A Espera

O isolamento arrancou-lhe as recordações das quatro paredes, que via agora cada vez mais nuas e tirou-lhe os retratos de outros tempos, comeu-lhe as entranhas e amareleceu-lhe as peles.

Deixou-o à janela, como gato manso ao sol, de boina na cabeça, a olhar sem ver quem passa. À espera.

Abílio espera, vagarosamente,  à janela, não retribuindo os bons-dias de quem passa. Espera apenas, enquanto conta o tempo como quem conta a métrica de um poema intrincado. Sempre de boina na cabeça, já de cor indefinida e amparada por uns cabelos ralos, resquício da juventude.

As vezes afaga a solidão num bagaço corriqueiro, que o Zé do tasco da esquina volta e meia lhe traz. Já há muito que deixara de por lá parar, o ruido da vida dos outros aflige-o ao recordar-lhe o silêncio da sua existência.  Prefere agora o recanto da janela, resguardado nas suas quatro paredes, bolorentas e amareladas pelo tempo. Mas o Zé – bom moço – por pena ou comiseração lá lhe leva, semana sim, semana não, umas garrafas, dois dedos de conversa e uns cigarritos – a alegria daquele velho e o único rosto que tolera.

Não tem televisão – essa maldição dos tempos modernos. Só – sim, embrutecido pela dialéctica sem sentido deste mundo novo, que não reconhece como seu – isso é que não.

Ao invés lê muito, os mesmos livros de sempre. Tal como a humidade se entranha pelas quatro paredes, também a casmurrice bolorenta se entranha na literatura, que prefere incólume e sofrida como a sua existência. Há muito que os sabe de cor – esses clássicos que o acompanham  desde que chegou a Lisboa, morto de fome depois de semanas a mendigar comida e boleias, e que partiram depois com ele por esse mundo fora.

Gostava muito de Hemingway, talvez por lhe lembrar a sua própria incompreensão.

Tudo o que nele existia era velho, com excepção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.” – Começava Abílio, depois de uns copos matreiros, e assim seguia naquele O Velho e o Mar, página após página, num monólogo extasiante.

No início afastava, assim, a sua inexistência. Mas também isso deixou, com o passar do tempo, quando esqueceu o som do eco da voz como sendo a sua.

Sempre tivera boa memória e jeito para a récita. Devia ter seguido as artes, pensava, mas o seu pai não lho permitiu.

A lavoura esperou-o, desde tenra idade, e nem a multiplicidade das vivências que se seguiram a esses primeiros anos, conseguiram apagar os trejeitos dessa vida que ainda tinha nas mãos.

Lavrou os campos até conseguir fugir, deixar para trás essa vida de sol a sol, que tanto odiava. Sempre preferira lavrar a alma que a terra húmida, que se entranhava nas unhas. Talvez por isso nunca tivera amigos pela terra, pensava.

Recorda com afecto o momento em que decidiu partir – juntou dois nacos de pão seco das refeições de domingo, que guardou religiosamente debaixo da almofada. Uma peça de fruta e um naco de carne ressequida.

Desafiou as sortes e provocou uma discussão – sabia que depois dos açoites o mandariam para o quarto, fechado, até ao raiar do dia.

Escapou pela janela, que propositadamente deixara entreaberta, para o mundo. Cruzou os campos e, a cada passo, foi esquecendo: esqueceu a infância, o rosto da mãe, a aspereza surda do cinto do pai, o peso do arado.

Com o tempo, esqueceu-se a si também. Mas foi no esquecimento dos outros  que encontrou o seu refúgio – primeiro, por timidez, depois por habituação – o nada reconfortante de quem nada deve a ninguém.

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Abílio fora jovem um dia, como todos, mas não se lembrava já dos sabores da juventude. Ou porque os quis esquecer, ou porque o silêncio da existência que se seguiu os esmoreceu, talvez por não ter com quem os partilhar.

O rosto chupado não adivinhava o que vivera. Vagueou pelo mundo, tal como vagueou pelos campos depois de saltar pela janela.Viu, ao longe, o recorte dos arranha-céus de Nova Iorque, sentiu  o isolamento frio do Alasca,  o tráfego de navios a entrar no Canal do Suez. Fora até à Ásia longínqua e aos desertos gelados do Pólo Sul.

Partilhou whisky e rum, cama, refeições, cigarros, e assim foi enganando a solidão, enquanto o corpo conseguiu aguentar a vida de mendigo de alto mar. Mas raramente perguntou um nome, fixou uma existência, memorizou um rosto ou afagou um olhar.

Teve alguns amores, fugidios, nunca sérios o suficiente para ser para sempre. Não que não tivesse tido oportunidade mas a entrega e as amarras assustavam-no na juventude e atordoavam agora a velhice.

Hoje em dia via o Zé da Tasca, quando ele passava lá por casa.

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Bom dia Senhor Abílio! Como vai hoje? Sou eu, o Zé! Abra-me aí a porta se faz o favor. Trago-lhe a encomendazinha do costume!” – Gritou o Zé da Tasca, para a janela entreaberta do 2.º andar, estranhando não estar ali Abílio à sua espera.

Simpatizava com aquele velho desde a primeira vez que ouvira as suas histórias, sentado ao balcão do botequim do pai, ali no Cais. Já pouco ou nada restava desses tempos nesta cidade, a não ser as memórias de outras vivências. Recordava-o ainda na meia idade. Já então magricela e amarelado da vida que levava, mas ainda com esperança. Hoje só o olhar era o mesmo, vivo e indomável, como aquele olhar do pescador que Abílio tanto gostava e que volta e meia recitava, do nada.

A solidão acelerou-lhe a velhice…” – murmurava o Zé para si mesmo de cada vez que o ia visitar e deixar-lhe o pedido do costume, enquanto esperava que Abílio lhe abrisse a porta.

O isolamento arrancou-lhe as recordações das quatro paredes, que via agora cada vez mais nuas e tirou-lhe os retratos de outros tempos, comeu-lhe as entranhas e amareleceu-lhe as peles.

Deixou-o à janela, como gato manso ao sol, de boina na cabeça, a olhar sem ver quem passa. À espera.

Raio de desamor voluntário para tornar inútil uma vida e deixá-la ali cerrada, entre quatro paredes, carcomidas pelo tempo!” – Zangava-se Zé com a vida que permitia estas escolhas cegas, estes desperdícios…

Não era homem de grande cultura mas era pessoa de emoção fácil, que contrastava com a largueza da sua barriga e a farfalhice do bigode que trazia. Garoto de cidade grande, que cresceu no bairro a ver os barcos a partir e a chegar, sempre idealizara para si uma vida pacata. Certamente nunca vira o mundo, mas era quase como se o tivesse feito: crescera com as histórias de Abílio e muitos outros, que passavam pelo botequim do pai, para matar as horas e sentir terra firme, talvez um corpo de uma mulher, enquanto o navio atracado reabastecia para mais uma jornada.

Então Zé! Isto são horas? Que cara é essa, homem? Parece que viste uma assombração!”  – Gritava Rosalina do fundo do Beco dos Cegos, assustada com o tez consternada do marido.

Deixa-me estar, mulher! Deixa-me estar…” – Respondeu Zé, quase num sussurro, pousando a encomenda que hoje não conseguira entregar…

Então, o velho não quis o…?” – Começou Rosalina mas calou-se ao ver a expressão do rosto do marido transformar-se.

Não veio sequer à janela, mulher… Acho que nunca mais virá…”. 

 

***

 

 

 

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