Agosto 2016

Diário

Eu ainda era uma criança.
Mas olhava as fotografias dos meus pais como se nunca mais os fosse voltar a ver.
Era uma criança com uma ânsia enorme de encontrar o meu lugar.
Hoje olhando para trás, tendo perceber o que teria acontecido se tivesse completado aquela mochila que caía no chão do meu quarto e tivesse aberto a porta sem medo do desconhecido.

Estas ideias persistiram toda a minha infância. Esta vontade de fugir de uma casa que nunca foi a minha. De um lugar onde me sentia uma completa estranha e onde não encontrava as respostas que precisava para as respostas que baralhavam a minha mente.

Devagar, distanciei-me dessas fotografias que olhava com os olhos repletos de lágrimas e fui travando o meu caminho, do lado oposto da estrada àquela que a minha família seguia.

Eu não era uma criança infeliz, apenas não me sentia no lugar certo, na hora correcta, no momento perfeito.
Procurava aquilo que em casa não me ofereciam e fui crescendo não como criança, mas como um adulto prematuro que todos estranhavam, por ainda me vestir com camisolas da secção de criança.

Perdi rapidamente o gosto pelos brinquedos que cirandavam a casa e pedi que fossem doando. Eu tinha oito anos.
O que é que eu sabia da vida? Não poderia saber mais do que a minha avó que, aos dez anos de idade, carregava fardos de palha na cabeça por quilómetros de terreno árido.

A minha ideia era descobrir o máximo que pudesse do passado dos meus pais, naquele rectângulo que habitávamos e onde nada poderia ser realmente ocultado.
Olhava aquela fotografia e despedia-me, mesmo que mais tarde os saudasse quando chegavam a casa, depois de mais um dia cansativo de trabalho e com a paciência a nível zero para observarem a desarrumação que a minha curiosidade causava.

Com um pouco mais de coragem, dentro do meu coração de criança, eu poderia ter saído. Poderia ter sofrido das mais variadas formas e podia ter-me despido dos meus pais, dos qual hoje sinto tanta falta, estando nós a mais de quatro mil quilómetros de distância, porque finalmente a coragem apareceu. Agora num coração adulto.

 

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2 thoughts on “Diário

  1. Arrisco dizer que com um bocadinho de jeito, esta personagem pode ser transversal aos dois textos mais recentes. As três têm uma vivência quase dolorosa e transportam uma dicotomia coragem/fragilidade que as torna semelhantes.

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    • Edna Loureiro diz:

      Obrigado pelo comentário Sara 🙂
      E pelo comentário deixado no Estrada Verde. Fico feliz que tenhas gostado e que me faças pensas nestas personagens que crio. No fundo, por vezes, penso que todas elas são uma parte de mim, talvez por isso serem capazes de ter as mesmas vivências, etc.
      🙂

      Gostar

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