Novembro 2016

Lembranças de uma noite (in)feliz

Nessa noite, ouvimos os fados chorosos em Alfama e os gritos dos soldados que a noite calara no Largo do Carmo.

Durante aquela noite, os nossos corações  ficaram partidos devido aos segredos que tornam Lisboa numa cidade humanamente desumana.

E quando aquela noite terminou, as margens do Rio Tejo protagonizaram o mais belo amanhecer que poderíamos alguma vez presenciar, deixando-nos felizes por conhecer o desejo de terminar a infelicidade.

Lembro-me de cada detalhe da noite a que mais gostava de regressar.

Estava um frio rígido, uma daquelas noites de Outono em que queremos  estar aconchegados no sofá, sem qualquer tipo de plano que nos faça deixar o conforto da nossa casa.

Tinha tido uma daquelas semanas no trabalho, repletas de reuniões e reuniõezinhas, ultimatos e fecho de acordos.

A mesa de topo branco que havia comprado no IKEA (e que tinha adornado com papel autocolante em tons de pedra mármore, só para aderir às últimas trends) vibrou enquanto o toque de mensagem do meu telemóvel fazia distúrbio entre o silêncio das minhas palavras e o zapping que eu ia fazendo na TV.

“Queres ir beber algo? Rough week. :/“, lia eu, nas notificações do objecto irritante de luz fluorescente.

Aceitei. Aparentemente não era a única que necessitava de algo mais forte que o copo de Pinot Grigio que eu balançava agora entre os dedos.

Tinha a perfeita noção de que estas últimas semanas haviam sido ridículas e me tinham tornado numa pessoa amarga.

Mas é isso que o terminar de uma relação nos faz, certo? Transforma-nos. Para melhor ou pior e sempre para quem não merece.

A paragem iria ser a mesma de sempre.

O Bairro Alto chamava o meu nome num volume só para mim audível enquanto a vista do Miradouro de S.Pedro curava todos os pensamentos que me carbonizavam a alma, durante a descida até aos Armazéns do Chiado.

O cheiro a castanhas assadas enchia-me os pulmões enquanto o espírito natalício se enchia de forças para me entrar no coração.

Parei.

Olhei com olhos de ver e, com um simples inspirar do ar que me rodeava, tudo mudou.

Naquela noite, eu não conheci ninguém.

Não tive um One Night Stand nem bebi até não saber quem era ou onde estava.

Ao invés, naquela noite, redescobri-me.

Olhar para a cidade de Lisboa à noite, a cidade que me havia acolhido durante os meus anos  de faculdade e me adoptou para o que me parecia o resto da minha vida, entre momentos de amor e desamor, risos e lágrimas, parecia-me agora desconhecida.

Apressei-me a enviar mensagem às minhas companhias daquela que viria a ser uma das noites mais inesquecíveis da minha vida, trocando os planos de cocktails por garrafas de água e salto alto por sapatilhas.

Elas concordaram. Mudámos rumo à rota e fomos trocar os stilletos adquiridos nos últimos saldos por umas Adidas compradas online.

Nessa noite, caminhámos sem rumo.

Redescobrimos uma Lisboa cujas cores noturnas da capital ofuscam qualquer holofote de um estádio de futebol.

Olhámos com alma os olhos do Adamastor e da Graça.

Nessa noite, ouvimos os contos mudos do Intendente e as músicas silenciosas do Martim Moniz.

Nessa noite, ouvimos os fados chorosos em Alfama e os gritos dos soldados que a noite calara no Largo do Carmo.

Durante aquela noite, os nossos corações  ficaram partidos devido aos segredos que tornam Lisboa numa cidade humanamente desumana.

E quando aquela noite terminou, as margens do Rio Tejo protagonizaram o mais belo amanhecer que poderíamos alguma vez presenciar, deixando-nos felizes por conhecer o desejo de terminar a infelicidade.

Quando cheguei a casa, na manhã após aquela noite, peguei na mochila e saí para não tão cedo regressar.

Mandei mensagem a dizer “Vou ser feliz a contemplar a felicidade do Mundo”.

Mal sabia eu, que feliz não haveria eu sempre de ser, mas que a vida, a felicidade a mim se encarregaria sempre de trazer.

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