Contraluz

Deixou-a a dormir e sentou-se novamente no sofá, encarando o mundo por uma nesga da janela. Era impressionante como a ausência de vida no interior de uma casa não tinha qualquer influência sobre o resto do universo, que continuava a funcionar perfeitamente, na sua dinâmica quotidiana, sem fim à vista.

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“Contraluz” @Ana Zilhão /_goodoldfashion

Espreitou pela porta entreaberta da casa de banho e viu-a de costas para si, com os outrora longos cabelos ruivos molhados e as costas cobertas de sardas curvadas, numa manifestação de desalento e impossibilidade.

Mergulhada na obscuridade do compartimento, procurava com os olhos a iluminação exterior, alguma fonte de luz que lhe permitisse ver novamente, nem que fosse apenas para encontrar a cova onde acabaria por se deitar.

Gostaria de entrar, juntar-se-lhe e passar-lhe uma mão pela pele suave, fresca e húmida, enquanto a ouvia solfejar uma qualquer canção que aprendera com a mãe. Pousar-lhe um beijo no ombro e cheirar-lhe o perfume, ao mesmo tempo que lhe afagava as pontas do cabelo.

Quanto tempo demorariam a voltar a ter um momento de intimidade assim, resultado de uma vontade incontrolável, e não provocado por uma necessidade incontornável?

Um dos dois tinha de manter os pés assentes em terra firme, dar passos seguros em frente, com a mão do outro presa na sua. Para onde um fosse, o outro ia também. Sempre fora assim, assim continuaria a ser.

Cabia-lhe a ele o papel da força, da resolução e da decisão. Cabia-lhe a ele manter os olhos enxutos e a mente liberta para encontrar o caminho que haviam de seguir. Talvez um dia lado a lado, novamente.

Afastou-se da porta em silêncio e deixou-se cair no sofá atingido pela luz de um sol acabado de nascer.

Maravilhava-a a ironia de sentir uma felicidade imensa e de ter de a manter em segredo, por enquanto. Enquanto Vasco subia o fecho do seu vestido, era incapaz de manter os pés quietos, espicaçados pela voz de Elle Fitzgerald, que saía das colunas de som junto à cama.

– Se não estás quieta demoro o dobro do tempo – resmungou, com um sorriso.

Isabel rodopiou nos seus braços, de forma a ficarem frente a frente.

Pousou uma mão no seu ombro direito e pegou-lhe na outra:

– Não tem mal. – Começaram a deslizar sobre o soalho de madeira.

– O vestido vai-te cair…

– Também não faz mal. Porque é verão e a vida é fácil. E um dia vamos poder dizer… – Riu alto. – Que o pai dele é rico…

Vasco riu também, pousando-lhe um beijo na testa:

– E que a mãe é muito muito bonita.

So hush, little baby, don’t you cry.


Conhecera-o por acaso. Cerca de oito anos antes, uma miúda acabada de sair do autocarro, debaixo de uma chuva incessante, chamara-o:

– Espera por mim!

Ele ignorara-a. Talvez por causa do barulho da tempestade, talvez porque não queria ter de a aturar.

– Espera!

Isabel correra atrás dele, o cabelo e as roupas ensopadas, porque a gabardina protegia os cadernos com os apontamentos das aulas. Enfiou um braço por baixo do dele e abrigou-se debaixo do seu guarda-chuva.

– Não me ouviste?

Vasco olhara-a, atónito, sem saber qual a resposta que deveria dar. Após algum escrutínio, respondeu-lhe:

– Não…

Ela encarou-o, de sobrolho franzido, estacando no passeio:

– Não és o meu irmão!

De olhos fixos no verde intenso dos dela, ficou a ouvi-la sem escutar uma única palavra. Sentia ainda o braço esquerdo dela preso na cova do seu cotovelo, abanando os corpos de ambos quando gesticulava, zangada.

– Ouviste alguma coisa do que acabei de dizer?

Vasco sorrira, pegara-lhe nos cadernos e dissera:

– Vamos tomar um café. E já me contas tudo outra vez.


Deu com ela na varanda, o vestido a esvoaçar ao sabor da brisa da noite, com um copo de água com uma rodela de limão pousado ao seu lado. Admirou-lhe o corpo inclinado para a frente, os cabelos tombados sobre o muro cinzento e a elegância das pernas em cima de umas sandálias de salto alto.

Era linda, de qualquer perspetiva. E sabia que a maioria dos homens naquela casa partilhava da sua opinião. Muitos perguntar-se-iam o que via nele. Mas Vasco sabia que Isabel encontrara em si o parceiro ideal para a procriação: alto, mas não demasiado, e de feições caucasianas comuns, sem particulares traços de distinção, o que compunha o quadro físico certo; o facto de vir de uma família com posses, de ter uma inteligência acima da média e de juntar em si as características da paciência, persistência e dedicação punha-o numa posição privilegiada na sua lista de critérios.

Apesar de ser essa a principal razão que o fizera cair nos braços dela, amavam-se, sem dúvida. A família que resultaria desse amor era só mais uma das consequências daquele encontro casual numa tarde de março.

Aproximou-se dela, sedento de alguma frescura naquela intensa noite de verão. Foi quando lhe rodeou a cintura com o braço que percebeu que algo não estava bem: Isabel contorcia-se, mantendo os olhos em alvo e a boca mordida para não gritar.

– O que se passa? – perguntou, aflito, virando-a para si.

Foi então que viu a mancha vermelha que se alastrava pelo azul do vestido. O coração caiu-lhe no chão da varanda. E estilhaçou-se quando descobriu, nos olhos dela, um misto de raiva e de desilusão.


Os pássaros despertavam nas copas das árvores, lançando o seu canto animado e despreocupado pelas ruas até às casas onde as pessoas ainda dormiam, alheios ao despertar indesejado que provocavam. A sua boa disposição, no entanto, contrastava com o silêncio arrepiante que marcou a viagem do hospital até casa que, subitamente, não parecia mais um lugar seguro e de refúgio.

Vasco abriu a torneira e preparou um banho perfumado, na única tentativa de que se lembrou de fazer algo pela mulher, que não reagia.

A apatia tomara conta dela no momento em que entrara na ambulância e não parecia haver forma de a despistar.

Sabia, desde há muito tempo, que a missão da vida dela era ser mãe. E, no momento em que a conhecera, soubera que uma das missões da sua era ser pai dos filhos dela. Três, quatro ou cinco. Nunca tinham chegado a decidir quantos chegavam. Talvez até seis, se ainda tivessem energia e paciência para choros e mudas de fralda. Não conseguia esperar pela altura de pegar na família toda e ir pelo mundo fora, numa autocaravana no verão e para bungalows ou chalés no inverno. Jogariam futebol e basket e aprenderiam a skiar e a patinar. E a nadar, claro. Fariam, aos fins-de-semana, longos passeios de bicicleta que culminariam na melhor recompensa para o exercício: um churrasco no terraço, com direito a mergulhos na piscina.

Da casa de banho chegou um som que o arrancou do torpor em que se deixara cair. A respiração de Isabel tornara-se mais pesada, transformando-se numa sucessão de soluços e, daí, num arfar primitivo, em busca desesperada de ar para respirar.

Correu ao seu alcance, descobrindo-a com as mãos fincadas nas bordas da banheira e a respiração atrapalhada.

Com as calças e a camisa vestidas, entrou para junto dela, abraçando-a por trás com o máximo de força que conseguiu, sem, no entanto, a magoar:

– Calma, respira com calma. Sem pressa…

Inspirou-lhe o cabelo molhado, pousando nele os olhos fechados.

– Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem.

Sentiu-a a abanar a cabeça:

– Não quero mais. Não consigo passar por isto mais uma vez. Podíamos ter agora três filhos, em vez disso, estão todos mortos, como se o mundo me mostrasse que eu sou uma péssima mãe. Não! Que nem sequer tenho o direito de ser mãe!

Vasco engoliu em seco, temendo pelos dois.

Aquele era um objetivo da sua vida, sim, mas não era o único. O mesmo não podia dizer de Isabel.

– O que é que eu vou fazer agora?

Vasco apertou-a mais contra si, incapaz de encontrar as palavras certas para proferir. Por ela… e por ele.

Sentia-lhe a pele eriçada, as gotas de água que lhe escorriam pelo peito. No entanto, queria sentir mais, queria senti-la toda, com os braços à sua volta, as mãos na sua face e os olhos pousados nos seus, numa demonstração de qualquer espécie de sinceridade. Um pouco de verdade, fosse ela qual fosse.

O que era feito de si, se não era mais um meio para atingir um fim? Se não era mais o par ideal para a procriação? Se não era mais o pai dos filhos dela, o que lhe restava?

Enrolou-a numa toalha de turco lavada, penteou-lhe os cabelos com a escova e aconchegou-a na cama, ainda sem roupa. Trocou a sua por uma seca e preparou um chá e duas torradas, para quem as quisesse.

Deixou-a a dormir e sentou-se novamente no sofá, encarando o mundo por uma nesga da janela. Era impressionante como a ausência de vida no interior de uma casa não tinha qualquer influência sobre o resto do universo, que continuava a funcionar perfeitamente, na sua dinâmica quotidiana, sem fim à vista. Mais do que impressionante, era insuportável que Vasco se encontrasse numa encruzilhada, sem saber como seria o seu amanhã, o que e quem o esperava, enquanto todas as outras pessoas pareciam saber exatamente qual o próximo passo a dar.

– Vais voltar a olhar para mim? – ouviu, num fio de voz, atrás de si.

Isabel estava encostada à ombreira da porta da sala, sem roupa, com o cabelo ruivo já seco a brilhar sobre a luminosidade que entrava em casa.

– A olhar para ti? – Levantou-se do sofá e dirigiu-se para ela. – De que estás a falar?

Cobriu-lhe o corpo desnudo com o seu, forçando um abraço protetor, pele com tecido. Arrastou-a de volta ao quarto, com duas mãos firmes, enquanto os braços dela baloiçavam inertes em direção ao chão.


Era verão, novamente. O inverno chegara e partira, lavando um pouco do mundo, renovando-o na medida do possível, que só se torna eficaz quando em colaboração efetiva com quem o habita.

Ajustou o nó da gravata, passou uma mão pelo cabelo negro solto e regressou ao salão, onde a música juntava na pista de dança tecidos colorido e sapatos variados, comemorando uma união acabada de ser celebrada.

Encostada a uma mesa, com um copo de sumo na mão, Isabel abanava muito ligeiramente o seu vestido comprido cor de salmão. Os cabelos tinham voltado a crescer o suficiente para lhe caírem com uma graciosidade serena sobre as costas expostas pela ausência de alças do vestido.

Naquela obscuridade, observando-a sem ser visto, recordou-se da rapariga destroçada que espreitara no banho um ano antes. Sentiu novamente uma vontade incontrolável de a abraçar, de voltar a sentir a pele dela nos seus dedos, de fixar os seus olhos no verde dos dela e de lhe pentear os cabelos molhados.

Aproximou-se, a medo, o coração acelerado dentro do peito, como se fosse a primeira vez que a via.

Era quase.

– Isabel… – chamou, junto ao seu ouvido.

Ela voltou-se com uma lentidão torturante.

– Vasco. – Não foi uma pergunta, nem uma exclamação. Proferiu, apenas, o nome dele, como se o apreendesse para voltar a incluí-lo no seu vocabulário.

Estudou-a, preocupado. Não encontrava o brilho nos olhos que o encantara. O ligeiro sorriso não formou as covinhas que adorava beijar. Os lábios apertaram-se, de forma a manter a barreira entre os dois.

Quis pegar-lhe ao colo, levá-la para longe dali e voltar a pô-la bem, voltar a transformá-la na Isabel que conhecera.

– Como estás?

Desabou em soluços e lágrimas que escondeu com duas mãos magras, de unhas fracas e roídas pelos nervos.

Arrastou-a para um lugar mais resguardado, onde a sentou sobre a almofada branca do sofá de verga.

– O que se passa? – insistiu, sem saber como agir diante dela.

Aquela que fora, em tempos, a mulher com que partilhara a vida, era agora uma estranha frágil e indefesa diante si. Ajoelhado na tijoleira, pegou numa das mãos dela, que manteve firmemente dentro das suas:

– O que se passa? – repetiu.

Isabel limpou o excesso de lágrimas que não lhe permitia abrir os olhos e deambulou-os pelo espaço à sua volta, antes de os fixar em Vasco:

– Já alguma vez deste por ti num sítio sem saber como lá tinhas chegado?

Vasco anuiu.

– Como nos sonhos, não sabes como lá chegaste, simplesmente chegaste e tens de partir daí.

Voltou a anuir.

– E já alguma vez te deste conta de que tu é que foste para esse sítio, mas que, afinal, é o sítio errado? E que tudo aquilo que achavas que querias para a tua vida é uma mentira?

Vasco respirou fundo e pediu-lhe:

– Explicas-me?

Isabel escondeu com a mão os lábios que se contorciam num esgar de dor, antes de prosseguir:

– Tu eras o pai dos meus filhos… Mas depois não eras, porque não os tive. Não os tivemos… Então deixei de saber quem eu era e o que era esperado de mim se não te podia dar o que mais queríamos, aquilo que nos faria felizes. Tentei descobri-lo recomeçando do zero. – Olhou-o longamente, sem conseguir conter as lágrimas. – Mas agora estou mais perdida ainda.

Vasco sentou-se no sofá ao seu lado. Deitou-lhe a cabeça no seu ombro e abraçou-lhe a cintura com receio. As palavras dela ecoavam-lhe dentro da cabeça, repetindo-se uma e outra vez.

Inclinou-se ligeiramente e perguntou, num sussurro:

– Não eras feliz?

Após uma longa pausa, ela respondeu:

– Era. Muito.

– Eu também – confessou ele, por fim. – Estar contigo, viver contigo fazia-me feliz. Eras a maior parte da minha felicidade.

– Mas não consegui dar-te aquilo que mais querias – desabafou ela.

Vasco franziu a testa, que continuava encostada à dela:

– O que é que eu mais queria?

Isabel encolheu os ombros, sublinhando a obviedade da resposta:

– Filhos. Sempre quiseste uma família grande e eu falhei…

Um espasmo percorreu o corpo dele, aplicando-lhe vários choques elétricos que repetiam o último ano sucessivamente. Com um dedo ergueu-lhe o queixo para que se fitassem:

– Eu queria filhos, sim. Mas não era o que eu mais queria na vida. Só quis uma família grande porque era o que tu querias. Não falhaste…

– Mas eu pensei que… – Na boca dela formou-se um oh silencioso, causado por um horror partilhado pelos dois. – Vasco… – murmurou, abraçando-o a medo mas com firmeza, para o impedir de, desta vez, ser ele a partir.

Vasco rodeou-lhe o tronco com os braços, apertou-a contra si com tanta força que temeu parti-la. A bochecha dela tocava na sua e podia sentir o calor das suas mãos através da camisa. Respirou fundo, inalando o perfume dos cabelos dela. Não era o mesmo, mas continuava maravilhoso.

Ela beijou-lhe o pescoço.

Ele cantou-lhe ao ouvido:

Hush, little baby, baby don’t you cry.

One of these mornings you’re gonna rise up singing…


O quadro que inspirou este texto é uma fotografia homónima de Ana Zilhão, autora do blog The good old fashion e a fotógrafa por detrás do instagram @_goodoldfashion.

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