Fumo

I don’t want to bother you too much with what happened to me personally’, he began, showing in this remark the weakness of many tellers of tales that seem so often unaware of what their audience would best like to hear; ‘yet, to understand the effect of it on me you got to know how I got out there, what I saw, how I went up that river to the place where I first met the poor chap.” – Heart of Darkness, Joseph Conrad

Mandaram-me ir cobrir o desaparecimento de um rapaz de 10 anos. Fiquei contente. Tinha deixado de fumar há quase um mês e já há semanas que andava a pedinchar que me tirassem da redação. Acho que venci pelo cansaço, como se costuma dizer.

Cheguei ao local de noite, em Janeiro. Quentinho e agradável, como qualquer inverno no interior. Dirigi-me à residencial D. Nuno, onde o jornal me tinha reservado um quarto. Atrás do balcão da recepção estava um homem, com cerca de  30 anos – nada de rugas – os olhos vermelhos, as lágrimas com pressa de sair, mas sem tristeza. A pele baça e cinzenta fazia-o mais velho. Bem mais velho. Quando percebeu o meu negócio, tentou fazer conversa comigo:

‘Vem cá ver do Carlitos? Já tem alguma pista?’ perguntou com as palavras enroladas de quem fala sempre muito rápido, com muita energia no início e pouca no fim. Ao volante desde Lisboa,  cansada e com um delay (como nas transmissões dos jogos de futebol), entendi o que me quis dizer uns vinte segundos depois da mensagem ter deixado o receptor.

’Sou jornalista, não sou da polícia.’, respondi.

‘Queria dizer, perguntar, se já sabe da história. Eu encontrei-o. Está lá, no cimo do rio. Já há muito tempo.’

‘Para a polícia ainda está desaparecido.’, respondi com toda a certeza, porque desta vez tinha feito o trabalho de casa. ‘Como é que se chama?’ perguntei, para confirmar mais tarde se seria uma fonte a ter em conta.

‘Rui.’

Aquela conversa não me convenceu – tomei-a por uma historieta de quem tem pouco que fazer e quer aparecer no jornal. Desci para o quarto e, não sei porquê, sonhei com ele a fumar demoradamente um cigarro, enchendo a recepção de fumo até não ser possível ver mais.

Na manhã seguinte confirmei com a polícia local e o Carlitos continuava desaparecido. Perguntei-lhes se tinham cigarros e se conheciam o Sr. Rui. Disseram-me que sim, que era bastante conhecido por ser louco. Cigarros só no café central – já não tinha de decidir por onde começar.

Falei com os habituais e com o dono. Nada de cigarros. Depois com a  família: a mãe, o pai, o irmão; com a velhota da mercearia. Ninguém sabia de nada e estavam todos muito pouco abalados, o que me pareceu ainda mais estranho do que a conversa do Sr. Rui.

Senti um aperto no peito. Havia algo para fazer, um dever para ser cumprido. Não com o jornal, mas comigo. Descobrir e reportar a verdade. Informar.  Marcar a diferença. Contra tudo e contra todos.

Por outro lado teria que o fazer por conta própria, sem o apoio do jornal. Quando tivesse tudo pronto, aí sim podia regressar e apresentar a história com algum impacto. Ou então poderia ser apenas mais um caso sem solução, ou… com um desenrolar menos apelativo. E aí… o que ia eu fazer com a verdade?

A falta do meu amigo cancerígeno começava a enevoar-me o raciocínio e tudo isto me pareceu muito estúpido e inócuo. Tinha material suficiente para cumprir o que me foi pedido. Mais do que isso, é preciso dizer, nessa noite já tinha bilhetes para ir à bola.

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