Dezembro 2016

Sentido de Natal

Nesta vida, já não tentava compreender tudo, que isso só lhe trazia angustia. Decidira aceitar que o mundo não era perfeito, mas que apesar disso podia sempre contribuir com algo para o melhorar para alguém, nem que no resultado final, só o seu coração se sentisse um pouco mais quente, por ter feito algo bom.

Ainda não eram 9 horas, e a manhã  já ia longa. Joana, respirou fundo já a acusar algum cansaço, e olhou para a meia dúzia de pessoas que esperavam para ser servidas. À sua volta, naquele que era o salão da junta da sua freguesia, quase uma centena de pessoas tomava o pequeno almoço, num burburinho que não era barulho, mas o resultado de algumas conversas dispersas. Já não se surpreendia por serem cada vez mais. No meio dos repetentes, eram mais as caras novas do que os que deixavam de aparecer. O pequeno almoço de Natal tornara-se famoso por aquelas bandas, e eram quase tantos os que queriam contribuir, como os que dele usufruíam. Sentia-se uma energia boa, e mesmo as pessoas que não se conheciam, agregavam-se com uma lógica qualquer, que a ultrapassava.

Nesta vida, já não tentava compreender tudo, que isso só lhe trazia angustia. Decidira aceitar que o mundo não era perfeito, mas que apesar disso podia sempre contribuir com algo para o melhorar para alguém, nem que no resultado final, só o seu coração se sentisse um pouco mais quente, por ter feito algo bom.

Depois de servir as ultimas pessoas, pegou numa chávena de chá, numa fatia de bolo Rainha, e encostou-se ao parapeito de uma janela ao lado da pessoa que tinha sido a origem a tudo isto.

“Não são éclairs” disse ele, sorrindo. “não, não são.”  Respondeu, sorrindo de volta partilhando a cumplicidade. Olhou lá para fora, para o sol que brilhava na copa húmida das árvores, apesar do frio intenso, recordando este mesmo dia, há cinco anos atrás.

Acordara cedo a Sentir-se miserável. Era o primeiro Natal sem filho por perto, desde que ele nascera. O sol mal tinha nascido. Sabia-o pelo estore mal corrido, e pela parca luz que se adivinhava. Naquela penumbra, deixou-se estar quieta. A casa ainda estava fria e pouco convidativa. Não havia nada à sua espera a não ser os gatos, que misteriosamente lhe adivinhavam o sono.

Não sabia como preencher o dia vazio que se iniciava. Era dia 24 de Dezembro e só lhe apetecia fechar os olhos, adormecer e acordar de novo no dia 25. A culpa da situação em que se encontrava era dela, claro. Alguns amigos, sabendo da sua “situação”,  tinham-na convidado para jantar, para que não passasse sozinha a véspera de Natal. Recusara. O resto da família estava longe, e não quisera viajar, porque queria estar em casa quando o filho voltasse no dia 25. A partir de agora seria assim, Natal com um filho dividido entre duas casas.

Nunca dera importância aquela quadra, até que o seu filho nasceu. Na sua família não havia grande tradição, e o Natal da sua infância, fora  dececionante. Cedo percebeu que nem tudo era justo neste mundo. Nem no Natal.

Pequena demais para compreender, comparava as suas prendas, com as dos outros meninos da escola, e percebia que a distribuição era tudo menos justa. O sapatinho dela e dos irmãos nunca tivera brinquedos, porque o Pai Natal “não tinha dinheiro para tudo” (como lhes explicara a mãe na sua maneira desenvolta de esclarecer dúvidas).

Não, o Natal nunca lhe dissera nada, até ao momento que nasceu o seu filho, e que jurou que com ele seria diferente. Tinha sido, até ter estragado tudo.

Conhecia de cor a sucessão de eventos que a levara aquele momento. Não se arrependera da sua decisão, mesmo sabendo que teria de se confrontar com a solidão, antes de encontrar o rumo. Não obstante, sabia que estava no caminho certo. A maior solidão é a de quem se sente só, acompanhada.

Apesar de todos a condenarem por se ter separado quase na véspera de Natal, fora inevitável. Não aguentaria mais um Natal a fingir a família feliz. Fingia há demasiado tempo. Há tanto tempo  que a desculpa de o fazer pelo filho já não a convencia. Percebera finalmente que a máxima de emergência nos aviões, se aplicava à vida em geral, “Salva-te primeiro, só assim poderás ajudar os outros”. Ou, neste caso, uma pessoa infeliz não faz ninguém feliz, muito menos um filho. Demorara demasiado tempo a chegar a esta conclusão, a aceitá-la, e a agir em função dela, sem se sentir a pessoa mais egoísta do mundo.

No fundo a culpa ainda a atormentava, mas o seu filho ficaria bem. Estranharia a nova rotina que se impunha, mas era um menino feliz. Adaptar-se-ia , desde que o bom senso prevalecesse.

Naquela manhã estava a ir-se abaixo. Sentia que aquele era um momento crítico, decisor. Precisava de o ultrapassar para ganhar animo para outros que surgiriam no futuro. Não se podia entregar à autocomiseração.

Num impulso, levantar-se.

Abriu o estore, afastou as cortinas, e escancarou a janela. Debruçou-se para sentir o sol na cara, juntamente com o frio de Dezembro. Apeteceu-lhe voltar para a cama mas resistiu, e rumou à cozinha. Os gatos miavam a pedir comida e atenção, roçando-se nas suas pernas impedindo, que se movimentasse devidamente. Primeiro eles. Fez-lhe festas, até os sentir a ronronar, e de seguida deu-lhes comida e água. Sentou-se à mesa, olhou em volta, e percebeu que assim não ia resultar. Estava a desanimar perante a perspetiva de um pequeno almoço banal e a sós. Sairia de casa. Enfrentaria a vergonha de tomar o pequeno almoço sozinha algures no dia 24, mas tomaria o melhor pequeno almoço de sempre!

Tomou banho rapidamente, e saiu antes que mudasse de ideias. Sentou-se no carro, e escolheu o destino.

A sua pastelaria favorita na Avenida Duque de Ávila, onde os éclairs eram pequenos pedaços de céu. Era muito raro lá ir, pois o preço, ao contrário de tudo o resto, não era nada convidativo. Pelo caminho pedia silenciosamente ao universo que não estivesse fechada. Estacionou o carro ainda longe, e fez o resto do caminho a pé. As ruas estavam vazias, ainda era cedo. Caminhou em passo acelerado, focada no objetivo.  Quando caminhava assim, não via nada, nem ninguém, no entanto, depois de entrar pastelaria, e quando se preparava para pedir, o cérebro pregou-lhe uma partida. Uma imagem assaltou-a, e congelou. Olhava para a pessoa à sua frente, e não conseguia dizer o que queria. Na sua mente via alguém sentado num banco lá fora, a aquecer os dedos com a própria respiração, com um aspeto pouco recomendável. Não percebia onde teria ido buscar aquela imagem. Seria imaginação sua? Estaria a ficar louca?

Não passara por ninguém, tinha a certeza.

“Desculpe, precisa de mais tempo para decidir?”, estremeceu, teria de responder alguma coisa à pessoa que a atendeu, pois via-lhe no olhar que estava prestes a ir-se embora. Pediu desculpa pela distração e escolheu tudo o que queria, mas para dois, e para levar. Vários éclairs, e leite com chocolate, bem quentinho. Pedido simples de resolver, não fosse o leite, que teve de ser de pacote à temperatura ambiente, (que ali não era o Starbucks!)

Recorda que pagou, e saiu para a rua de saco na mão, a rezar para não estar enganada, e encontrar a figura esquálida que tinha gravada no fundo do seu cérebro, mas que não localizava na geografia do percurso. Pelo aperto no peito, sentiu o quanto precisava disto, sem perceber ainda porquê. Precisava de aquecer o coração fosse de que maneira fosse para o dia fizesse sentido. Precisava de partilhar. Nem que fosse o pequeno almoço com o primeira pessoa que encontrasse.

Achando-se um pouco insana nesta demanda, acelerou o passo.

Alguns minutos depois, avistou o banco no passeio da Avenida, e viu aquela figura andrajosa e magra, sentada e encolhida pelo frio. Nesse momento teve dúvidas. E se ele fosse perigoso? E se a achasse louca? Quase passou por ele sem parar, quase fingiu que não o via. Quase. Seria tão mais fácil continuar em direção ao carro, em vez de ser armar em Madre Teresa… Mas parou. Respirou fundo, compôs um sorriso, olhou-o de frente e disse bom dia.

Recebeu, um bom dia, de volta…

O resto? Bem, o resto é uma história de amizade que cresceu e que se renova, a cada Natal. Porque o que começou num gesto impulsivo de generosidade, ganhou vida própria, transformando um pequeno almoço partilhado entre dois desconhecidos, num pequeno almoço partilhado entre dezenas.

Joana virou-se quando escutou a gargalhada do seu filho nas suas costas. Ao observar a mesa onde ele se encontrava rodeado de desconhecidos, sorriu, pois sabia que tinha feito um bom trabalho. Também ele percebera o verdadeiro sentido do Natal.

 

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