Setembro 2016

Não é Fé é Morte

A minha mãe, quando me olhou com os olhos de pena que as notícias referentes a doenças implicam, disse-me que estava na altura de acreditar em algo maior. Em alguma coisa, nem que levemente, que me trouxesse a força que o meu corpo já não tinha.
Como poderia eu fazê-lo? Sentia o corpo pedir por essa ideia, mesmo relembrando os momentos em que a Igreja me fazia estremecer, mas não era capaz de me deixar ir.

Estou na casa de banho e olho o chão. A pia onde lavo as mãos. Enormes fios de cabelo esticam-se pelo chão, caem sobre os armários. Espalham-se pelo chão em comprimentos desmedidos.
Há vários meses que é assim. Sempre que o cabelo é molhado e depois seco os fios caem em maior quantidade.
Durante os meus dias quotidianos sinto-os caírem-me pelas costas. Por vezes apanho-os com as mãos. Em cima da secretária enquanto escrevo os últimos parágrafos de um livro que ninguém irá ler.
O corpo cedeu. Mesmo quando me debrucei sobre ele e lhe disse que acreditava nele. Que era o meu Deus. Mais do que uma religião.
Nunca acreditei nessas divindades maiores do que eu.
Respiro, vivo, consigo sentir o sangue escorrer pelo dedo e o seu sabor amargo quando pressiono o dedo contra a minha língua, na tentativa de estancar a pequena hemorragia.
E nesse momento, quando sinto o sabor do sangue, sei que sou a pessoa existente que mais pode suportar todas as minhas indecisões. Nunca idealizei o dia em que deixasse de acreditar em mim. Porém esse dia não tardaria a chegar.
Acreditei em mim no dia em que, caída no chão, a depressão começou a apodrecer-me a mente. Não existia nenhuma mão estendida que me auxiliasse quando me quis levantar. Ou no momento em que senti que o meu corpo já estava sarado para devagar se ir erguendo. Aí, no momento em que pressionei as mãos contra o chão de granito e me levantei, olhando mais tarde para as marcas que não tardariam a desaparecer das minhas mãos, que indicavam a pressão que fiz para me erguer, soube que não existira ninguém em quem acreditar. Apenas em mim.
Era eu própria que sobrevivia, que subsistia, que continuava ali. A acreditar que os dias seriam mais longos, mais fortes. Maiores. Que sobreviveria, mesmo que os comprimidos invadissem em demasia o meu estômago.
Os anos passaram-se e na minha cabeça, quem sabe no meu coração, eu era a única pessoa em que plenamente seria capaz de acreditar.
Contudo, quando entrei novamente nas Igrejas que cirandavam a minha cidade Natal, que há muito tinha deixado de acreditar em mim e nos meus feitos, os pêlos eriçavam-se e as lágrimas preenchiam os meus olhos. Com confiança, afastava o que parecia possuir o meu corpo e abandonava o que poderia ser capaz de abalar a minha crença na minha pessoa.
Alguns meses atrás, o corpo começou a ceder. Deixei de ter força para me levantar da cama e rapidamente tomar o pequeno-almoço. O qual eu também já não tinha vontade de preparar. O estômago revolvia-se só no pensamento da comida.
A cabeça andava às voltas, mesmo quando me deitava na cama com o medo incessante de cair.
A minha mãe, quando me olhou com os olhos de pena que as notícias referentes a doenças implicam, disse-me que estava na altura de acreditar em algo maior. Em alguma coisa, nem que levemente, que me trouxesse a força que o meu corpo já não tinha.
Como poderia eu fazê-lo? Sentia o corpo pedir por essa ideia, mesmo relembrando os momentos em que a Igreja me fazia estremecer, mas não era capaz de me deixar ir.
Mas os cabelos insistem em cair. É um novo dia, olho agora a almofada repleta de amontoados dispersos de cabelo que agarro com as mãos para deixar voar na janela.
Com o medo que me deixo possuir, vejo os cabelos voarem numa pequena bola, pelo telhado, enquanto me puxo com dificuldade para o parapeito da janela e sem esforço, pela primeira vez sem sentir cansaço, me deixo cair. E com um estrondo, um corpo de ossos, caí no pequeno jardim que hoje já não tenho, porque a fé é um complexo maior do que a morte.
Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s