pisam.

Isabel?

Para onde vou? O que faço quando o mês terminar? O que faço quando a licença desta casa findar?
O que vou fazer quando voltar para casa?
Quem sou eu e onde estou?

Olhar em volta novamente não trará respostas. Tudo está organizado, mas é como se pelo chão do quarto tudo estivesse espalhado. Como se a porta não estivesse trancada e por ela entrassem milhares de homens e mulheres de pés sujos e fossem destruindo os seus pertences.

Sinto que Isabel não se importaria. Se essa desorganização lhe trouxesse a resposta de que precisa e desfigurasse o medo de não saber para onde vai, como vai e se lá chegará.

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