Setembro 2016

Verdade ou consequência

Nunca se deve interferir nas relações alheias! Nunca! Esse era um dos seus lemas de vida. Um principio a seguir sempre, e sem excepção. Hoje vacilava. Pela primeira vez, tinha dúvidas acerca do que fazer. Pela primeira vez o coração queria falar mais alto que a razão.

Não queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver!

Não conseguia processar aquela imagem, tão banal, e ao mesmo tempo tão incompreensível. Um beijo entre duas pessoas, que lhe teria sido indiferente, não se desse o caso de o conhecer a ele. Chovia a potes, e por isso tinha ficado no estacionamento, dentro do carro, caso contrário teriam (quase) chocado de frente.

Devido à chuva torrencial, ele não a tinha visto ali a poucos metros, sentada de olhos arregalados, demasiado próxima, escondida pela cortina de agua que escorria pelos vidros. O beijo parecia não ter fim. Beijavam-se com a sofreguidão de quem tem poucas oportunidades para o fazer. Ele envolvia-a libidinosamente, com uma mão na cabeleira loura e outra muito abaixo da cintura.

Enquanto estava ainda embasbacada, o casal, separou-se sem aviso. Ele correu para o carro dele e a criatura loira, ficou parada à porta do hotel, a ajeitar o cabelo e a limpar a boca manchada de batom vermelho. Devem ter sido apenas alguns segundos, mas a imagem ficou-lhe gravada, como se tivesse sido impressa por um relâmpago, não permitindo que a apagasse, por mais que fechasse os olhos com força. Alta, magra, despenteada, lábios finos e mal pintados, decote generoso num vestido preto coleante, que contrastava com os sapatos vermelhos de saltos vertiginosos. Nunca a tinha visto, e apesar da sua fraca aptidão para identificar caras, sabia que reconheceria em qualquer lugar se a voltasse a ver.

Quem seria aquela criatura? No fundo não interessava nada, porque a ele conhecia-o bem! O sacana!

Marido da sua melhor amiga, tinha-o adoptado também como amigo apesar da desconfiança inicial. A amiga amava-o de todo o coração e só isso interessava. Ele fazia-a feliz. Há muito que o considerava um pai perfeito, marido extremoso, pessoa honesta e de confiança. Na sua cabeça eram o (seu) casal exemplar. O modelo a seguir. O ideal a atingir quando se decidisse assentar.

A criatura loira há muito que se tinha ido embora, mas ela continuava ali imóvel, sem conseguir decidir o que fazer. Revia a situação em que se encontrava, procurando uma maneira de lidar com tudo o que acabara de presenciar.

Nunca se deve interferir nas relações alheias! Nunca! Esse era um dos seus lemas de vida. Um principio a seguir sempre, e sem excepção. Hoje vacilava. Pela primeira vez, tinha dúvidas acerca do que fazer. Pela primeira vez o coração queria falar mais alto que a razão.

Por um lado, argumentava que poderia ser só um caso passageiro, um deslize. Contar, arruinaria um casamento (feliz?) de 10 anos. Por outro, pensava na traição que era, esconder algo tão grave da amiga de sempre. Mais que uma amiga uma irmã. A pessoa em quem mais confiava neste mundo, a única que nunca estava demasiado ocupada, sempre disposta a aturar as suas parvoíces, de braços abertos para ouvir os seus problemas e festejar as suas vitórias como se fossem dela.

Colocou a si própria, a questão a que realmente interessava responder.  E se fosse consigo? O que preferia?

Não tinha dúvidas, mil vezes uma verdade dolorosa que uma mentira conveniente. Mas consigo as coisas eram diferentes. Não tinha filhos, era uma mulher independente habituada à decepção em geral, e amorosa em particular.  A amiga era mais frágil, menos abalada pela vida. Casara com o grande amor depois de namorarem quatro anos na faculdade. E desde então tudo tinha parecido um conto de fadas, dois filhos lindos, um cão, uma casa com jardim. A amiga era a pessoa mais crédula que conhecia, acreditava no melhor das pessoas. Sempre. Como conviveria ela com uma traição da pessoa em quem mais confiava?

Valia a pena colocar em risco um casamento, em prol da verdade?

E se a amiga, cega de amor, tivesse duvidas acerca de tão grave acusação? Afinal era uma acusação muito séria, para se fazer sem provas. A amizade ficaria em risco, e isso era algo que não conseguia sequer pensar. Não, não se envolveria nisso.

Mas como ir lá a casa, sorrir para ambos, olhar para os miúdos e ainda assim dormir de consciência tranquila. Impossível. Não conseguiria manter a farsa, sem se afastar. Com este segredo não conseguiria olhá-la nos olhos, retribuir o seu sorriso doce e continuar aceitar a sua amizade de coração tranquilo. Conhecia-se. Precisava de lhe contar, mesmo que isso arruinasse o que de mais valioso tinha nesta vida, a sua “amizade para sempre”. Não contar estragá-la-ia da mesma forma, mais cedo ou mais tarde.

Para sublinhar a decisão, já tomada, agarrou-se a outro dos seus princípios. Na dúvida, mais vale dizer a verdade. Antes um peso no coração que na consciência, dói mais, mas dorme-se melhor.

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s