Lembra-te

primeira parte  AQUI

Foi na véspera de eu voltar à escola que tudo mudou. Estava a limpar umas mesas no Flor e entraram três homens de fato, direitos ao meu pai. O mais alto deles começou a sussurrar algo enquanto os outros dois se viravam de costas para eles. Lembro-me de achar tudo muito estranho neles mas assustei-me quando vi o meu pai ficar branco, o queixo pendurado. Olhou para mim muito devagar e o meu impulso foi correr até ele. Um dos outros dois homens travou-me, agarrando-me nos braços e foi o que fez acordar o meu pai daquele transe esquisito.

(…)

De repente foi como se uma campainha soasse na minha cabeça e me levasse dali.

Tinha 13 anos e toda a minha vida era normal, aborrecida até. A minha mãe era professora de Francês e Alemão e o meu pai trabalhava num café-bar que servia as melhores tostas mistas do mundo e onde os casais de namorados iam dançar de noite. Foi onde aprendi a jogar matraquilhos e bilhar nas férias de verão. Pronto, talvez não fosse uma vida assim tão aborrecida, mas eu tinha 13 anos, sabia lá o que era a vida quando o meu pai me carregava meia a dormir para dentro de casa e me aconchegava os lençóis. “Bons sonhos princesa.” e um beijo na testa era tudo o que precisava para afastar qualquer resíduo de monstros ou bestas que me quisessem atrapalhar o sono. Porque eu sabia que o meu pai estava lá.

Não é que não amasse a minha mãe e nem que ela não fosse boa para mim, mas no que tocava a bravura, no que dizia respeito a proteger-me, eu confiava inabalavelmente na voz grossa e profunda do meu pai, nos seus pés rápidos e nos seus punhos duros. Vez houve em que tentaram assaltar o bar, mas o pobre assaltante só conseguiu ficar com umas costelas partidas e umas nódoas negras depois de ter apontado aquela faca ao meu pai. Foi a única vez que algo assim aconteceu. A partir daí, nem as comuns brigas tinham lugar no Flor de Sal, havia um misto de respeito e medo no ar. Ajudava que a faca do infeliz assaltante estivesse exposta por trás do balcão, por entre garrafas de licores coloridos.

Quando estava de folga, o meu pai levava-me a fazer piqueniques no Jardim da Estrela, jogava comigo à apanhada e fazia-me cócegas até nos doer a barriga aos dois. Depois íamos buscar a minha mãe às explicações que dava nas férias grandes e ajudava-a a fazer o jantar enquanto lhe punha o braço à cintura e a desafiava para dançar ao som do “São Sinatra”. Nunca fomos muito religiosos, a Igreja nunca nos viu em muitas missas, mas todos tínhamos a nossa própria fé. Enquanto a minha fé estava na crença absoluta de que o meu pai era um herói maior que qualquer fantasiado da Marvel pudesse almejar ser, a dele estava toda nos discos do olhinhos azuis. “Queres ouvir a voz de Deus?” era algo que me perguntava sempre antes de por a música a tocar. Sim, a minha vida era boa.

Foi na véspera de eu voltar à escola que tudo mudou. Estava a limpar umas mesas no Flor e entraram três homens de fato, direitos ao meu pai. O mais alto deles começou a sussurrar algo enquanto os outros dois se viravam de costas para eles. Lembro-me de achar tudo muito estranho neles mas assustei-me quando vi o meu pai ficar branco, o queixo pendurado. Olhou para mim muito devagar e o meu impulso foi correr até ele. Um dos outros dois homens travou-me, agarrando-me nos braços e foi o que fez acordar o meu pai daquele transe esquisito. Galgou o balcão mais rápido do que alguma vez o vi mexer-se e empurrou o homem com tamanha força que ele caiu para trás. O outro homem agarrou-o pelo pescoço ainda antes que acabasse de me perguntar se estava bem. Paralisada, vi o meu pai espetar-lhe o cotovelo uma e outra vez no abdómen até que o outro o largasse de vez. Vi-o dar-lhe uma cabeçada que fez um estalido que nunca ouvi e segundos depois percebi ser o som de um nariz a partir, tamanho o sangue que lhe jorrava do mesmo e os gritos animalescos que soltava. Mas nesse momento, era o meu pai, o meu herói que eu considerava um animal, cadeiras a voar, copos a partir, sangue por todo o lado, enquanto os dois homens, não obstante a dor, continuavam a investir contra ele. E continuavam a perder.

No meio desta guerra campal, o primeiro homem mantinha-se calmo na ponta do balcão mas de uma maneira diferente da que me colava onde estava: eu estava aterrada, ele estava à espera e de certa forma, divertido. Vi-o calmamente tirar uma arma de dentro do casaco e apontar ao meu pai, arregalei os olhos até não poder mais e por entre o medo e o horror, por entre a eminência de perder o meu olhos azuis, eu gritei com quanta voz tinha “PAI!”. Os olhos já inchados voltaram-se para mim ao mesmo tempo em que ouvimos o som da trava de segurança da arma a ser desactivada, como se mais nenhum som existisse no mundo naquele momento. Mandou-me correr. E eu não queria, mas a súplica na voz dele deu vida aos meus pés calcificados. Virei costas e corri. Enquanto corria e chorava, os tiros soavam por trás de mim, mais vidro partia e eu não voltei a ver o meu pai.

Voltei ao meu corpo. Quanto tempo passou, um minuto, dois?! As memórias quando nos assolam envolvem-nos como teias mas com uma rapidez que não prevemos. Não sei porque me lembrei disto agora, há anos que não penso nesse dia, poderia haver pior altura para me lembrar de quando perdi a fé?! Deve ter sido o som do vidro. Passos no corredor, ritmados, encenados. Merda! Quase sem respirar levanto-me da cama, tiro a glock de debaixo da almofada e posiciono-me por trás da porta do quarto.

Odeio tirar férias.

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