Abril 2017

À noite todos os gatos são pardos

Tinha jantado sozinha mais uma vez. Sentada no sofá, olhava para o livro sem o ver. As letras eram pequenos montes de tinta negra na página branca. Tentara tirar um sentido do parágrafo que estava a ler mas nada surgia no seu cérebro vazio. Algo tinha de mudar. Cada vez eram mais frequentes aqueles momentos de alienação quase completa. Momentos que acabavam num estado de puro pânico. Pânico de morrer sozinha. Depois de voltar a si, convencia-se que estava a ser dramática, mas a verdade é que algo tinha de mudar.

Estava só há demasiado tempo. Este romantismo de cordel que toda a vida alimentara, esta ideia da alma gémea, do amor para sempre só lhe atrasava a vida. Estava farta. Farta das noites só, da cama vazia, do corpo insatisfeito. Fazia 35 anos no próximo mês e sentia-se velha.

Tinha jantado sozinha mais uma vez. Sentada no sofá, olhava para o livro sem o ver. As letras eram pequenos montes de tinta negra na página branca. Tentara tirar um sentido do parágrafo que estava a ler mas nada surgia no seu cérebro vazio. Algo tinha de mudar. Cada vez eram mais frequentes aqueles momentos de alienação quase completa. Momentos que acabavam num estado de puro pânico. Pânico de morrer sozinha. Depois de voltar a si, convencia-se que estava a ser dramática, mas a verdade é que algo tinha de mudar.

“A vida começa agora!” tinha lido a frase numa qualquer partilha do facebook e não conseguia deixar de pensar nela. Não iria dormir já. Era sexta, tinha de quebrar o ciclo, sairia. Ignorou a voz da razão antes que a fizesse mudar de ideias.  Levantou-se, tirou o pijama e tomou um duche rápido. Ficou parada a olhar para o roupeiro a tentar encontrar a combinação certa. Não se vestia para sair à noite há tanto tempo que escolher algo adequado foi um verdadeiro desafio. Habitualmente vestia calças de ganga, mas decidira que ousaria mais. Hoje seria tudo mais. A noite estava quente. Optou por um vestido leve, uns sapatos de salto e um blusão de ganga. Sexy, mas não demasiado.

Caprichou na maquilhagem. Aos anos que não o fazia. Preferia um look clean, mas não hoje. Quando deu por si, apercebeu-se que se estava a divertir. Gostava do que via, há muito que não se sentia tão bem. Tão confiante. Agarrou na mala e saiu antes que se arrependesse.

Sexta feira outra vez. Chegara tarde a casa. Não se importava, o trabalho absorvia-o mas gostava disso, realizava-o saber-se necessário. Ninguém o esperava a não ser o gato, e mesmo esse, só queria comida e umas festas ocasionais. Tomou um duche, e ainda enrolado na toalha, cheio de fome, foi para a cozinha preparar uns ovos, que comeu com queijo e uma cerveja. Sentia-se mais recuperado, pronto para aproveitar o que restava do serão. Vestiu-se e saiu. O seu destino era o bar do costume, gostava desse lugar desde sempre. Tinha boa cerveja, boa música e raramente se arrependia desta opção.  Depois de umas voltas para estacionar, lá conseguiu. Passava da meia noite, quando entrou no bar. As mesas já se encontravam todas ocupadas, mas ele preferia o balcão. Dava-lhe uma visão privilegiada sobre o espaço, e sobre quem chegava. Pediu uma guinness e foi observando a afluência dessa noite.

Tinha decidido ir de táxi. Não queria preocupar-se com o álcool ingerido. E se era para fazer algo diferente, precisava de algum álcool. Quando o taxista lhe perguntou onde parar, hesitara. A verdade é que já não sabia quais os sítios da moda. Só lhe ocorrera um bar, onde não ia há anos. Mas sempre tivera boa música, e preparavam um irish coffee do melhor. Com sorte ainda não se tinham esquecido da fórmula. Quando entrou percebeu que já era tarde. Estava cheio e não conseguiria arranjar mesa. Mas mesa para quê? Estava sozinha. Nunca lá tinha entrado sozinha e por isso ao entrar, sentiu-se desprotegida. Quase, como se todos os olhares estivessem focados nela. Que parvoíce, sentia-se observada mas era com certeza impressão sua. Um reflexo do que sentia. Resistiu à vontade de virar costas e fugir. Entrou e dirigiu-se ao balcão. A musica continuava boa. Tirou o casaco, sentou-se,  e pediu um Irish C0ffee.

Ninguém sobressaía. As mulheres, eram cada vez mais a cópia umas das outras. Os mesmos cabelos, as mesmas gargalhadas demasiado altas. Algumas demasiado novas a querer parecer mais velhas. Sem nada para dizer. Para isso teria de beber um pouco mais. Mas ainda não. Era cedo. Focou-se na televisão que passava um jogo de Rugby. Gostava de Rugby muito mais que futebol. Parecia mais violento, no entanto era extremamente civilizado. Em poucos desportos do género se via um tão alto grau de desportivismo e educação. Pena a nossa selecção não ir mais longe. A porta abriu-se mais uma vez, desta, entrou uma mulher sozinha. Não costumavam chegar sozinhas. Ficou à espera de lhe ver companhia, mas não, estava mesmo só. Parou, tinha duvidas. Olhou em frente e continuou em direcção ao balcão com um olhar decidido. Debaixo de um casaco de ganga saía uma saia florida e uma pernas bonitas. Gostava de saias, e de pernas, já agora. Deu por si a sorrir, pelo interesse. Ao seu lado, já sentada ouviu-a pedir um irish coffee. Pediu mais uma guinness.

O Irish Coffee continuava bom! Bebericou com cuidado. Estava muito quente! Observou as pessoas à sua volta. Há que tempos não ia a um bar! Sentia-se estranha. Ali sozinha sem ter com quem falar. No passado, quase longínquo saíra sempre com amigos ou amigas, mas agora com todos  os seus amigos casados, o grupo esfumara-se. Como é que as pessoas sozinhas faziam? Metiam conversa com desconhecidos? Desde que a sua ultima relação tinha acabado deixara de tentar. Já lhe tinham falado no  tinder e outras apps do género, mas isso parecera-lhe demasiado forçado e impessoal, descartara a ideia de imediato. Fechou os olhos. Gostava desta musica. Lá está, era velhinha, e trazia-lhe recordações de tempos mais despreocupados. Bebericou mais um pouco, e desta vez sentiu mais o álcool. Teria de ter cuidado, já não estava habituada. Teve vontade de dançar, mas limitou-se a abanar uma perna pendurada no banco.

Cheirava bem. Naquele ambiente saturado de perfumes e cheiros vários, o dela contrastava pela frescura. Cheirava a lavadinho, a cama acabada de mudar. Os cheiros sempre tinham tido sobre ele um forte poder afrodisíaco. Olhou-a discretamente. Tirara o casaco deixando à mostra os ombros nus. Não tinha um rosto particularmente bonito, mas era agradável, suave e simpático. Tinha uma fragilidade que lhe despertara curiosidade. Parecia um pouco deslocada, e ao mesmo tempo não. Porque quando a vira fechar os olhos, pensara exactamente o oposto, que se sentia em casa. Aproveitava o momento para a observar melhor. Teve vontade de a beijar, assim, sem mais. Os gritos que se ouviram estragaram o momento. Ela abriu os olhos e ele olhou de imediato para televisão. Ensaio. Grande conversão! O jogo estava a ficar mais interessante, mas a natureza chamava. Pousou a caneca no balcão sem tirar os olhos do jogo, levantou-se  e chocou com a vizinha do lado.

Os gritos quase a fizeram entornar a bebida. Tinha-se esquecido que ali também se via Rugby.  Recordava agora que tinha conhecido este bar porque um namorado de há uns anos atrás, gostava desse desporto. Ela apesar de nunca se ter interessado pelo dito desporto, acompanhava-o aquele lugar por tudo o resto. Metade das pessoas ao balcão olhava para a televisão. Observou o casal do lado direito e percebeu que não havia química. Ela estava quase de costas para ele a mexer no telemóvel, Não se tocavam. Ele olhava para a televisão e para as outras miúdas em redor, varrendo-as de alto a baixo. Do lado esquerdo, um homem sozinho via o jogo. Observou-lhe as mãos. Uma no balcão e outra a segurar uma caneca. Tinha mãos bonitas. De seguida olhou para a boca. Também lhe agradou. A linha do maxilar era interessante mas aquela barba mal feita faria muitos estragos… Não conseguiu ver-lhe os olhos daquele ângulo.

Estava a ficar com calor. Decidiu refrescar-se. Levantou-se … e chocaram. Teria caído se ele não a tivesse segurado. Agradeceu e afastou-se embaraçada. Depois de se refrescar no WC quase chocou com ele de novo à saída em direcção ao lavatório, de onde ele vinha. “Não a estou a seguir. Disse com um sorriso.”

Ela sorriu de volta enquanto lavava as mãos. Ele deu-lhe os toalhetes, pois já tinha as mãos secas. Ela agradeceu e voltou para o bar. Já não havia lugares sentados. Encostaram-se ao balcão, ele pediu o que tinha estado a beber e ela uma água, pois sentira a cabeça tonta. Ele pagou a água dela, ela agradeceu, e ele apresentou-se. Não dava para conversar, pois o barulho era mais que muito. Mas conversar sobre o quê? Eram dois desconhecidos num bar. Encostou-se de costas para o balcão, fechou os olhos e abanou-se lentamente ao som de mais uma música que evocava outros tempos. The Pogues. Sentia-se levemente alcoolizada, ainda bem que não trouxera o carro. Pensava no homem a seu lado. Algo a atraia para ele, ainda não sabia o quê.

Ele olhava-a. Aquele desprendimento desconcertava-o. Vê-la ali de olhos fechados com um ar tão desprotegido deu-lhe vontade de a abraçar. Num impulso segurou-a pela cintura e beijou-a. Primeiro levemente, e depois, ao perceber que ela não o rejeitava, mais intensamente.

Ela, ao sentir-se agarrada e beijada, para seu espanto, retribuiu. Como se o seu corpo tivesse acordado sedento. A cabeça, tentava chamá-la à razão, mas não lhe deu ouvidos. Deixou-se ir. Não gostava de cerveja, mas ainda assim estava a gostar do beijo com sabor a malte levemente adocicado. Quando ele a largou teve que se segurar no balcão. Sentia as pernas bambas. Ele, com o ar mais descarado deste mundo, diz à laia de desculpa, “não resisti.”. Ela, sem saber o que dizer, responde, ”entendo.”

Ficaram assim uns segundos  a olharem-se. À sua volta o mundo parecia não existir. Ele, mais despachado, perguntou, “queres sair daqui?” Ela, contra todos os alertas que a sua racionalidade lhe passava, como se de um rodapé noticioso se tratasse, disse, “sim”.

Saíram. À porta, o choque do fresco da noite fez com que estremecesse. Vestiu o casaco enquanto pensava no que estava prestes a fazer. Afinal não tinha sido para isso que tinha saído de casa? Quebrar o jejum de quase 2 anos? Acabar com as noites vazias? Tinha sido mais fácil do que alguma vez pensara. Ele, olhou para os seus pés, viu os saltos vertiginosos, sorriu e disse-lhe que esperasse lá dentro que ia buscar o carro.

Enquanto esperava, o medo tomou conta dela. Mais que medo, pânico. Pediu um papel e uma caneta ao barman, e por baixo do seu contacto escreveu “desculpa.”, dobrou o papel em dois e pediu ao barman que o entregasse à pessoa que viesse à procura dela. Saiu, levantou o braço a um táxi que passava e entrou sem olhar para trás. Sentia-se uma fugitiva na calada da noite. Mas já ousara o suficiente por hoje.

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