Agosto 2016

Dias de chuva

Arjun não se lembrava de quando ou como tinha começado a odiar os dias de chuva. Quando era criança, os dias de chuva eram tão bons como os soalheiros, com a particularidade de saltar em todas as poças de água como se estivesse a jogar à macaca, no regresso a casa após mais um dia de escola. Nesses tempos, os dias de chuva cheiravam como a sua cama quando a mãe acabava de a fazer de lavado.

Arjun não se lembrava de quando ou como tinha começado a odiar os dias de chuva. Quando era criança, os dias de chuva eram tão bons como os soalheiros, com a particularidade de saltar em todas as poças de água como se estivesse a jogar à macaca, no regresso a casa após mais um dia de escola. Nesses tempos, os dias de chuva cheiravam como a sua cama quando a mãe acabava de a fazer de lavado.

Naquele dia chovia furiosamente. Era um daqueles dias desconfortáveis que pareciam não trazer nada de novo, certamente nada de bom.

Ainda esperou uns momentos dentro do táxi antes de se lançar num sprint escadaria acima até ao tribunal. Felizmente, a sua mala era de pele, impermeável, se bem que mais nada fosse. Antes de entrar, sacudiu a maior parte da água de cima do fato azul escuro e reajustou o nó da gravata.

Lá dentro, o seu cliente aguardava julgamento. De aspecto rude, a faltarem-lhe alguns dentes e com uma compleição estragada pelo uso, era difícil acreditar que Mason Day tivesse a sua idade, mas não era difícil perceber sem ser preciso dizer-lhe que o réu estava a ser acusado de produção e tráfico de droga.

Ao sair do primeiro encontro com Day há umas semanas atrás, Arjun abandonou a sala com a sensação de que o conhecia. Mas de onde? Em que realidade alternativa conheceria um homem como aquele?

Assim que se sentou ao lado de Day no dia do julgamento, reuniu as suas folhas, batendo-as todas juntas em cima da mesa de madeira para as agrupar correctamente e então, de forma completamente inesperada como são normalmente estas coisas, recordou-se subitamente de onde o conhecia. A forma como Mason Day coçava a cabeça, como Mason Day tocava no nariz, como Mason Day cruzava os braços com cada mão a tocar no cotovelo do lado aposto do corpo… Tudo isto eram tiques de Buster.

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Buster era o miúdo mais aterrorizador da sua escola quando ambos tinham uns doze anos.
Todas as quartas-feiras, Arjun levava dinheiro para comprar o almoço na escola, já que as terças eram o dia de ir jantar com os pais a casa dos avós e, por isso, a mãe não lhe mandava o almoço como nos outros dias. Com Buster por perto, isto significava não almoçar em nenhuma quarta-feira, exepto uma – e só se recordava de uma – em que Buster tinha aparecido na escola com a pressão de ar do pai, anunciando uma tarde de “caça” que era mais tortura com o resto dos seus amigos bullies.

Mas Buster também sabia dar. Narizes sangrentos, nódoas negras, olhos roxos e inchados e um treino de corrida de fazer inveja aos melhores atletas Olímpicos. Fora numa dessas perseguições a Arjun, precisamente num dia de chuva violenta e fria, que fez amigos pela primeira vez desde que mudara de escola e contra todas as expectativas, logo naquele dia.

Num dia particularmente chuvoso, corria, encharcado até aos ossos, de Buster e do seu grupo de degenerados sem nenhum destino particular, apenas com a esperança de encontrar um buraco para se enfiar e esconder durante o tempo que fosse preciso para evitar as mazelas que resultariam do encontro.
Num frenesim, passou pelo descampado perto da sua escola, onde os professores estacionavam os carros, quando ouviu:

– Hey! Hey, tu! Entra aqui!

Arjun olhou em volta para ter a certeza de que era com ele que estavam a falar e de que não se tratava de nenhum truque ou emboscada.
As vozes vinham de um Rover verde-escuro com três miúdos lá dentro; o miúdo ruivo de aparelho (Tommy?), o aluno novo com o nome coreano que não sabia pronunciar e Skeeter, a miúda mais estranha da sua turma. Visualmente, formavam um grupo estranho, mas ainda assim um grupo que o chamava e que poderia ser o seu escape naquele dia.

Nem hesitou. Não havia tempo para reflectir acerca das intenções daqueles três. Entrou no carro e, segundos mais tarde, viu Mason e o seu grupo passar a correr, perdidos e confusos por lhe terem perdido o rasto.

Arjun entou no Rover ofegante e olhou para os três miúdos que o fitavam com sorrisos marotos, mas aparentemente bem intencionados. Deixou-se ficar um minutos em silêncio a recuperar o fôlego e olhou para a chuva a cair lá fora, sentindo-se estranhamente seguro e protegido, como se fosse mesmo estar ali naquele momento e em mais lado nenhum.
Rapidamente, os seus novos e improváveis amigos começaram a falar com ele e, naquela tarde de chuva intensa, começou então uma amizade com cada um deles que duraria até à idade adulta. Sem saber, naquela tarde, Arjun conhecera os seus melhores amigos para o resto da vida.

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E era nisso que Arjun, adulto, se decidiu focar quando deu de caras com Buster, ou melhor, com Mason Day no dia do julgamento. A criança que fora suplicava por uma vingança merecida por todas as nódoas negras, narizes sangrentos, insultos, ameaças e almoços roubados, mas o adulto que era sabia que, se Mason Day não o tivesse perseguido naquele dia, nunca teria entrado no carro da mãe de Tommy, nem nunca teria conhecido os seus três melhores amigos. No fundo, tinha muito que agradecer a Day, mas este nunca o saberia.

Talvez Mason Day o reconhecesse, talvez não, mas iria fazer o que estava certo. Iria desempenhar o seu papel naquela história bizarra em que se encontrava.

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