Junho 2017

Quando amar é heroísmo

Aquele abraço, aquele beijo, aquela energia, aquele partilhar descomplicado foram actos extraordinários dentro das vidas que levamos e a forma como nos damos. Então, e por tudo o que isso acarreta na vida de alguém, vamos chamar-lhe heroísmo.

he-ro-ís-mo
(herói + -ismo)
substantivo masculino
1. Qualidade do que é heróico ou de quem é herói.
2. Conjunto de qualidades e acções pelas quais se considera alguém um herói.

3. Impulso que leva a praticar um acto extraordinário.

Sentou-se na cama. A custo, sem vontade, já com dores de barriga e feitio aflito.

A casa estava silenciosa, toda a gente tinha coisas para fazer, sítios para ir, pessoas para ver. Ela também. E embora parte dela o desejasse fazer, crescia em si aquele buraco negro que a soterrava em dúvidas, senões, suor. Pensou no caminho que teria de trilhar até ao seu destino, longo e demorado. Pensou nas pessoas que iria encontrar, aquelas de quem sentia saudades e aquelas que nem sabiam que ela existia ou que lhe sorriam desdenhosas.

Encolheu-se, os dedos fecharam-se em punhos, não de raiva, não de fúria, mas de uma ansiedade que invade as frestas da mente e envenena os dias despojados de cheiro. Pensou de novo. Sentada na beira da cama, encolhida e embalando-se levemente, pensou uma e outra vez. O mal estar físico começou a pulsar, as mãos fechadas a suar e dentro da cabeça, um grito mudo e surdo teimava em ecoar. Lembrou-se da última vez que este bicho que mora dentro dela a engoliu, não tanto tempo antes deste dia, e do que a privou. Lembrou-se da solidão que sentiu e da culpa que lhe pesou no peito e da que ainda pesa. Dentro dela, uma batalha campal entrava no seu auge, com rosnares de animais treinados para fazer doer e o silvo cortante das lanças a rasgar o céu e a carne. O sangue fervia, as pernas tremiam e os olhos saltavam das mãos para o relógio, do chão para a roupa pendurada e pronta a vestir.

Levantou-se. Um pé atrás do outro e rumou para o chuveiro, onde a água se misturou com as lágrimas e nada estava decidido, havia nela um arrastar, como quem leva um peso morto às costas e nem sabe bem como ou porquê. Enrolada na toalha e pingando tudo quanto passasse, ela disse ao bicho que hoje não, hoje não ficava em casa deitada no escuro a pensar em todas as oportunidades perdidas. Já no comboio, a caminho, ainda pensou em voltar para trás mas focou a vontade de fazer diferente e seguiu, não obstante as dores de estômago nunca a tenham abandonado até chegar ao seu destino.

Foi depois de entrar, meia cambaleante, meia a medo, e um tanto com sentimentos de concretização. Foi logo ali quase a seguir a transpor a porta. Viu-a, aquela que lhe aquece o coração a lhe salva a alma de cada vez que lhe sorri, a que a faz sentir especial ao dizer-lho sem pudor e ao dizê-lo a quem o queira ouvir. Aquele ser de cor e luz, aquele aglomerado gritante de alegria tomou-a num abraço cheio e nele, ela foi mais do que abraçada, foi salva, absolvida e plena de amor. O bicho calou-se e desde esse dia que, embora a acompanhe sempre, não lhe tomou as rédeas do sentir ou fazer.

Aquele abraço, aquele beijo, aquela energia, aquele partilhar descomplicado foram actos extraordinários dentro das vidas que levamos e a forma como nos damos. Então, e por tudo o que isso acarreta na vida de alguém, vamos chamar-lhe heroísmo.

E vamos fazê-lo plenos da certeza de que o flagelo da solidão e da melancolia aguda, rouba momentos a mais, experiências a mais, vidas demais. Dentro das nossas carapaças ninguém entra e sabe de cor os nossos medos, inseguranças, incertezas, dores ou vergonhas. E mesmo quando sabem, mesmo que muito de leve, a opção fácil é virar a cara, calar a palavra e fingir não saber. Numa realidade crua em que o dar, o dizer e o fazer são as excepções de um mundo cravejado de pequenas bolhas onde poucos entram, é heróico encher o peito de amor e os lábios de sorrir e oferecê-los sem restrição e sem pedir nada em troca.

Obrigada.

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