Fevereiro 2017

La Belle Ferronière

Ela levantou-se para observar o resultado final, sabendo que não seria menos que extraordinário. Não se tinha enganado. Enquanto observava a pintura, o seu coração palpitava, num impulso segurou-lhe a mão para agradecer, beijou-a e encostou-a ao peito, num gesto que sabia provocador.

O dia nasceu chuvoso. O Inverno já ia longo mas a Primavera ainda tardava. Fevereiro era assim mesmo, frio, húmido, sombrio. As lareiras, após três meses de chuva quase ininterrupta, já não conseguiam secar a humidade das paredes. Em dias de nevoeiro, nem valia a pena abrir as janelas para renovar o ar e limpar o cheiro a fumo que se entranhava no cabelo, na roupa e até na pele. As vidraças cheias de condensação, ofereciam pouca luz, obrigando a que se mantivessem os candeeiros acesos, mesmo durante o dia.

Há uns dias que não saía à hora marcada. O tempo não o permitira, não pela chuva ou frio, mas pelo nevoeiro que tinha envolvido a cidade nos últimos dias. A luz era soberana nesta decisão. E estava farta, os dias sucediam-se iguais, e no entanto já não lhe pareciam assim tão iguais. Desde que o amante encomendara o seu retrato, já nada parecia ter o mesmo sabor. Nem as iguarias que lhe levava, nem os perfumes, nem mesmo os momentos que partilhavam entre lençóis. Percebeu pela luz que atravessava a janela que finalmente sairia de casa. O nevoeiro tinha desaparecido, amanhecera  de chuva, mas luminoso. Espreguiçou-se voluptuosamente de baixo dos lençóis e ficou à espera que a criada iniciasse os preparativos para se levantar.

Estava ainda a tomar o pequeno almoço quando o coche chegou. Largou o que estava a fazer, pediu a capa e saiu ligeira. Como sempre, Ludovico encontrava-se no interior da carruagem fechada e recebeu-a afoito. Mal começaram a andar levantou-lhe as saias, e acariciou a sua pele branca com as mãos ávidas. Ela fingiu um entusiasmo que já não sentia, sabendo que acabaria depressa.

Chegaram ao destino pouco tempo depois. Recompôs-se, baixou o véu sobre a cara e desceu sozinha.  Bateu à porta do mestre, e foi conduzida para a sala onde a magia acontecia. Quando entrou na sala amplamente iluminada foi recebida por Salai o pupilo. Era uma criatura atrevida e irrequieta que a incomodava. Sim, era belo, não havia dúvidas disso, mas uma beleza andrógina, nada que se comparasse com a força e o magnetismo do mestre Leonardo.

Foi conduzida ao local do costume, onde Salai a preparou para mais uma sessão. Manter aquela posição não era fácil, mas mais difícil que manter a posição, era conseguir disfarçar o que sentia. Sabia-se bela, sabia que virava a cabeça dos homens, no entanto não entendia a indiferença do mestre. Já o tentara com alguns dos seus truques que julgava infalíveis, e a reacção tinha sido nula. Arriscava-se a perder tudo o que tinha conquistado, e no entanto, estava decidida a não desistir.

Urgia encontrar uma forma de o seduzir, pois sabia que o seu tempo com ele, neste espaço fora do mundo, estava a acabar. O Mestre entrou, Salai afastou-se e saiu. Leonardo, aproximou-se dela, e ao tocar-lhe na face, toda ela estremeceu. Rodou ligeiramente a cabeça e levantou-lhe o queixo. Olhou-a directamente nos olhos sem uma palavra. Ela suportou aquele olhar que não compreendia, e tentou acalmar os tremores que entretanto a tinham atingido como ondas que batem a areia num dia de tempestade. A mulher experiente que era, perto dele sentia-se uma miúda. Ele afastou-se quando a sentiu na posição correcta. Ela olhava-o e admirando-lhe o perfil. Aquela barba que o fazia parecer mais velho, atraia-a ainda mais. Como seria sem barba? O olhar profundo e misterioso afogavam-na em pensamentos libidinosos. Na sua cabeça projectava imagens dos dois nus, entre as paletes de tinta, os cavaletes, e toda aquela tralha, numa sala que era tudo menos arrumada. Imaginava-se sob os olhares das pinturas inertes, que por ali tombavam sem qualquer tipo de ordem, derretendo de prazer, nos braços sujos de tinta de Leonardo. enrubescia só de pensar no seu corpo devorado pelo olhar que mais desejava que percorresse o seu corpo jovem e firme, banhado pela luz que ele venerava acima de tudo, e que lhe realçava as cores e a perfeição das suas formas. Seria sublime.

O regresso do pupilo, interrompeu-lhe os pensamentos. Aproximou-se do mestre para lhe segredar algo ao ouvido, ao  que ele acenou sem dizer nada, depois disso saiu e deixou-os completamente a sós. A pintura estava quase terminada, e isso entristecia-a, pois sabia que depois disso, já não havia motivo para lá voltar. Quando Leonardo recomeçou, ela recompôs-se e tentou manter a posição. Algum tempo depois, ele baixou os braços, largou o pincel e disse-lhe que tinham terminado.

Ela levantou-se para observar o resultado final, sabendo que não seria menos que extraordinário. Não se tinha enganado. Enquanto observava a pintura, o seu coração palpitava, num impulso segurou-lhe a mão para agradecer, beijou-a e encostou-a ao peito, num gesto que sabia provocador.

Olhou-o nos olhos e o que viu, não foi mais que surpresa e desconforto. Isso deixou-a de tal forma sem jeito que lhe largou a mão, agradeceu, virou costas foi até à janela. Não percebia este homem. Ela que se achava conhecedora da mente masculina, não o conseguia perceber de todo. Nunca ninguém a tinha rejeitado. Sabia-se bela, e sabia usar os seus dotes para conquistar o que queria.

Tinha sido assim com Ludovico quando o vira pela primeira vez. Nessa altura o poder que ele emanava atraíra-a de uma forma irresistível. O facto de ser casado não a tinha perturbado, as esposas, só existiam para manter a capa de respeitabilidade necessária. E ela nunca quis essa vida monótona para si. Cedo percebeu que enquanto fosse jovem e bonita, teria tudo o que quisesse. Era tão fácil. Hoje, pela primeira vez, percebera que algo que queria, poderia estar fora do seu alcance. Duvidou de si por um momento. Estaria a perder a frescura? Leonardo não era casado nem tinha amantes conhecidas, por isso não entendia. Encontrava-se nestas cogitações quando viu chegar o coche através da vidraça. O sol estava a desaparecer no horizonte em breve seria noite. Salai entrou na sala e informou-a do que já sabia. Estava na hora de ir. Desceu, não sem antes procurar Leonardo com o olhar. Já não se encontrava na sala.

Quando estava segurar a porta prestes a sair, apercebeu-se que tinha deixado a sua capa no atelier. Virou-se para pedir a Salai que lha fosse buscar, mas ele já tinha subido ao andar superior. Não tinha tido a delicadeza de esperar que saísse. Hesitou. Decidiu voltar atrás. Subiu de novo as escadas pé ante pé. Atravessou o longo corredor até à sala onde Leonardo tinha o seu atelier e apurou o ouvido. Abriu a porta devagar e entrou. Não deu mais que dois passos, pois o que viu deixou-a completamente sem reacção. No divã, perto da grande janela onde tantas tardes tinha passado sentada, estática, viu o Mestre e o seu pupilo, já quase nus. Tocavam-se. Estavam tão embrenhados em si próprios que não a viram ali, especada de olhos arregalados. Sem dizer uma palavra virou costas e desceu as escadas em passo ligeiro. Não sabia se devia rir, ou chorar, pelo menos percebera o porquê de tanta indiferença…

Pintura que inspirou o texto:

la_belle_ferronniereleonardo_da_vinci_-_louvre

“La Belle Ferronière”,  atribuída por alguns a Leonardo da Vinci.

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