O código

Faço aqui um aparte para dizer que sempre soube que eras mais bonita do que eu. Mais que bonita, exótica. Isso nunca me perturbou ou causou qualquer tipo de ciúmes. Quando andávamos juntas, a maioria dos rapazes olhava primeiro para ti, mas nunca foi problema, porque tínhamos gostos diferentes, personalidades diferentes, atributos diferentes. Além disso tínhamos o código.

Lembro-me de nós duas juntas há mais de 20 anos e sinto saudade daquele tempo. Saudade daquela loucura intrépida, das certezas absolutas, de todo um mundo de possibilidades que víamos sem filtro. Lembro-me dos Verões intermináveis, das histórias que inventávamos para conseguir sair à noite, do código de honra que nunca quebrámos. Nem mesmo quando conhecemos o Gil, lembras-te? Era o miúdo que veio de outra escola, e o mais giro da minha turma no 10º ano, que por um qualquer mistério indecifrável me achava graça a mim.

Conversávamos no intervalo sobre tudo e nada, partilhávamos musicas preferidas, livros preferidos. O tempo era sempre pouco para tanto que havia por partilhar. Ele já só tinha uma disciplina pendente, que lhe faltava para poder candidatar-se à escola naval (o seu grande sonho). Por isso só aparecia no liceu duas ou três vezes por semana. Era pouco tempo, mas bem aproveitado.

Rapidamente quis que se conhecessem pessoalmente, pois ambos já estavam fartos de ouvir falar um do outro. Na altura não questionei a minha necessidade de te partilhar com ele, parecia-me natural. Quanto a ti, claro, tinhas que o conhecer, tinhas que ver pelos teus próprios olhos como era giro, e simpático, e inteligente, e tudo, e tudo. As minhas descrições nunca lhe fariam verdadeira justiça. Também ele estava curioso em relação a ti, de tanto que aparecias nas minhas histórias contadas nos intervalos, que escorriam velozes por entre os dedos.

Confiante, combinei um encontro para se conhecerem, num qualquer final de tarde, depois das aulas. Nós as duas, andávamos em escolas diferentes e essa era a única altura possível. Foi perfeito. Cinco minutos depois, parecia que nos conhecíamos desde sempre. Uma semana depois, vocês já combinavam saídas nos vossos tempos livres. E contavam-me tudo. E eu, andava feliz por ter dois amigos assim, extraordinários, e ria das vossas histórias divertidas. Não consigo precisar, quando é que essas histórias me começaram a deixar com uma dorzinha inexplicável no peito. Lembro-me só do momento em que percebi que gostavas dele tanto quanto eu. Estavas a meio de uma história qualquer, quando vi o brilho no teu olhar, o sorriso contagiante e aquele tom de voz… Deixei de te ouvir e fiquei sem ar.

Faço aqui um aparte para dizer que sempre soube que eras mais bonita do que eu. Mais que bonita, exótica. Isso nunca me perturbou ou causou qualquer tipo de ciúmes. Quando andávamos juntas, a maioria dos rapazes olhava primeiro para ti, mas nunca foi problema, porque tínhamos gostos diferentes, personalidades diferentes, atributos diferentes. Além disso tínhamos o código.

“Nenhum namorado é mais importante que uma amiga. Eles vão e vem, as amigas são para sempre.”

Não consegui dizer nada naquele momento. Passei a noite em claro, e no dia seguinte tivemos aquela conversa. Tu dizias que se eu gostava dele, te afastavas. Que a nossa amizade era mais importante que qualquer rapaz que aparecesse. Eu já tinha decidido. Ele podia gostar de muito de mim, mas foi por ti que se apaixonou, era mais que óbvio. Demorei a explicar que não fazia sentido afastares-te. Que para ele eu era apenas uma grande amiga, (doía-me assumir isto), mas era de ti que ele gostava. Emocionadas abraçamos-nos. Pedi-te só que nunca lhe dissesses o que sentia por ele, já que ele não o percebera.

O tempo passou, vocês foram felizes enquanto durou o Verão, e eu assisti de perto sem nunca me ter arrependido da minha decisão. Em Setembro ele foi embora para longe, para seguir o seu grande sonho. Ficámos nós e a saudade.

Tínhamos 16 anos, e naturalmente outras paixões surgiram, outros dramas normais de uma adolescência feliz. Esta amizade, manteve-se de pedra e cal, como tinha que ser. Encontrei-o, muitos anos depois de uniforme da Marinha. A mesma alegria, a mesma descontração e a mesma familiaridade, transportaram-nos para o passado como se o tempo não tivesse corrido veloz. Contou-me que tinha casado. Que era feliz. Alcançara o seu sonho maior.

Contei-te. Quase nem te lembravas dele. Para ti, que eras desejada por tantos, ele tinha sido mais uma paixão da adolescência, que se deu sem deixar vestígios Para mim, foi aquele de quem abdiquei pelo meu bem mais precioso, a nossa amizade. Ainda hoje, á luz da maturidade sei que foi a escolha certa.

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