Dezembro 2016

O Natal e as crianças

Ana correu atrás da mãe, que se fechou no quarto. “Mãe?”, chamou, “estás bem? Eu gosto da tua comida”. Sem resposta do outro lado da porta, Ana voltou à sala e sentou-se no sofá, concentrando-se à vez na televisão e na intermitência das luzes da árvore de natal para não chorar.

Este ano, como nos anteriores, o frio da noite é mitigado pelo brilho acolhedor das luzes atiradas à pressa para cima dos arbustos e das árvores. Vermelhas, verdes e amarelas, intermitentes – toscas, excêntricas. O resto do jardim deixa-se ficar triste e penumbroso, refúgio para os cigarros, beijos e mijas às escondidas. Para os restos podres de relva cortada há anos, de árvores podadas, de merda de cão.

A entrada faz-se pela cozinha, onde, misturado com o peru e com o bacalhau a dourarem no forno, com as frutas cristalizadas e a as fatias douradas, permanece um cheiro a cão molhado e a lama. Cascas de aperitivos, barbas de camarão e tufos de pêlo de cão e gato preenchem o chão. Fitas brilhantes decoram dezenas de molduras de quadros e fotografias, pesando as paredes.

À mesa a família está reunida para a consoada. O pai, divertido, conta as mesmas histórias de quando circulava nos grandes círculos. Quando não sente ouvido, conta-las à avó, sua mãe, que como ouve mal ainda encontra lá novidade. A mãe atarefa-se a trazer o bacalhau e o peru para mesa – há sempre alguém que não come um dos dois, os restos ficam para o dia a seguir. Depois de se sentar deixa-se ficar a devorar silenciosamente uma perna de peru.

Entre o barulho dos copos e talheres, Ana, a filha mais nova, sentiu vontade de chorar. Em vez disso, sorriu. À semelhança da mãe, Ana também era calada e reservada. Uma criança francamente aborrecida, com esporádicos ataques de choro e raiva aos quais ninguém dava muita importância.

“Montámos a árvore ontem” comentou o pai, olhando Ana e o irmão, que jogava consola e não lhe deu a menor atenção, “quer dizer, montei eu, que estes aqui não têm sentido estético nenhum”.

“Está muito bem”, comenta a avó. “Eu não consigo comer isto tudo”, continuou, “isto é um desperdício de comida.”

“Pois, já percebi que ninguém gosta da comida”, disse a mãe, “da próxima façam vocês!”, gritou, deixando a mesa de um assalto.

Ana correu atrás da mãe, que se fechou no quarto. “Mãe?”, chamou, “estás bem? Eu gosto da tua comida”. Sem resposta do outro lado da porta, Ana voltou à sala e sentou-se no sofá, concentrando-se à vez na televisão e na intermitência das luzes da árvore de natal para não chorar.

O irmão mais velho veio junto dela saber da mãe.

“Ela está bem?”, perguntou.

“Não sei. Trancou-se no quarto outra vez”.

Naquele momento Ana sentiu de novo vontade de chorar, mas desta vez mais forte, incontrolável. Escondeu a cara molhada e abafou os soluços no colo do irmão, que continuou a jogar consola.

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