Maio 2016

O destino de Sigewulf

E aí ele compreendeu o que ela lhe estava verdadeiramente a ensinar. Que o mar, tão verdadeiro e palpável naquele momento, era – ao mesmo tempo – uma metáfora para tudo aquilo que a vida jogara contra ele durante os seus curtos anos naquele mundo. Naquele momento, soube que nunca tinham feito por ele […] o que aquela rapariguinha de olhos verdes e nascimento nobre tinha feito. Nunca ninguém quisera saber dele até então. Já não estava sozinho.

Permanecera aparentemente incólume a todos os acontecimentos recentes em torno da sentença do rei. Não era todos os dias que um rei era condenado ao exílio e destituído não só de poder, mas de qualquer vestígio de tudo o que fora e conhecera. Mas se havia rei que merecia tal castigo esse rei era Sigewulf.
A pena, ainda assim, tinha sido mínima para o crime que cometera, diziam uns. Para outros, incluindo o próprio Sigewulf, aquele era um castigo pior que a morte. Sigrid sabia-o, vira-o nos seus olhos e sentira a dor que lhe ia na alma, ainda que a sua voz não a demonstrasse quando sugeriu a execução rápida em vez daquilo que ficara decidido em assembleia.

Enquanto aquele que se proclamara rei daquela colónia subia lentamente para o pequeno barco que o levaria ao alto mar e rumo ao exílio, Sigrid deu os primeiros sinais de derrota na luta que travava há dias contra uma enchorrada de lágrimas que ameaçavam inundar-lhe os olhos e escorrer-lhe livremente pelo rosto.
Lembrou-se de quando ela e Sigewulf eram praticamente ainda crianças e do medo que o amigo tinha da vastidão do mar. Nunca tinha sido grande nadador, embora tivesse aprendido todas as habilidades que se esperavam dele enquanto futuro homem.
Ao vê-lo enfrentar um futuro incerto a bordo de um barco minúsculo perdido algures no oceano, não pôde impedir a sua memória de divagar novamente a uma época em que tudo era melhor, mais simples, pacífico e inocente, uma época em que ensinou Sigewulf a vencer o medo do mar.

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Naquela tarde de sol, o mar estava especialmente agitado, embora não particularmente violento. A turbulência das águas seguira-se à tempestade das duas últimas noites, mas era precisamente essa a altura ideal para levar Sigewulf consigo e enfrentar – de vez – o medo das ondas e do mar. Se esperasse mais um dia, a calma instalar-se-ia de novo e não haveria nenhum grande desafio para o amigo ultrapassar, já que aprendera a nadar razoavelmente bem, ainda que não fosse muito rápido.
Ao tentar ler-lhe a emoção no rosto, tarefa essa que mesmo em criança não era fácil, Sigrid reconheceu-lhe o primeiro medo: lutar contra a rebentação.
Repentinamente, o rapaz tentou a sua sorte, sem procurar nos olhos da amiga o sinal de aprovação que ela lhe reservava assim que chegasse o momento certo. Sem surpresa, viu Sigewulf enrolado pela rebentação forte da onda na areia. Viu-o girar, enrolar-se com a onda e o turbilhão de cabelos negros dançar em torno de milhares de partículas de areia que a força do mar levantou. Assim que este conseguiu finalmente levantar-se e sair a correr do meio de toda aquela agitação marítima, Sigrid reprimiu uma gargalhada com alguma dificuldade. Não podia magoá-lo dessa forma, logo a ele que era um rapaz extremamente orgulhoso e demasiado sério para a idade que tinha. Por outro lado, sabia-o rejeitado pela família devido às origens do seu nascimento fora do casamento do pai, e da vontade que tinha em provar-se digno de respeito e aceitação.

Com Sigewulf já em pé e a protestar que não valia a pena e que estava a perder o seu tempo com ele, Sigrid encarou a sua fúria como frustração, respirou fundo e afastou-lhe carinhosamente o cabelo negro dos olhos. Deixou-se ficar um momento com as mãos a descansar nos ombros de Sigewulf e olhou-o bem nos olhos:

– Para de tentar lutar contra o mar. Essa é uma batalha que nunca vencerás, tens que saber isso. Tens que perceber que não podes controlar tudo, Sige. Assim que o aceitares, vais ver como é fácil.
– É fácil para ti! – respondeu o rapaz, de ego magoado, ainda numa revolta só sua, mas sem desviar os olhos de um castanho escuro profundo dos verdes de Sigrid.
– Vais ver. Confias em mim, Sige?
– Tanto como alguma vez confiei em alguém, penso eu. – Sigewulf deu-lhe a resposta com um encolhimento de ombros, desviando finalmente o olhar do dela.

A resposta era previsível e curiosamente verdadeira. Sigewulf não confiava em ninguém e muito menos se deixava conhecer e instruir por qualquer um. Sigrid era uma excepção não confirmada pelo rapaz dos olhos negros, mas ela sabia-o sem que ele precisasse de proferir uma única palavra. E estava disposta a tudo para não o deixar ficar mal e para que nunca mais conhecesse a solidão e a rejeição.

– Fazemos assim, Sige; vais dar-me a tua mão e corres quando eu correr. Quando eu largar a tua mão, tu mergulhas. Não hesites, não podes hesitar. Confia em mim. Encontramos-nos à superfície.

Sigewulf respondeu sem palavras. Bastou um aceno de cabeça decidido, o brilho desafiante novamente de regresso aos seus olhos.
E assim foi. Assim que uma onda se desfez com violência mesmo à sua frente, deixando apenas um enorme rasto de espuma para testemunhar a sua fúria, Sigrid começou a correr, de mão dada com Sigewulf. Assim que outra onda começou a formar-se, quando a água já batia ao nível da cintura de Sigewulf e um pouco mais acima da cintura da rapariga, ela largou-lhe a mão e mergulhou. O rapaz seguiu-a obedientemente, uma vez na vida. Ao emergirem ambos ilesos e fora do perigo de serem enrolados pela onda, ele olhou-a com surpresa, apenas para, de seguida, gritar o seu nome a plenos pulmões avisando-a de um perigo que surgia inesperadamente atrás de si. Era outra onda, esta ainda maior que a anterior e que ameaçava rebentar muito antes da praia, talvez mesmo em cima deles.

– Calma, Sige! Esta é a próxima etapa! Não penses, mergulha e deixa a onda passar. Vais sentir quando terminar. Espero-te cá em cima de novo!

E, com isto, mergulharam novamente. Ela tinha razão. Ele sentira-a a passar. A sua cabeça escapara ao impacto; estava protegido debaixo da onda. Os pés, esses, tinham permanecido ligeiramente à superfície e Sigewulf sentiu-os a serem puxados um pouco mais em direcção à praia. Assim que ambos emergiram, Sigewulf nadou o mais rapidamente que pôde em direcção a Sigrid.

– Vês, Sige? Conseguiste! Percebes agora porque não deves lutar? O segredo é acompanhar as ondas, nunca lutar contra elas. Nem um drácar consegue fazê-lo quanto mais um rapaz ou sequer um homem feito?

E aí ele compreendeu o que ela lhe estava verdadeiramente a ensinar. Que o mar, tão verdadeiro e palpável naquele momento, era – ao mesmo tempo – uma metáfora para tudo aquilo que a vida jogara contra ele durante os seus curtos anos naquele mundo. Naquele momento, soube que nunca tinham feito por ele – um mero bastardo de pai nobre morto precocemente, deixando-o sozinho no mundo – o que aquela rapariguinha de olhos verdes e nascimento nobre tinha feito. Nunca ninguém quisera saber dele até então. Já não estava sozinho.

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Subiu abordo do pequeno barco com um pé, depois com o outro, muito lentamente, ou assim parecia a Sigrid. Dali para a frente, a sua única companhia seriam as ondas do mar e as suas magras provisões. Mas por mais que reconhecesse a crueldade dos actos do Rei Sigewulf, Sigrid nunca deixara de ver o rapazito de olhos revoltos, sedento de pertença e aceitação. Por pior que tivessem sido os seus crimes, ela amava-o porque sabia que o rapaz que aprendera a amar vivia ainda dentro dele.
Por fim, perdeu a guerra e as lágrimas saíram, uma atrás da outra sem qualquer som a acompanhá-las. Caíam livremente sem piscar os olhos, grossas e pesadas da tristeza reprimida.
Ele podia aceitar o seu castigo, mas ela não. Não ia deixá-lo ir sozinho, não podia. Queria dizer tanta coisa e justificar inteligivelmente o que lhe ia na alma, mas tudo o que consegui foi enunciar uma espécie de uivo que se assemelhava a “NÃOOOOOOOOOOO!”

Sigrid despira o manto de serenidade na praia e correu para o barco de Sigewulf.

– O que pensas tu que estás a fazer, Sig? – a voz de Sige não era amigável, mas Sigrid sabia que não era por não a querer com ele. As lágrimas formavam-lhe também nos olhos negros, por mais que as tentasse esconder por trás do manto de cabelo escuro.

Mas era tarde de mais. Ela tomara a sua decisão há muitos anos atrás. Ela nunca mais o deixaria saber o que era a solidão.
Sigrid olhou-o mais uma vez nos olhos, afundando os seus nos dele como tantas vezes fizera quando queria transmitir-lhe os seus pensamentos. E ele compreendeu. Não protestou; era inútil. Mais uma vez, sentiu como ela o amava e como, mesmo depois de tudo, queria protegê-lo. Doí-lhe mais que tudo no mundo saber que não fizera nada para o merecer, mas a partir daquele momento, independentemente daquilo que o futuro lhes reservasse, faria de tudo para se emendar, para começar uma nova vida e retribuir todo o amor que Sigrid lhe dera desde que se haviam conhecido há tantos anos atrás.

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