Estrada Verde

The priest’s hair had the mark of the comb in it, as thought it was still wet, and his coat, hanging under the stairs, was very black and soft.

– The Green Road by Anne Enright

E o meu coração batia em pulos entusiásticos quando toquei no casaco. O preto era tão intenso como o meu cabelo.
A minha mão deslizou para o bolso do casaco que parecia completamente cheio. A minha curiosidade era maior do que o medo de que alguém entrasse no vestíbulo e visse que eu vasculhava propriedade que não era minha. Poderia inventar uma das minhas bem preparadas mentiras que me salvariam em segundos da situação com uma pequena palmada de aprovação nas costas.
Porém minha mente não divagou por aí e a minha mão deixou-se deslizar para o que preenchia o bolso do casaco do padre. Naquele final de tarde, tinha-se deslocado a minha casa para mais um ensaio de casamento com a minha irmã. Eu já me começava a aperceber dos sinais de ansiedade que a minha irmã denotava com a chegada da data. Mas eu continuava com a minha certeza de que ela era infeliz. De que ela não queria casar. Que o fazia para sua própria salvação dentro daquilo que mais tarde seria a sua prisão. Mas, mais uma vez, poderia deixar estes pensamentos para quando me deitasse na minha cama, deambulando pelo mundo das insónias e escrever teorias mentais de como a poderia ajudar a escapar daquele que seria o seu destino, porque no fundo, na hora, eu não chegaria a exercer uma acção para a recuperar. Uma acção que lhe traria lágrimas aos olhos e soluços inconformados ao se aperceber de que alguém tinha reparado nos sinais.

O casaco intrigava-me. O seu conteúdo também. Sempre me tinha deixado inquieta. O padre poderia esconder uma vida secreta nele. A chuva que lhe molhou o cabelo no caminho até minha casa, parecia não ter tocado no casaco. Ainda mais intrigante, pensava eu, imaginando já a história que escrevia sobre o que tocaria nas minhas mãos e que eu devagar puxaria para a luz fraca que o meu pai tinha colocado no vestíbulo.

Mas a minha mão afundava-se. Tocava em mil e uma coisas que eu não conseguia fazer submergir. Nada se deixava ficar na palma da minha mão. Não a conseguia fechar e recolher o objecto. Nada conseguia fazer. Não conseguiria matar o desejo de saber os segredos do padre. Seria só eu que teria esta ideia não fundamentada de que todos os padres esconderiam algo? Uma família? Um crime? Porque é que escolheria uma profissão de pura privação?

O meu corpo arrepiava-se com o esforço que fazia a cada instante para tentar agarrar outro objecto que dançava como se flutuasse em água, naquele bolso que a meu ver não tinha mais fim.

Até que comecei a ouvir vozes a aproximarem-se. Quando cessaram ouvi apenas os passos de uma pessoa.
O padre, já com o cabelo seco, olhou-me sem desconfiança.
Em vez de me abordar, de me questionar o que eu fazia, aproximou-se de mim, arrastou a porta do vestíbulo para a fechar e com a outra mão apagou a luz fraca que o meu pai tinha colado naquele pequeno e inútil espaço.

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