Pai

Enquanto a minha mãe começava a acender todas as luzes da casa, a acordar-nos devagar com a preocupação na voz, o meu irmão ainda a deter-se com esta ideia de acordar, o meu pai estava estendido no chão de alcatrão da estrada onde eu também brinquei em pequena. O corpo gelado, a face branca em oposição à vermelhidão que sempre lhe conhecemos e os olhos muito abertos como se estivesse ainda a tentar ver as pequenas coisas que a vida não lhe tinha mostrado ou que mesmo ele tinha ocultado, tapando os olhos com as mãos secas de um trabalho que já detestava.

Lembro-me do dia em que o meu pai morreu.

Já era noite quando ele se levantou da cama, calmo, como se fizesse uma acção totalmente normal e quotidiana.
Algo que por normal ele já fazia quando não conseguia dormir. Levantava-se. Caminhava pela casa e quando o único corredor que percorria a habitação era completamente transporto, abria a porta, deixava-se ficar até que o corpo se habituasse ao estado climático que fazia lá fora e deixava-se ir. Fechava a porta silenciosamente atrás de si e começava a caminhar pela rua que conhecia desde criança.

O meu pai nunca conheceu outro lugar senão está rua. O mundo estava aqui. Tudo o que precisava encontrou e aprendeu nesta estrada que viu a terra batida ser levada pelo cimento, pelo alcatrão e mais tarde por linhas brancas que sinalizavam não percebia bem o quê.

Já era habitual ouvir os passos do meu pai perto da meia noite. Quando o sono se tornava leve e o pensamento se confundia com ideias que lhe apareciam avulso ou com os problemas que poderiam surgir no dia seguinte que justificavam os acontecimentos do dia anterior.

Nunca esperei que o meu pai fosse o primeiro a ir. Era o único ao qual eu não denotava problemas, até que os anti-depressivos começaram a fazer parte da sua dieta diária. O meu pai. Aquele homem ainda com a mentalidade do século que já passou, a comida saudável a acompanhá-lo, os vícios que não tinha. Mas o pouco que viajava, o nada que lia.

Não se demorava. Apesar de eu adormecer durante as suas deambulações nocturnas, sempre o ouvia a abrir novamente a porta e a fechá-la para se recolher na mesma cama onde a minha mãe também não dormia. Esperava-o acordada e mais tarde acompanhava-lhe o sono.

Mas naquela noite o meu pai não voltou.

Enquanto a minha mãe começava a acender todas as luzes da casa, a acordar-nos devagar com a preocupação na voz, o meu irmão ainda a deter-se com esta ideia de acordar, o meu pai estava estendido no chão de alcatrão da estrada onde eu também brinquei em pequena. O corpo gelado, a face branca em oposição à vermelhidão que sempre lhe conhecemos e os olhos muito abertos como se estivesse ainda a tentar ver as pequenas coisas que a vida não lhe tinha mostrado ou que mesmo ele tinha ocultado, tapando os olhos com as mãos secas de um trabalho que já detestava.

Lembro-me que tudo isto era mentira porque eu não fui capaz de o ver. Pensei mais em mim, quase meio ano antes quando mudei de país. Deixei os meus pais nas aflições deles tirando-lhes a que de maior eles tinham: eu.
Por isso quando o meu pai morreu, lembro-me que a minha mãe o encontrou no chão da casa de banho, que as luzes já estavam acesas.
Infelizmente não me lembro de o ter visto enquanto corria para a estrada, sabendo que ele não poderia ter ido longe. Mesmo quando eu o criticava, mesmo quando eu o magoava com as palavras elaboradas que eu lia nos livros, mostrando-lhe o quanto ele era inferior a mim, ele nunca escapou para longe. Ficava ali. Mesmo que silencioso.

Mas lembro-me do dia em que o meu pai morreu. Eu não estava. Curava a minha própria doença num lugar que me salvou dos pedaços da vida que agora era passado, das pessoas que já não faziam parte de mim.
Lembro-me que não disse adeus. 

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