Julho 2016

O momento certo

Nunca era o momento certo. Nunca. Sempre que o tentara, certa de que era a melhor decisão apesar das consequências, o resultado tinha sido nulo. Mentira, nulo não. Tinha sofrido antes, durante e depois. De cada vez que o tentara sem o conseguir, era como se tivesse sido espancada na alma e com isso ela tivesse mirrado mais um pouco, encolhida na vergonha de se expor sem  compreensão.

Só mais esta… Prometia ela a si própria, de olhos fechados ao mesmo tempo que sentia o sol aquecer-lhe os ossos.

Estava dentro do carro há meia hora. Não conseguia arranjar força mental para sair.  As musicas sucediam-se, e no seu cérebro faziam-se promessas como se de uma roleta russa se tratasse. Se a próxima musica for gira ouço até o fim e depois saio. Eram todas giras, parecia que o universo conspirava para que não saísse nunca daquele carro.  Como se lhe quisesse mostrar de todas as formas, que o que sabia ser certo, afinal não era. Via sinais em todo o lado, mas a verdade mais dolorosa, era que tinha um medo irracional de o enfrentar.  Andara meses sem fim a adiar. Todas as desculpas tinham sido boas, e quando não as havia, o universo, esse conspirador infernal, tinha-as arranjado.

Nunca era o momento certo. Nunca. Sempre que o tentara, certa de que era a melhor decisão apesar das consequências, o resultado tinha sido nulo. Mentira, nulo não. Tinha sofrido antes, durante e depois. De cada vez que o tentara sem o conseguir, era como se tivesse sido espancada na alma e com isso ela tivesse mirrado mais um pouco, encolhida na vergonha de se expor sem  compreensão.

Num repente, colocou a mão na porta para sair. Os suores frios voltaram, juntamente com aquela sensação de que o mundo, como o conhecia, ia acabar. Falta de ar, coração acelerado, e a cabeça quase a explodir. Sentia o coração prestes a rebentar dentro do cérebro, (como se isso fosse possível!), parecia que ia morrer ali sozinha ao som dos Abba, de síncope cardíaca, com tudo o que tinha para dizer atravessado na garganta. O seu lado racional dizia-lhe para respirar devagar, para se recompor. Que era só o medo  a fazer das suas, que não fazia sentido, que iria conseguir ser clara desta vez, e dizer tudo sem gerar equívocos.  Mas o corpo demorava a responder. Imóvel tentava concentrar-se na música, esquecer o mundo lá fora e convencer-se que estava segura. Que, fosse qual fosse o resultado ia ficar bem.

Não ia, sabia que não. Sabia que o mundo era cruel, mesquinho, grande demais para ser enfrentado a solo. Sabia que se estava só a enganar. Ia morrer só. Como a velhota dos gatos. Quando dessem por ela seria pelo cheiro do seu cadáver putrefacto, pois nem gatos tinha. Deu um salto no banco, bateu com os joelhos no volante e abriu os olhos com a dor. Estava alguém a bater no vidro do carro. Olhou sem entender o que dizia. Baixou ligeiramente o vidro. “você está bem?” perguntava. “Sim”, disse ela com uma voz sumida. “Sim, está tudo bem, foi só uma má disposição.” Olhou-se ao espelho e viu a palidez em volta das olheiras profundas. Tinha que se controlar. Sorriu a custo para convencer a pessoa a seguir o seu caminho. Conseguiu. Sentia-se mais calma. Respirou profundamente, puxou o banco para trás, e esticou as pernas já que lhe doíam de toda aquela tensão.

“Só mais uma musica. Se for gira, ouço até ao fim e depois saio.” Era assim quase todos os dias. Saía do trabalho e a vontade de regressar a casa era nula. Ele estaria lá. Ele, que a manipulava com sorrisos. Ele que fingia que tudo estava sempre bem. Ele, que lhe roubava a segurança e a empurrava para aquele canto de culpa e de vergonha, que transforma pessoas em fel. Ela sabia que a culpa era só sua. Ela sabia que ninguém iria ficar do seu lado. Em ultima análise, e visto de fora, tudo o que ele lhe fizera fora por culpa sua. Conseguia adivinhar os  pensamentos das pessoas depois de fazer o que se tinha proposto: Ela não tinha sido compreensiva o suficiente. Ela não tinha pensado nas necessidades dele. Ela era uma eterna insatisfeita, não vivia no mundo real. As pessoas normais contentam-se com o que têm. Aceitam as falhas e perdoam. Ele era a verdadeira vítima, como é que ela não via o quanto ele se esforçou para a fazer feliz? Ele cometera erros, claro, ninguém é perfeito, mas arrependera-se, das duas (ou três?)  vezes, que o inominável tinha acontecido. Como é que ela podia ser tão egocêntrica?

A musica acabara, quebrando a fúria galopante dos seus pensamentos.  O coração estava mais uma vez acelerado perante o que sabia ter de fazer. Esperou pela musica seguinte. Não, não lhe dava a desculpa que ansiava, para ficar mais um pouco. Mudou de estação num ato desesperado de encontrar a musica certa. Nada, nada, publicidade, publicidade, nada, porcaria, noticias… Parou. Chega!

A tremer, ela sai do carro. Avança rapidamente para não perder a coragem. Respira fundo e abre a porta do prédio. Chama o elevador, entra, e olha-se ao espelho à procura de sinais do medo que lhe aperta o coração e lhe corre nas veias, fazendo-a transpirar como se corresse uma maratona. Nada transparece.  Só as mãos tremem ligeiramente. Entra em casa e procura-o sem  o chamar. Encontra-o sentado em frente à televisão, de olhar vazio. No momento em que abre a boca para lhe dizer de uma vez por todas, que acabou tudo, e que o quer fora dali, percebe que algo aconteceu.

“Senta-te, tenho uma coisa muito séria para te contar.”  Ela sentou-se. “Fui despedido.” Ela ficou muda, inerte, sentiu a vida fugir-lhe para sempre. Gelou, enquanto ouvia a gargalhada seca do universo.

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