Junho 2017

A (minha) super Mulher

A minha heroína secreta. Pensando bem, acho que a minha mãe sempre soube da minha admiração por ela. Mas o que tinha ela de especial para que eu a achasse uma super mulher?

Recebi o pior telefonema da minha vida no trabalho, a meio de uma manhã de Fevereiro. Não era um dia qualquer, era o dia de São Valentim, tinha planos para essa noite, parte dos quais envolviam doses maciças de romantismo. Lá fora chovia copiosamente, no entanto só depois de receber o telefonema é que olhei pela janela e registei esse pormenor no meu cérebro. Do outro lado da linha, estava o meu irmão mais velho ao telefone,  e  depois de uns segundos em silencio, disse que a avó tinha morrido nessa manhã. Recebi a noticia e fiquei estática uns minutos, incrédula a ver a chuva cair. Quando percebi que não voltaria a ver uma das pessoas que mais gostava neste mundo, levantei-me e saí da sala para chorar em silencio no WC. No trabalho não se chora.

Apesar da idade avançada, foi um choque. Tinha sido uma mulher tão dinâmica e tão forte que não podia acreditar. Claro que ultimamente os Invernos a deitavam abaixo, a bronquite asmática era o seu calcanhar de Aquiles, no entanto recuperara sempre, e mal vinha a Primavera rejuvenescia.

A minha heroína secreta. Pensando bem, acho que a minha mãe sempre soube da minha admiração por ela. Mas o que tinha ela de especial para que eu a achasse uma super mulher?

Para além dos laços que nos ligavam, pois ajudou a minha mãe a criar-me quando era bebé, demonstrara toda a vida, uma força e uma sensibilidade fora de série. Com menos de 30 anos ficou viúva, tinha 4 filhos e estava grávida do quinto. Numa aldeia pequenina, sem emprego, sem saber ler nem escrever sobreviveu a troco de trabalho pontual, para uns e para outros. Não sei como o conseguiu. Sozinha, sem familiares para a ajudar, 5 filhos, completamente dependente da sua capacidade de ir à luta. Valeu-lhe o espírito de comunidade, e o facto de todos naquela pequena aldeia, gostarem dela. Ainda hoje a recordam com carinho e admiração. Talvez porque apesar de todas as dificuldades, a vida nunca a amargou. Era uma eterna optimista, via sempre o lado positivo de tudo. O lado bom de toda a gente. Fecho os olhos e consigo vê-la, cabelo branco, roupa toda preta, com uns olhos azuis cor do céu, pequenina e franzina, irrequieta nos seus 45 kg de peso. O cabelo sempre entrançado, ficava enrolado no fundo da nuca, criando uma moldura de nevoeiro a brilhar ao sol em contra luz.

Quando eu nasci, já recebia uma reforma (minúscula), que a par do que plantava na sua horta lhe dava a subsistência necessária. O equilíbrio financeiro era mantido, por ser uma pessoa de uma frugalidade espantosa. Ainda assim, era generosa, tinha sempre um mimo para os netos, um rebuçado, uma bolacha, fruta maravilhosa da horta. Tenho para mim que nunca comi figos, ameixas, melancias ou morangos melhores que os da minha avó… sabiam a sol! Fecho os olhos e sinto-lhe o sabor e o cheiro. São as minhas frutas preferidas, provavelmente porque me devolvem o sabor da infância com a minha avó, e todo aquele amor que ela distribuía, juntamente com a fruta.

Mudei-me para Lisboa, quando fui para a Faculdade. Não foi fácil a separação, e sempre que regressava a casa nas férias depois de largar a tralha em casa dos meus pais, ela era a primeira pessoa a visitar. Recebia aquele abraço apertado, e aquecia a alma com o seu olhar doce que brilhava de comoção. Ninguém me incentivou a seguir os meus sonhos como ela, sonhos esses que eram muito maiores do que a pequena aldeia onde vivi até aos 18 anos. Toda sua vida vibrou mais que todos os outros, com os meus sucessos escolares e pessoais, e apregoava-os a quem a quisesse ouvir.

Acabei o curso, comecei a trabalhar e cada vez eram menos frequentes os regressos a casa… Os anos passaram entre a alegria da chegada e a ansiedade da partida, mas ela parecia-me sempre igual, de tal forma, que acreditei que viveria muito para lá dos 100. Tinha 91 anos quando recebi o telefonema que me mudou por dentro, que me trouxe a minha primeira grande perda.

Penso nela, mais nas alegrias do que nas tristezas, talvez porque imagino o quanto ela ficaria feliz por mim e comigo. Penso no tanto que me inspirou a ser melhor, e a ir mais longe. Dizem-me, por vezes, à laia de provocação, que sou a neta mais parecida com ela, e eu sorrio, pois não sabem que é o melhor elogio que me podem fazer…

A minha mãe contou-me algum tempo depois daquele dia fatídico, quando achou que eu já estava preparada, que ela decidiu deixar de viver. Assim, como quem decide deixar de respirar e deixar-se ir num suspiro. Diz ela que, quando a minha avó percebeu que não voltaria a sair da cama, devido ás dificuldades respiratórias que a última pneumonia lhe deixara, decidiu que viver assim não era para ela. Nunca tinha sido um peso para ninguém, e não queria acabar os seus dias dessa forma. Toda a vida tinha olhado por si. Na sua cabeça a vida só valia a pena ser vivida se fossemos donos dela. Morreu-lhe nos braços como um passarinho (palavras da minha mãe).

Passaram mais de dez anos e eu nunca mais entrei na casa onde morou. Não quero enfrentar o imenso vazio que por lá ficou. Lamento que não tenha conhecido o meu filho, e muito mais que o meu filho não a tenha conhecido a ela. Recordá-la ainda me enche de saudade, uma saudade que me encolhe o coração (o tempo pode adoçar a saudade, mas não a diminui).

Quando penso nos heróis ou heroínas da minha vida, que se superaram, e que me inspiram a ser melhor, pelo exemplo extraordinário que são (ou foram) todos os dias, penso em primeiro lugar, e com muito orgulho na minha avó, e no bocadinho dela que trago comigo todos os dias.

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