Fevereiro 2017

Órla

A jovem mulher a quem Niall chamava esposa era uma criatura estranha, tão bela como triste.[…] Os seus olhos eram de uma tristeza assombrosa e de uma profundidade que rivalizava apenas com a do próprio mar. Parecia sempre estar com a cabeça noutro lugar, bem longe dali, e sentir saudades de algo ou alguém que, claramente, não se encontrava lá. Nunca era vista a rir nem a sorrir por ninguém na aldeia. Órla questionava-se se o próprio Niall alguma vez a vira sorrir.

Quando Órla Mag Uidhir nascera, saudou o mundo com gritos a plenos pulmões, tão fortes que lhe ruborizavam as gordas bochechas, explodindo de energia e saúde. Os pais, Fearghus e Eithne Mag Uidhir regozijaram-se perante o nascimento deste primeiro bebé tão desejado e juntaram toda a gente da sua aldeia num banquete que, apesar de modesto, durou três dias e duas noites. Durante todo esse tempo, comeram, beberam, riram alto e a bom som, jogaram jogos, tocaram e ouviram música. Foi um acontecimento que todos eles recordariam durante muito tempo.

Dezasseis anos depois, o banquete e o próprio nascimento de Órla pareciam ter acontecido noutra vida. É que poucos meses após o nascimento do bebé saudável e rosado, sempre a gritar e a chorar ruidosa, mas saudavelmente, Eithne começou a reparar que o seu bebé ia perdendo as bochechas cheias e o riso fácil. O choro, esse, pelo menos não perdera, apenas se intensificava e desesperava os seus pais, aflitos por não o conseguirem acalmar, apesar de todos os seus esforços. A única coisa que parecia acalmar o bebé era a música. Fearghus, o pai, tocava razoavelmente bem a flauta e a gaita uilleann. Eram apenas durante esses momentos que Órla sossegava e aceitava ser alimentada.
A mãe não se confortava com o facto do seu bebé gorducho e bem disposto ter mudado de tal forma e tão rapidamente, pelo que decidiu que aquele não era, afinal, o seu bebé, mas sim um changeling, um bebé do Povo das Fadas (ou Povo Bom), que nascera mal e que estas abandonava no mundo dos humanos, onde trocavam o seu bebé estridente e enfezado por um bebé humano saudável e rechonchudo. Fearghus não acreditava em fadas, mas que aquele não parecia ser a sua filha, isso era certo.

E assim, Órla Mag Uidhir cresceu com uns pais sisudos, que só a haviam mantido por medo daquilo que pensariam sobre eles na aldeia se se tivessem visto livres dela. Para a manter ocupada e o mais longe possível de casa, davam-lhe as mais variadas tarefas, desde ir buscar água, a levar as ovelhas a pastar, a ajudar a velha senhora Bríd nas suas tarefas domésticas. Mas a tarefa preferida de Órla era ir buscar e cortar lenha à floresta. Convencidos de que Órla era, de facto, um changeling (a mãe, o pai fingia que acreditava), os pais proibiram a música em sua casa. Os changelings eram conhecidos por terem uma propensão para a música superior à dos seres humanos, pois final vinham do Povo das Fadas, e Órla desde bebé que mostrava responder – e muito – a estímulos musicais.

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Com a música banida de casa dos pais, Órla passou a tirar prazer da tarefa de ir buscar lenha à floresta, pois fora lá, há muitos anos atrás, que descobrira que conseguia fazer música com qualquer coisa; com as folhas das árvores, golpeando-as no meio e soprando pela pequena abertura que criava nas folhas, com os galhos mais finos, esculpindo-os com a pequena faca que trazia no bolso, com o cantil de água que trazia consigo, enfim, Órla conseguia produzir sons musicais com qualquer coisa e criar melodias a partir de todos os sons da natureza, porque a música fazia parte dela como o próprio sangue, a pele, os cabelos… E a voz de Órla! Quando não estava a usar a boca para fazer sons a partir dos seus instrumentos inventados, Órla cantava e cantava e cantava como se a sua própria existência disso dependesse.

Por vezes, quando ia à floresta fazer as tarefas que a mãe lhe mandava, descobria coisas maravilhosas que pareciam ter lá sido deixadas para si. Um fita de cetim azul um dia, noutro um dedal prateado, um pente branco em forma da mais bela concha do mar e, mais recentemente um chapéu vermelho.
Órla recolhera cada um destes presentes que a floresta parecia oferecer-lhe, sentindo-se grata e humilde perante tamanha generosidade, mas por outro lado não sabia o que fazer com eles. Nunca ia a qualquer festa ou evento especial onde se justificasse usar belíssima fita de cetim azul; se usasse o dedal brilhante e prateado quando estivesse a coser, a mãe estranharia e obrigá-la-ia a devolvê-lo; com o pente idem aspas, se bem que ainda se pusesse a jeito de levar uma grande reprimenda e trabalhos redobrados, já que a mãe a proibia de chegar sequer perto do mar, algo que deixava Órla desolada. O chapéu nem se falava; logo Órla que nunca tinha tido sequer um chapéu, muito menos um tão bonito, ia agora chegar a casa com uma peça daquelas enfiada no topo da cabeça desgrenhada? Certamente que não a deixariam mantê-lo na sua posse durante muito tempo…

Então Órla começou a coleccioná-los a todos, guardando-os cuidadosamente numa fenda da maior árvore da floresta, por onde conseguia facilmente entrar e passar algum tempo com os seus presentes. Apenas lá podiam usá-los e sentir-se especial por breves instantes.

A caminho de casa, depois de juntar a quantidade suficiente de troncos e ramos para o fogo da noite, era frequente esquecer-se deles na floresta e ter que voltar atrás para os recolher, tal era o estado de deslumbramento que se apoderava de Órla sempre que passava tempo com as suas preciosidades dentro da árvore. Quando finalmente recolhia tudo e se encaminhava novamente para casa, costumava passar pela casa do pescador Niall, que um dia voltara vivo de um naufrágio com um barco de pesca a menos e uma mulher a mais. A jovem mulher a quem Niall chamava esposa era uma criatura estranha, tão bela como triste. Costumava sentar-se no degrau da porta da frente de casa de Niall todos os dias à hora que Órla fazia o caminho de regresso a casa, carregada de lenha, com os seus cabelos negros como carvão caídos à frente do rosto, do qual dois olhos também eles negros, os maiores que Órla alguma vez vira, espreitavam por entre duas cortinas de cabelo que lhe chegava à cintura. Os seus olhos eram de uma tristeza assombrosa e de uma profundidade que rivalizava apenas com a do próprio mar. Parecia sempre estar com a cabeça noutro lugar, bem longe dali, e sentir saudades de algo ou alguém que, claramente, não se encontrava lá. Nunca era vista a rir nem a sorrir por ninguém na aldeia. Órla questionava-se se o próprio Niall alguma vez a vira sorrir.

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Muitos outros dias se sucederam ao primeiro em que Órla vira a jovem mulher de olhos postos no infinito sentada à porta de casa do marido. Mas um dia, enquanto experimentava os seus presentes encantadores dentro da grande árvore, olhou-os a todos, dispostos em fila e escolheu um para levar consigo. Nessa tarde, fez-se acompanhar pela lindíssima fita de cetim azul no regresso a casa. Assim que se aproximava da casa de Niall e já via a figura lúgubre da mulher de cabelos negros, pousou a sua carga de madeira e aproximou-se dela pela primeira vez.

– O… Olá. – saudou Órla, hesitante.

A jovem não se moveu nem levantou os olhos do horizonte.

– Olá, o meu nome é Órla Mag Uidhir. Como te chamas?

A jovem não respondeu.

– Não te quero incomodar, é só que passo aqui quase todos os dias e sempre que te vejo pareces tão triste…

A jovem olhou para ela, ainda meio ausente. Nada disse, mas já era um começo.

– Toma, quero que fiques com isto. Espero que alegre o teu dia. – A menina estendeu a mão à rapariga de cabelos negros e deu-lhe a fita azul.

A rapariga ficou com a fita na mão, a passá-la de dedo em dedo, olhando-a com o olhar vazio que sempre tinha.

– Não, vê, é para o teu cabelo bonito. – disse Órla, voltando a pegar na fita.

Como a rapariga nada disse, mais uma vez, Órla procedeu a entrançar-lhe o cabelo solto. Quando terminou, prendeu a ponta da trança com a fita azul e as cortinas de cabelo preto desapareceram para dar lugar a um rosto bonito onde aqueles olhos enormes agora a olhavam, mais presentes que ausentes.
Não agradeceu nem falou, mas a Órla pareceu que tinha feito uma espécie de aceno de cabeça. Encarou-o como um agradecimento e, assumindo o gesto como progresso de aproximação entre as duas despediu-se com um grande sorriso:

– Até amanhã!

A partir dali, todos os dias que passou por casa do pescador Niall, Órla levava mais um dos seus tesouros à jovem. Infelizmente, pareciam nada fazer para alterar o perpétuo estado de melancolia da jovem esposa do pescador.

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Agora só sobrava a Órla o chapéu vermelho, que era o seu bem mais precioso, o melhor bem com que a floresta a havia presenteado. Não queria ver-se livre dele, afinal, era agora a única coisa de valor que possuía na sua vida tão simples e despojada. Ao mesmo tempo, era também a sua última esperança de tornar a rapariga triste na sua única amiga e de vê-la a sorrir. Entre a possibilidade – ainda que fosse apenas isso – de fazer uma amiga e de manter a posse do chapéu vermelho, que não podia usar fora do seu esconderijo secreto, a escolha não foi difícil. Da próxima vez que fosse à floresta apanhar lenha para a fogueira, Órla levaria o chapéu à jovem esposa do pescador.

E assim foi.
Era uma tentativa quase desesperada da parte de Órla em arrancar qualquer tipo de reacção da soturna criatura de olhos e cabelos negros e, tal como as anteriores, também falhou. A mulher parecia tristemente enfeitiçada, como se um poder antigo qualquer lhe tivesse roubado a possibilidade de demonstrar qualquer outro sentimento que não tristeza, melancolia e indiferença.
Desta vez, Órla não conseguiu evitar sentir-se zangada e gritou:

– Tenho vindo ter contigo todos os dias, dei-te tudo o que me era mais querido neste mundo e nem um sorriso me deste em troca! Também não tocas em nenhum dos meus presentes nem ouvi sequer um obrigado, nunca vi nada assim! – e Órla pensava que conhecia de perto a ingratidão e a negligência, pois nunca os pais alguma vez haviam agradecido qualquer tarefa que ela desempenhara, por mais difícil e dura que fosse.

– O chapéu, ao menos o chapéu vais usar! – zangada, Órla enfiou bruscamente o chapéu vermelho na cabeça da mulher.
– Agora adeus! – a ira dissipara-se assim que colocara o chapéu na cabeça da mulher, apenas para dar lugar à tristeza. De alguma forma e mesmo sem ter tido qualquer reacção da outra, Órla sentia-se estranhamente ligada a ela.

Voltou a pegar na lenha e encaminhava-se agora em direcção a casa quando ela falou.

– Órla! Minha amiga, por favor, não vás!

A rapariga deixou cair a lenha de tão perplexa que ficou ao ouvir, pela primeira vez, a voz da jovem esposa. Olhou para trás, para a encarar pela primeira vez olhos nos olhos. Foi a mulher que falou primeiro.

– Salvaste-me, Órla, nunca te vou poder recompensar justamente pelo que fizeste por mim!

– Eu… salvei-te? Como? O que fiz eu? Quem és tu afinal?

– O meu nome é Máiréad e sou uma mulher do mar. O pescador Niall raptou-me e trouxe-me para terra. Tirou-me o chapéu e, sem ele, esqueci quem era e de onde vinha. Todos os dias me sentia vazia e que saudades de algo, mas nunca soube o que era. Tu devolveste-me o chapéu que Niall me roubara e, com ele, a minha identidade. Vou voltar para o mar, Órla, vem comigo. Não há nada para ti aqui.

Órla abriu muito os olhos, estupefacta com a história de Máiréad e com o convite que esta lhe fizera. Ela, ir para o mar? A mãe nem perto da praia a deixava chegar, nem sequer sentar numa falésia a admirar o mar ao longe.

– Eu? Viver no mar contigo? Eu não sou como tu, morreria logo…

– Órla, tu não és como eu, mas és especial. Apesar de não te conseguir responder, eu ouvi tudo o que me contaste. Como é que achas que os teus objectos foram parar à floresta? Quem é que achas que tos ofereceu? São oferendas do Povo Bom, Órla, é a única explicação. Parecem valorizar-te muito. Pode ser que eles te possam ajudar, mas agora eu tenho que ir. Se Niall chega agora, posso perder para sempre a hipótese de voltar a casa. Vou voltar ao mar; espero por ti abaixo da falésia maior, nas rochas, lá em baixo.

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Órla deixou-se ficar quieta de olhos esbugalhados ainda durante algum tempo. Nada a faria anteceder o que acabara de se passar. Nada a fascinava mais que o mar, do qual nunca tinha sequer chegado perto, e o convite que a permitiria deixar os pais sisudos que nunca se haviam conformado com a filha que tinham e que nunca tinham aprendido a amar, parecia a coisa mais aliciante do mundo. Mas precisava de tempo para pensar. Então, decidiu levar o resto do dia com a maior normalidade possível. Levou a lenha a casa, acendeu a lareira, cozinhou o jantar, arrumou, limpou a cozinha e foi dormir. Ou assim deu a entender.

A meio da noite, quando Òrla tinha já a certeza de que os pais dormiam, correu à floresta onde apanhava a lenha, onde tinha recebido os presentes encantados e onde tinha o esconderijo secreto.

– Ó Povo Bom, se fostes realmente vós por detrás dos presentes encantados, estou-vos muito grata. Eu e Máiréad, a mulher do mar que, graças ao chapéu vermelho, pôde voltar a casa.

De trás das folhas das árvores à sua volta e das pedras e pedregulhos viu dezenas de pares de olhos muito pequeninos a brilhar e a olhar para si. Dezenas de pequenas fadas habitavam aquela floresta e ela nunca tinha dado por elas. Uma das pequenas fadas voou sozinha até ela, deixado-se estar no ar, suportada por duas asas quase invisíveis de tal finas e transparentes que eram, ao nível do seu rosto.

– Órla, nós sempre estivemos aqui a olhar por ti. Nós vemos como te tratam os teus pais, como te rejeitaram quando suspeitaram que eras uma de nós, como te proibiram o acesso à música, ao mar e a toda a beleza da vida. Queríamos dar-te algo para que conhecesses a beleza da vida e dos seus pequenos prazeres…

– Mas… porquê eu? – Órla quis saber.

– Pela tua música. Mesmo sem os instrumentos dos homens, a música que tocas exala a magia de outros tempos. A pureza da tua música é comparável apenas com a do teu espírito, Órla.

– Então ajudem-me, por favor. Quero ir ter com Máiréad e viver com ela no mar, que eu sempre amei mesmo nunca o tendo visto de perto.

A pequena fada suspirou tristemente.

– Lamento, minha querida, mas isso está para além dos nossos poderes. Mas podemos fazer outra coisa por ti. Se prometeres tocar para nós todas as noites, construímos para ti uma bela casa na falésia por cima das rochas onde Máiréad espera por ti. Vais poder vê-la e conversar com ela todos os dias e ver o mar todos os dias.

Uma centelha de esperança e de uma felicidade que nunca sentira, invadiram o peito de Órla. O coração batia mais forte que nunca e os seus olhos tornaram-se mais brilhantes que nunca. Seria possível que o Povo Bom lhe desse tanto apenas em troca da sua música? Podia não viver no mar, mas por cima do mar era quase tão bom.
E assim Órla foi viver para uma casa muito grande, com paredes adornadas por pequenas conchas, búzios e estrelas do mar. Todas as manhãs era cumprimentada pela amiga, que esperava a sua visita diária, sentada nas rochas abaixo da falésia, que Órla descia só para ficar mais perto dela. Máiréad recuperara a sua cauda como a de um peixe e um tom de verde nos seus olhos anteriormente enegrecidos. Na sua cabeça, estava pousado o chapéu vermelho que Órla lhe oferecera.
À noite, Órla tocava para as fadas, sempre com alegria, satisfação e gratidão por esta nova vida que lhe haviam proporcionado.

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O quadro que inspirou a história:

 

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Encontrei este quadro no Museu Nacional de Arte Antiga e soube logo que a história seria sobre a rapariga que aparece no quadro a transportar galhos.

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John Hoppner – 1775 – Peasant woman carrying firewood

Notas sobre o folklore celta da história

A definição de changeling está na própria história, pelo que vou – aqui – passá-la à frente, mas digo apenas que é algo que faz parte do folklore celta e em que muitas pessoas acreditavam.

A personagem Máiréad é uma merrow. Merrow é a palavra do folklore irlandês para sereia. Nos “Mitos e Lendas da Irlanda“, de Angélica Varandas (minha professora na Faculdade de Letras), as merrow usavam chapéus vermelhos que, quando roubados na eventualidade de serem levadas para terra, as faziam esquecer da sua vida no mar. As merrow em terra, tornavam-se submissas e nunca sorriam. Se recuperavam o chapéu vermelho, voltavam ao mar sem hesitação e recuperavam as memórias.

Quanto às fadas, o Povo Bom, elas tinham uma predilecção natural pela música e favoreciam os humanos que as deliciavam com a sua música.

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4 thoughts on “Órla

    • Catarina Alves de Sousa diz:

      Oh, obrigada Sara! Sabes, é algo que realmente gostava de explorar mais. Até já fiz um curso de escrita de livros infantis, talvez um destes dias o ponha em prática. Por enquanto, vou escrevendo estas histórias 🙂

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