Samhain

«Avistou-a através da pequena janela de vidro. O cabelo louro, a cabeça vergada, a ler um jornal. Enquanto olhava para ela, percebeu que sorria para si próprio.» “O Discípulo”, Hjorth & Rosenfeldt

Tinha sentido imediatamente aquele aperto no peito quando a avistara. Encontrara!

Com a chegada do mês de Outubro chegara também aquela ansiedade própria que antecede o dia mágico. Mais uma vez o destino era amigo, tinha-lha colocado no caminho, e contra o destino não se discute. Ficou a observar mais um pouco. Queria fazer perdurar aquela imagem, gravá-la dentro de si, para o aquecer quando precisasse. A primeira impressão era sempre especial. Além disso tinha muito tempo, o comboio só partiria dali a 10 minutos. Manteve-se afastado o máximo de tempo que pode, mas não conseguia resistir mais. Queria vê-la melhor. Aproximar-se. Entrou. O comboio àquela hora já estava quase cheio. Mais meia hora e seria o caos. Já não havia lugares sentados, quando entrou. Melhor assim. Conseguiria ficar por perto sem ser notado. A uns escassos metros ficou a observá-la. Tirou o telefone do bolso fingindo que estava interessado no ecrã, mas pontualmente olhava-a por alguns segundos. Não podia estragar tudo. Não agora.

Era perfeita. Não no sentido literal, mas perfeita para aquilo que pretendia fazer com ela. Magra, sem ser macilenta, bonita sem ser deslumbrante. Pela indumentária diria que o dinheiro não lhe abundava no bolso. Botas em pele, mas gastas pelo uso, de salto baixo e confortável. Calças de ganga de cor indefinida, tapadas quase até ao joelho por um camisolão demasiado largo. No colo um impermeável escuro manchado pela água da chuva. Dali parecia ainda mais pequenina. Talvez pelo contraste que fazia com a senhora anafada que se sentou ao lado, entalando-a entre os ombros largos e o vidro da janela. Ouviram o aviso de partida. Por uns segundos ela levantou o olhar e fixou-o lá fora. Apesar de não ter conseguido ver-lhe os olhos, valeu a pena na mesma, a linha do maxilar era sublime.

O comboio começou a andar, e ela voltou a concentrar-se no jornal. Agora era uma questão de paciência. As estações sucediam-se. Ele não conseguia controlar a imaginação que voava. Imaginou-a com aquele vestido que tinha guardado para a ocasião que se aproximava. Imaginou-se a vesti-la. Imaginou o toque na sua pele nua. Imediatamente visualizou a pele leitosa e bastou essa imagem para lhe alterar o batimento cardíaco. Sentiu-se enrubescer. Tentou apagar a imagem que o queimava por dentro, olhando em volta. Concentrou-se no buço da senhora sentada à sua frente. Problema resolvido. Tinha de se controlar.

Quando ela se levanta, ele fica a observar a que porta da carruagem se dirige, e ruma em direcção ao extremo oposto. Não convém mesmo nada que ela repare nele cedo demais. Observa-a pelo canto do olho, e mal ela sai do comboio, ele sai também. Agacha-se, desata e ata um atacador enquanto a vê descer pela plataforma em passo ligeiro. Ele, mais devagar segue-a a uma distância segura. Esta estação fervilha de gente, já é hora de ponta. Olha em volta só para confirmar que ninguém está a observar. Não que tenha receio, cada vez mais as pessoas vivem alheadas do que se passa à sua volta. Se não têm nada que fazer, enfiam o nariz no telefone, ou sendo da “velha guarda”, num livro ou numa revista.

Ela sai da estação, atravessa a estrada e sobe a avenida mesmo em frente. Aqui, ele deixa-se ficar para trás. É Outubro, os dias são mais curtos, e apesar de serem apenas 19 horas, o sol já se pôs, em breve será noite. Com a chuva há menos pessoas na rua. Se por um lado é bom, uma vez que um guarda-chuva corta a visibilidade, por outro é mau, já que ele não trouxe o dele. Seguir alguém sem se fazer notar, numa zona residencial pode tornar-se um desafio, uma vez que não há vitrinas para observar, caso o sujeito seguido decida parar por algum motivo. Além disso parar a meio de uma rua deserta dá nas vistas, principalmente se está a chover, como era o caso.

Ela não parou. Na verdade nem olhou para trás, facilitando-lhe assim o trabalho. Perto de um prédio igual a tantos outros, abranda o passo. Observa-a tirar a chave da mala olhar para cima, e abrir a porta. Ele acelera o passo. Quando chega à porta envidraçada, já não a consegue ver, também não lhe é possível ver para que andar foi o elevador. Não faz mal, tudo tem o seu tempo. Atravessou a rua e ficou uns minutos a observar as janelas. No quarto andar duas delas ficaram iluminadas. Esperou mais um pouco, mas nada mais aconteceu que lhe pudesse interessar por hoje. A primeira parte do plano estava completa. Agora era só uma questão de tempo e paciência. E Isso ele tinha de sobra.  Ao longe, na serra de Sintra cai um relâmpago, e poucos segundos depois ouve-se o trovão. A chuva torna-se mais intensa, e ele sorri. Auspicioso, pensou, o dia não podia ter acabado de forma melhor.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s