É por isso que compreendemos os outros

É por isso que compreendemos os outros, mesmo quando a nossa reacção seria diferente.
— in
Amores e Saudades de um Português Arreliado, de Miguel Esteves Cardoso

Nunca esquecera aquela frase, talvez porque tinha sido dita no meio de uma das conversas mais difíceis que tivera. Naquela tarde fumara mais de metade de um maço de tabaco, de tão nervoso que estava. Enquanto se dirigia ao bar quase voltou para trás em quatro ou cinco ocasiões. Mas não o fez. Tens de te fazer homem, disse para si. À entrada do bar teve novamente medo. Sim, ele tinha medo. Desde que se conhecera que aquele era o seu melhor amigo e tinha medo de perder a única amizade realmente relevante da sua vida. Porra, pá! Mas desde quando é que és assim?, perguntou baixinho, com esperança de que ninguém percebesse que ele falava sozinho. Entrou a medo. O seu melhor amigo já estava sentado na mesa habitual e já tinha pedido as cervejas de sempre. Respirou fundo.

Ser recebido de forma calorosa, como sempre, fê-lo sentir ainda pior amigo. Começaram a falar dos temas habituais: trabalho, futebol e a empregada de balcão do bar. O seu melhor amigo reparou logo que ele estava demasiado nervoso. Estava intrigado mas deixou a conversa da treta encher algum tempo de antena. Depois, cheio da coragem que ele não tinha, perguntou: O que se passa? O que passa? Bem, essa pergunta era complexa. Começou a organizar pensamentos e, antes de ter tempo de formar um discurso coerente, deixou escapar: Eu e a Maria namoramos. Não era suposto dizer aquilo sem preparação mas escapou-lhe.

A Maria era a paixão da vida do seu melhor amigo. Talvez não da vida, mas ele andava atrás dela há muito tempo. Vira-o ser rejeitado dezenas e dezenas de vezes e não baixava os braços. Há uns dias, no entanto, ele compreendera por fim o porquê das rejeições sucessivas da Maria. A Maria gostava dele e não do melhor amigo. Aquilo seria um problema. Mas antes de lidar com o problema decidiu lidar com Maria. Levou-a a jantar a um restaurante bonito e chique, com uma vista interessante, ofereceu-lhe flores, levou-a a casa, subiu ao apartamento dela e passou lá a noite. Quando percebeu que aquilo seria para durar, decidiu que tinha de ter aquela conversa com o melhor amigo.

Mas ele parecia ter ficado mudo. Vai bater-me, pensou. Mas não se mexia. Então continuou. Ela procurou-me há uns dias, conversámos, fomos jantar juntos… desculpa, sei o quanto gostas dela mas não o planeámos, ok? Aconteceu. Gostamos um do outro. Do outro lado da mesa, o melhor amigo continuava mudo. Se me vais bater, podes fazê-lo já. Então o melhor amigo falou: Não te condeno. Já suspeitava de que eras o motivo para ela me rejeitar. Não te vou bater. Sei o quanto ela é especial. Quando conhecemos os factos conseguimos pensar melhor. É por isso que compreendemos os outros, mesmo quando a nossa reacção seria diferente, disse-me.

Aquela conversa vinha-lhe agora à cabeça, à medida que se aproximava da casa de Maria. Era mais um dia em que fumara demasiado de tão nervoso que estava. Ela recebeu-o como sempre. Ai, onde é que eu já vi isto? Pediu-lhe que se sentasse, queria conversar com ela. Depois de tantos meses de namoro, Maria não agoirava nada de bom com uma conversa tão séria mas, por segundos, deixou-se iludir e quis esperar que, com a conversa, viesse um enorme anel de diamantes. Não veio. O que ele começou por dizer foi desculpa. Depois contou-lhe tudo o que acontecera naquele fim-de-semana de trabalho que passara fora. Bebera demasiado (como se isso fosse desculpa suficiente) e envolvera-se com uma colega de trabalho. Tinha sido só uma vez mas traíra-a. Pediu mais desculpas, disse que não voltava a acontecer.

Maria levantou-se calmamente. Sabia que o tinhas feito. Nunca tiveste perfil para uma só mulher. Eu via isso e quis arriscar. Ele dissertou sobre um discurso já planeado, sobre como a amava e como ela estava a falar de uma pessoa que já não existia. Existe, disse. Está na tua natureza. Quando estamos com alguém temos de conhecer a sua natureza, aceitá-la e compreendê-la. É por isso que compreendemos os outros, mesmo quando a nossa reacção seria diferente. Aquilo feriu-o. Aquela frase, outra vez aquela frase. Talvez nunca a compreendesse. Dá-me outra oportunidade, pediu. Maria riu. Eu vou dar-te uma oportunidade. E só uma. Uma oportunidade para te pores a andar daqui e não voltares a aparecer à minha frente.

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