Matias

Aprendi que é bom não estar sozinho, porque quando a fome aperta é preciso alguém que te ajude. E a minha avó diz que as amizades funcionam mais ou menos da mesma maneira, que precisamos dos nossos amigos porque a alma fica com fome de amor. Isto ainda não sei se é verdade, não percebi bem, mas…a minha avó costuma saber do que fala. Ela e o Matias têm uma coisa em comum: o ar de quem sabe de tudo.

Havia um gato na minha rua, o Matias. O Matias era cinzento, muito magro, com um ar misterioso, olhos amarelos que pareciam lanternas e uns bigodes enormes. A minha avó costuma dizer-me que o Matias devia ter sido alguém muito mau noutra vida, porque tinha um ar muito triste. Eu cá acho que ele era alguém bom. Só alguém bom é que dá em gato, porque os gatos são inteligentes e bonitos e ágeis. Só estava triste porque não tinha dono.

Costumava tentar apanhá-lo distraído para uma festa, mas nunca conseguia. O Matias nunca se deixava tocar. Os únicos momentos em que se aproximava eram quando eu vinha à porta de casa e lhe trazia um bocadinho de peixe ou de leite que a muito custo, e às vezes à escondidas, roubava à minha avó. Eu gostava muito dele, queria ser como ele.

Nós não temos animais porque a minha avó não deixa. Diz que sujam e que alguns animais são “coisa ruim”. Não percebo bem porque é que ela diz isto, porque todos os animais que conheço são interessantes e nunca me fizeram mal. Cheguei a tentar trazer o Matias para casa com um bocadinho de peixe, mas assim que a avó o viu a entrar em casa começou a gritar com o gato e ele fugiu, claro. E depois pôs-me de castigo…e eu fiquei tão triste como o Matias! Mas talvez tenha merecido este.

Um dia, ao regressar a casa, vi o Matias no chão muito quietinho. Estava deitado de lado junto ao muro à frente de minha casa. Não me aproximei porque não queria acordá-lo, mas achei estranho ele estar ali a dormir. Quando entrei em casa contei à minha avó, e ela fez uma cara estranha. Disse para eu ir fazer os meus trabalhos de casa, saíu, e desde aí nunca mais o vi. A minha avó disse-me que quando ela veio cá fora já não o viu, mas eu sei que andou muito tempo à procura dele – sei disso porque as cortinas que ela tem na porta só voltaram a fazer barulho muito tempo depois de ela me ter mandado para o quarto. Ela diz que o Matias deve ser mais feliz agora, diz que foi viver para a Rua dos Gatos, e que há uma rua para cada animal. Até para as Pessoas! E que nessas ruas ninguém passa fome e toda a gente tem casa. Incluindo os animais! Se assim for, fico contente. O Matias agora deve ter dono e comida e uma cama onde dormir. E espero que tenha muito peixe e muito leite, porque ele gostava muito. E eu gostava muito dele também.

Independente, despachado, rápido como o vento, gracioso e sempre atento. O Matias era assim. Aprendi muito com aquele gato! Aprendi que nem sempre devemos confiar em toda a gente (o nosso vizinho da frente gostava de lhe atirar com pedras sempre que ele se aproximava), aprendi que para te equilibrares em cima de um muro tens que ir com calma mas de vez em quando vais ter que correr – a minha avó ainda hoje me diz que é assim que se leva a vida também. Aprendi que é bom não estar sozinho, porque quando a fome aperta é preciso alguém que te ajude. E a minha avó diz que as amizades funcionam mais ou menos da mesma maneira, que precisamos dos nossos amigos porque a alma fica com fome de amor. Isto ainda não sei se é verdade, não percebi bem, mas…a minha avó costuma saber do que fala. Ela e o Matias têm uma coisa em comum: o ar de quem sabe de tudo.

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