Novembro 2016, Uncategorized

Até que a morte os una

Lembro-me ao detalhe, como se estivesse a revivê-lo, do momento em que prometi amar-te e ser-te fiel para o resto da vida, na saúde e na doença, até que a morte nos separasse. Lembro-me do nó que me magoava a garganta quando engoli em seco antes de, perante as nossas famílias e todas as pessoas que nos eram importantes, te mentir. Sorriste-me emocionado. Fechei os olhos para que não lesses nele a verdade.

Festejámos o início da nossa vida, do laço que nos manteria unidos para o resto da vida. Segredaste-me que me amavas, já no final de uma longa noite, inebriados pelo champanhe que tinhas encomendado expressamente para satisfazer a minha vontade. Não tive força para te mentir.

– A minha mulher, para além de linda, é uma cozinheira fantástica – dizias, orgulhoso, diante de quem quer que fosse que convidássemos para jantar connosco.

Pedias-me a opinião nos mais diversos assuntos, respeitavas-me como elemento do sexo feminino, mesmo que nunca tenha podido dar-te o filho que tanto querias. Apreciavas-me enquanto pintora, por muito amadora que nunca tenha deixado de ser, e tiravas um prazer genuíno da minha companhia.

Foi assim que sobrevivemos a trinta e quatro anos de um matrimónio idílico, recheado de viagens, de romance e de amigos que testemunhavam a nossa paixão.

Penso que fui melhor atriz do que amante, ou sou apenas crédula na ideia de que sempre acreditaste nas minhas falácias. Sem ser-te fiel fui-te sempre leal, porque nunca fui só tua. Nunca fui tua, sequer. Nem minha. Nunca fui de ninguém e fui um pouco de toda a gente que alguma vez me deu um pouco de si.

Quando, há um ano e meio, perdeste a batalha contra o cancro, chorei, com as mãos entrelaçadas nas tuas, o vazio que deixavas em mim. O egoísmo que me corrói – não sei desde quando, talvez antes ainda de ter deixado o colo da minha mãe – revoltou-me contra a doença que me tirou o companheiro, o carinho, o conforto. Estava, pela primeira vez, sozinha num mundo que desconhecia e nem semanas a fio escondida debaixo de várias camadas de cobertores e de roupa quente me soltaram do desespero de me encontrar a sós comigo.

Fui à Índia. Sim, comer, orar e amar, como gozavas sempre com o meu destino fétiche. Comi pouco, nada rezei. Não amei logo.

Detestei a ideia de ir sozinha, mais do que da sua concretização. Contudo, ao princípio não foi horrível, só desconfortável, ter de contar apenas comigo, ser o meu abraço ao adormecer e a recetora da partilha das recordações que estava a criar. Senti-me tonta, acima de tudo. Uma mulher da minha idade não viaja sozinha. É triste e mete dó.

Com o passar dos dias percebi que a tristeza e a pena eram unicamente autoria minha e que, por devoção a elas, me impedia de viver a Índia em pleno.

Algures aí comecei a amar.

As camas grandes cheias de almofadas só para mim, os longos momentos de reflexão deambulatória, as reações e atitudes que manifestei sem antes as corrigir. Ser eu, sem antes saber que aquela era, de facto, eu, com vontades, gostos e opiniões originadas e maturadas em mim, sem as submeter à aprovação voluntária de outrem. Sem as moldar àquilo que achava que deveriam ser.

Era uma responsabilidade enorme.

Era libertador.

Quando regressei, não me reconheci e, pela primeira vez, conhecia-me. Sabia quem sou, o que quero e do que preciso.

E amei-te. Amei com o coração puro e desinteressado o homem e a pessoa que foste. A tua companhia, os teus gestos, o teu sorriso, o teu orgulho. Amei o teu abraço, as tuas mãos carinhosas, o teu olhar encantado e encantador, a tua voz grossa e imponente. Amei-te como meu marido, como meu amante. Como meu.

Hoje sou tua de corpo e alma – um corpo que não voltarás a tocar e uma alma que jamais se libertará de ti.

Quem me dera ter-te conhecido só depois da tua morte.

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