Outubro 2016

Helena

Ela viu como o amor corrói o chão onde as mulheres assentam a vida, até ao dia em que a terra é subitamente levada e traz! Advogados de família – traz! Crianças despachadas em táxis – traz! Lágrimas.” Cantigas de Uma Noite de Verão, David Greig

É impressionante a dificuldade que Andreia sentia em decorar estas palavras. Caminhava às voltas no quarto, repetindo-as vezes sem conta, mas sem conseguir assimilá-las. Helena diria isto sem problema algum – afinal de contas, a personagem que Andreia levaria a palco era uma mulher independente e que queria mostrar essa independência ao mundo, e não importava se soava insensível ou não. Mas Andreia não era assim, e não conseguia ouvir estas palavras a sair da sua própria boca sem pensar que a vida é demasiado irónica e demasiado cruel. Porque lhe pareciam agora a mais pura das verdades regada com um sarcasmo que lhe partia o coração.

Ainda só tinham passado dois meses. A vontade de pisar as tábuas era nula, mas a vontade de fazer outra coisa qualquer era ainda menor e, mal por mal, sempre usava o seu talento e a sua paixão para ganhar uns trocos. Afinal, não havia agora a hipótese de dividir as contas com o Rui. Não havia hipótese de dividir fosse o que fosse, para ser sincera. E só agradecia ao destino por não terem tido filhos durante os 4 anos em que estiveram juntos. Não conseguia imaginar a dor que seria ter que dividir o seu amor com ele.

Ninguém percebeu o que aconteceu. Nem ela, nem ele. E quando Andreia reparou que algo estava mal, já ele estava pronto a magoá-la, de malas à porta, dizendo que “já não dá”. Mas como assim, já não dá? Não houve explicações. Só um adeus em surdina e um porquê que já nem foi ouvido. Uma indiferença gelada que não parecia de todo vir do mesmo homem que um dia lhe dissera que era para sempre.

E agora, ali estava ela, às voltas no quarto, fazendo-se passar por alguém que trata as separações com a leveza de uma ironia regada com onomatopeias cortantes, que aparentemente não dizem muito a Helena. É a beleza do teatro, afinal: podermos não ser nós por uns momentos. E assim Andreia começava a gelar, a aprender a lição de Helena: o coração é para ser protegido, não dividido.

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