Abril 2016

Terra perdida

– Tudo isto – a vida, o mundo, as pessoas que nascem e que morrem – é circular. Está tudo interligado e há uma razão para qualquer acontecimento, por mais insignificante que pareça. E todos temos um propósito para cada momento. Podes procura-lo e concretiza-lo conscientemente, ou podes tentar fugir-lhe. Mas ele vai sempre alcançar-te. Estares aqui não é um privilégio puro. Para tu seres tu, teve de haver um equilíbrio e alguém teve de deixar espaço livre para ti.

Um grito dilacerante cortou a noite.

A princípio parecia apenas uma ilusão, o barulho de um bicho na copa de uma árvore, uma porta a mexer num andar mais distante. Ainda assim, foi o suficiente para o cérebro se manter alerta, tentando adivinhar a origem daquela perturbação que afastara o sono e, consigo, trouxera preocupação e receio.

Pousou os dois pés no tapete acolchoado ao lado da cama e arrastou o corpo entorpecido para fora do calor dos cobertores. Abriu a persiana para a negridão exterior, tentando avistar qualquer movimento merecedor de atenção, contudo, toda a cidade aparentava estar adormecida, como deveria, àquela hora tardia.

Fechou a persiana e quando retirava um copo do armário para beber um pouco de água, voltou a ouvi-lo. Mais firme, mais nítido, mesmo por baixo da varanda da sala. Parecia veicular um olá quase cantado, como se chamasse um alguém indefinido, qualquer pessoa que pudesse responder. Debruçou-se, então, no parapeito onde cresciam diversas ervas aromáticas e descobriu, entre dois arbustos, uma luz quente, ligeiramente intermitente, semelhante à de um pirilampo.

Agarrou num blusão e desceu as escadas a correr no encalço daquilo que o fazia crer ser uma criança perdida. Potencialmente em perigo.

A luz continuava a piscar protegida pelas folhas da vegetação rasteira, pelo que se aproximou silenciosamente, de modo a não a afugentar. À medida que avançava, começou a ouvir uma melodia cantarolada muito suavemente, do mesmo modo que uma mãe canta junto ao berço de um filho.

– Não te assustes – pediu, num tom de voz tranquilizador, ao mesmo tempo que afastava as folhas às escuras.

Nesse momento, a canção calou-se e a luz apagou-se.

– Não te vou fazer mal – assegurou. – Só quero ajudar-te a encontrar a tua casa.

A luz piscou duas ou três vezes antes de voltar a apagar-se.

– Sabes onde estão os teus pais? – Vasculhava o jardim adormecido, sem conseguir, no entanto, encontrar a criança. – Vou ajudar-te a ir ter com eles.

Uma luz intensa voltou a acender-se e atravessou os arbustos, parando à sua frente, deixando-o atónito: não era uma criança, nem sequer um ser humano. Oh, oh, devia estar sonâmbulo!

Chegou-se para trás, assustado e curioso com a imagem que se apresentava diante dos seus olhos: uma jovem de muito pequenas dimensões, com os longos cabelos louros entrançados e atados com uma fita de cetim verde, piscava-lhe uns enormes olhos azuis. Envolta numa bola de luz, flutuava acima do nível do solo, auxiliada por aquilo que lhe pareceu ser um par de asas.

– Uma fada… – comentou, com escárnio. – Estou a sonhar com fadas…

O ser pequenino soprou-lhe diretamente para a cara:

– Não estás a sonhar. Sentes o vento? Lembras-te de como vieste aqui parar?

– Alucinação?

– Não.

– Febre?

– Não.

– Be…

– Não! O que é que tu queres?

– Hun? – Acocorado junto ao tronco de uma árvore, assegurou-se de que não havia mais ninguém a assistir àquela cena.

– Nesta vida. O que é que tu pretendes?

– Sei lá… Ser feliz, acho. Não é o que toda a gente quer?

Tornou a soprar-lhe:

– És toda a gente? Queres o que toda a gente quer ou o que tu queres?

– Mas quem és tu afinal? Pensei que eras uma criança perdida…

– É esse o teu problema: achas que apenas as crianças merecem qualquer atenção e é só porque são seres indefesos. Usei essa fraqueza contra ti, senão nunca me ouvirias. Sou a Lavínia e, como já percebeste, sou uma fada. Segue-me. – Dito isto, ergueu-se um pouco acima da sua cabeça.

– Aonde?

– Não te cansas de questionar tudo?

– Só assim posso obter respostas – retorquiu, incomodado.

– Não precisas de respostas. Precisas de viver. É isso que te falta, deixares os pensamentos e as equações de lado por um momento e sentir. Saborear. Escutar. Viver! Tu não vives, existes. Quando foi a última vez que passeaste pela cidade sem destino, só para ver?

– Ouve, eu estou aqui de passagem. Mais tarde ou mais cedo vou-me embora daqui, não preciso de me conhecer isto bem, muito menos de me apegar. Faço a minha vida, não incomodo ninguém e um dia posso voltar para casa.

Voou à volta dele, soltando um pouco de um pó brilhante que se apressou a sacudir.

– Enganas-te. Cometes um erro crasso. Passas os teus dias com a mente no amanhã, mas esqueceste que é hoje que constróis o teu futuro. De que te serve voltares para casa se só levas daqui memórias negras? Estás a viver anos vazios e nem sequer te importas com isso.

– E porque te importas tu?

– Segue-me – voltou a ordenar, depois de o atingir com mais umas doses de purpurina.

– Não… – recusou.

– Não tens hipótese – riu Lavínia, quando o homem começou a erguer-se involuntariamente do chão. – Segue-me.

Atrás de si, ouviu-o esbracejar, ao mesmo tempo que ironizava:

– Pó mágico? Era só isto que me faltava!

Sobrevoaram, ao longo do rio, a cidade salpicada de pontos de luz, móveis ou estáticas, reveladoras da vida adormecida naquela noite de primavera. O aroma fresco das flores desabrochantes confundia-se com o das águas tranquilas, intensificando-se à medida que subiam cidade acima, pelo meio das ruas de paralelos, vazias de gente e de burburinhos animados.

Lavínia pousou num muro sobre a cidade, no cume do bairro da Graça, e o homem imitou-a, aliviado por voltar a pisar solo firme.

– Conheces isto?

A fada fez um gesto abrangente com o braço, apresentando-lhe uma vista panorâmica sobre a cidade, com principal incidência no Martim Moniz. À esquerda, mergulhado num foco de luz teatral, erguia-se o castelo, imponente e, ao mesmo tempo, convidativo.

Encolheu os ombros:

– Não…

– E, no entanto, há quanto tempo moras em Lisboa?

– Uns cinco anos.

– Cinco anos. – Lavínia esticou cinco dedos diante da cara dele. – Até hoje não houve nada nesta cidade que te fascinasse. Pessoas, locais, eventos. É tudo horrível, são todos teus inimigos. Não é?

Pensou um pouco, apercebendo-se de que estava prestes a cair numa armadilha.

– Não é bem isso. Só não foi escolha minha vir para cá. Fui destacado e tive de vir.

Lavínia girou três vezes sobre si mesma, salpicando-o uma vez mais de um pó brilhante:

– Tens sempre uma escolha, mesmo quando achas que não. – Riu-se como uma menina traquina. – Podes escolher revoltar-te com a tua situação, ou tirar de uma situação revoltante o melhor partido.

Sentou-se no parapeito para a cidade, exasperado: aos trinta e quatro anos tinha sido arrancado da cama por uma personagem de desenhos animados que queria dar-lhe uma lição de vida.

– Nem tudo são arco-íris. Às vezes a vida é só uma seca e eu tenho o direito de viver a minha da forma que bem entender.

A fada sobrevoou-o, acabando por pousar no seu ombro direito:

– Tudo isto – a vida, o mundo, as pessoas que nascem e que morrem – é circular. Está tudo interligado e há uma razão para qualquer acontecimento, por mais insignificante que pareça. E todos temos um propósito para cada momento. Podes procura-lo e concretiza-lo conscientemente, ou podes tentar fugir-lhe. Mas ele vai sempre alcançar-te. Estares aqui não é um privilégio puro. Para tu seres tu, teve de haver um equilíbrio e alguém teve de deixar espaço livre para ti.

– Portanto vim substituir alguém?

Lavínia saltou no ombro dele, enviando pequenos raios de luz à sua volta:

– Não! Não substituir! Dar continuidade! Como é que nunca deste conta disso? Tu não és apenas tu, um invólucro de pele e carne que encerra um cérebro e um coração. És o prolongamento de algo mais que, quando desvalorizas, estás a pôr fim às existências prévias à tua.

Pegou nela com cuidado e pousou-a ao seu lado, para que pudesse levantar-se e apreciar a vista que se estendia diante dos seus olhos.

– Que é que queres que faça, então? Que me apaixone perdidamente pela cidade, que passe a cantar e a dançar cada momento insignificante da minha vida? Ok, é bonita. Ok, tenho alguma sorte nas coisas que vieram parar à minha vida. Mas e então?

Lavínia voltou a rir-se de forma aguda, escondendo os finos lábios vermelhos por detrás das palmas das mãos:

– Então… quero que voltes para casa por ti mesmo. – Pairou diante dele, rodopiando sobre si. – Há muitos caminhos que vão lá dar. Escolhe aquele que preferires. Mas lembra-te, nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido.

Desapareceu, deixando para trás um brilhante rasto de luz que envolveu o homem entregue à árdua tarefa de descobrir a melhor forma de regressar a casa. Apoiou os cotovelos no muro de pedra para além do qual uma Lisboa adormecida se lhe revelava no seu esplendor, apresentando-se una com o seu contemplador.

Sentia-se na obrigação de dar um sentido àquela aparição fantasiosa, mas não sabia onde o encontrar.

Teria uma inteira caminhada de volta a casa para o descobrir.

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