Super-Homem

O médico olhou em volta. Junto à janela, numa mesa redonda, estavam expostas diversas molduras. Nalgumas viam-se dois bebés, mais tarde rapazinhos, noutras relatava-se o casamento da rapariga que abrira a porta. Mas, na sua maioria, a mesa era dominada pelo retrato de um senhor de olhos negros e profundos sulcos junto aos lábios, indubitavelmente o marido da senhora que se encontrava reclinada naquela cama.

Recostado no sofá negro, com uma caneca de chocolate quente na mão e uma manta polar pousada nas pernas, olhou lá para fora, através das janelas gradeadas, prestando atenção aos padrões luminosos das árvores de natal vizinhas. As luzes roxas, verdes, azuis e vermelhas refletiam difusas na água da chuva que caía copiosamente, espalhando de uma forma irónica a beleza melancólica da noite de Natal.

Gostaria de poder estar em casa com a família, provavelmente acabada de sentar à mesa para a dança das travessas de bacalhau, batatas e ovos cozidos, numa azáfama infantil de felicidade de quem se reúne pelo menos uma vez no ano. Em vez disso, estava naquele contentor com mais quatro colegas de trabalho, de bata branca pendurada a caminho da porta, por cima da mesa onde estavam pousadas as chaves do carro e da ambulância, à espera da chamada de emergência.

Molhou um pedaço de bolo-rei na mousse de chocolate e trincou-o, como sempre apreciando o esforço e cuidado da enfermeira que o oferecera, sem que ninguém pudesse adivinhar que não ficara alheio à sua secura.

Na televisão passava, para manter a tradição natalícia, o primeiro Sozinho em Casa, que já vira vezes sem conta com os filhos enquanto cresciam. Fechou os olhos, entregando-se ao cansaço e desinteresse de quem foi a vida toda roubado daquele momento de família. Em parte por opção, bem o sabia.

O rádio despertou-o impiedoso, dirigindo-o em corrida para o carro que, com a sirene ligada, cortou as ruas silenciosas e quase desertas da cidade.

Chegado à morada indicada, a porta foi aberta por uma bela rapariga com os cabelos apanhados numa trança ao lado, claramente arranjada para a ocasião.

– A minha mãe está lá dentro. – Fez um trejeito de desprezo, indicando ao médico a passagem. – Desculpe, eu não achei necessário, mas ela insistiu que se sentia mal. Diz que está a ter um ataque cardíaco, mas ao tempo que isto já começou, já teria morrido. Só está a fazê-los perder tempo. E logo hoje…

Atravessou o hall, descobrindo um homem novo e duas crianças sentados à mesa de jantar iluminada pela árvore que protegia embrulhos coloridos. Seguindo pelo corredor adiante, desembocou num pequeno quarto aquecido, no qual se encontrava uma senhora de meia-idade de costas para a porta, com as mãos apoiadas na beira da cama, arfando descontroladamente.

Pediu à enfermeira que afastasse a jovem e abeirou-se da senhora.

– Minha senhora, consegue ouvir-me? Sou o doutor Filipe e estou aqui para a ajudar.

Ouvia-lhe a respiração ofegante e soluços que lhe pareceram camuflar algumas palavras que não conseguiu compreender. De vez em quando levava a mão ao peito, pelo que, fazendo sinal à enfermeira, deitaram a senhora na cama, de barriga para cima.

– Vou ausculta-la, está bem? Tente respirar fundo.

Ouviu-lhe a respiração, mediu-lhe a pulsação e as tensões e pôs de parte a hipótese de enfarte.

Encostaram a senhora à cabeceira da cama, tapando-a com um cobertor pousado na cadeira, para tentarem controlar os seus tremores.

– Dona Lídia, o que sente?

– Dói-me o peito, doutor. – Tornou a levar a mão junto ao coração, para exemplificar, enquanto lágrimas lhe caíam descontroladamente pela face. – E a cabeça… Sinto-a leve. Não, pesada… E estou a ver mal, muito mal. Vejo tudo a andar à roda.

Puxou a cadeira para poder sentar-se e ficar com a cara à altura da da senhora.

– Lá dentro, na sala, é a sua filha e os seus netos?

O rosto da senhora fechou-se quando acenou afirmativamente com a cabeça.

– Jantou com eles?

A senhora não respondeu. Em vez disso, limpou os olhos com as costas da mão enrugada, revelando umas unhas cuidadas e impecavelmente pintadas. No anelar esquerdo encontravam-se duas alianças douradas.

O médico olhou em volta. Junto à janela, numa mesa redonda, estavam expostas diversas molduras. Nalgumas viam-se dois bebés, mais tarde rapazinhos, noutras relatava-se o casamento da rapariga que abrira a porta. Mas, na sua maioria, a mesa era dominada pelo retrato de um senhor de olhos negros e profundos sulcos junto aos lábios, indubitavelmente o marido da senhora que se encontrava reclinada naquela cama.

– Esta casa é da senhora?

Respirando um pouco mais tranquilamente, ela anuiu:

– A minha filha mora aqui comigo com o marido e os dois pequenos.

– Então está aqui dentro agora porquê?

– Porque estava a sentir-me mal. Muito mal, doutor. Palpitações…

– Onde estava quando começou a sentir-se assim?

A senhora franziu o sobrolho, olhou na direção da porta a medo e respondeu baixinho:

– Na… na cozinha…

– A cozinhar?

– Não… A comer.

– E a sua filha e os seus netos, onde estavam? – perguntou o médico, adivinhando a resposta.

– Na sala. A jantar.

– Porque é que estavam separados?

A respiração da senhora voltou a acelerar, impedindo-a de falar e soltando grossas lágrimas dos seus olhos pequenos.

– Ai! Ai! Ajude-me! – Pousou uma mão no peito e a outra no ombro do médico. – Ajude-me, que está a voltar.

O médico apertou-lhe suavemente as mãos com as suas e disse-lhe, num tom de voz apaziguador:

– Ouça, está tudo bem com o seu coração. Isso não é um enfarte. Respire fundo e olhe para mim. – A senhora obedeceu. – Já acabou de jantar? – Ela anuiu. – Comeu sobremesas? – Ela negou com a cabeça. – Quer alguma?

Pediu à enfermeira que fosse buscar um prato com rabanadas e sentaram-se os três no quarto aquecido a saborear os doces de Natal.

– Foi a senhora que as fez? – Quis saber a enfermeira.

– Fui. Com a receita da minha mãe. É já muito antiga, mas sai sempre muito bem. O truque é um bocadinho de licor de mel.

Cerca de uma hora mais tarde, o médico autorizou a enfermeira a regressar à base:

– O seu turno já acabou, pode voltar para casa.

– Tal como o seu – retorquiu ela. – Mas não vai a lado nenhum, pois não?

– Não – admitiu o médico.

– Pois eu também não.

– Têm de ir – disse a senhora a medo. – É Natal, têm de estar com as vossas famílias. – Era fácil perceber que a respiração da senhora, embora bastante mais tranquila do que quando ali tinham chegado, voltava a alterar-se.

– Temos nós e tem a senhora. No entanto, está aqui escondida na sua própria casa, enquanto a sua filha está lá dentro com o marido e os filhos.

– Deixe-a estar, coitadinha. Ela não tem trabalho e anda muito ocupada com os meninos. Fica cansada e irritadiça, por isso às vezes eu sei que tenho de lhe dar espaço.

– Acha isso bem? – Ralhou a enfermeira. – Reclusa na sua própria casa?

– Enfermeira Mónica… – advertiu baixinho o doutor Filipe. – O que é que o Natal significa para a senhora?

A paciente voltou os olhos para a mesa com as fotografias:

– A reunião das famílias. O amor. A felicidade. A vida.

– Sente alguma dessas coisas? Agora, aqui…

As lágrimas voltaram a cair-lhe pela cara abaixo:

– Não…

O médico e a enfermeira ampararam, mais por conforto do que por necessidade, a senhora e conduziram-na ate à sala, onde as crianças desembrulhavam os presentes. Os quatro olharam-nos confusos e a filha da senhora aproximou-se:

– Doutor, o que se passa com a minha mãe? É só fita, não é?

A enfermeira conduziu a senhora até ao sofá, enquanto o médico respondia, no tom de voz mais firme e, ao mesmo tempo, baixo, de que foi capaz:

– A sua mãe é uma senhora sensível, em luto pela morte do marido, que tem apenas uma filha e dois netos. Ainda assim, passou a noite de Natal fechada no quarto, sozinha, com medo de estar a ter um enfarte. Não é só fita. É carência. Trate de lhe dar vida, que tem um teto e comida na mesa graças a ela que, em troca, só recebeu vinte anos mais do que os que na realidade tem. Trate-a bem. Hoje foi só um ataque de ansiedade. Da próxima pode ser ainda mais sério do que isto.

A rapariga olhava o médico incrédula, balbuciando sons de incompreensão.

– É Natal, não é? – questionou o doutor Filipe.

– Sim – respondeu ela, atónita.

– Então façam o que as famílias fazem no Natal. Antes que a sua mãe se farte da sua ingratidão e não lhe ofereça mais Natal.

Substituiu a bata por uma gravata. O frio que banhava a cidade conferia-lhe uma tranquilidade apocalíptica. Meteu a chave na porta e mergulhou no calor da casa animada por conversas e músicas. Ainda não pousara o sobretudo e já era acolhido por abraços e beijos de três adolescentes:

– Demoraste! – notaram.

– Teve de ser. Vamos abrir os presentes?

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