Penumbra

Ainda não é meia-noite.
Não estamos perdidos na penumbra
que outrora consumiu
o dia.

Ainda há luz.
Espelha-se pelas árvores,
pelos animais nocturnos
que aparecem devagar
por entre a folhagem.

Vasculhamos por entre os ramos
Que o inverno estendeu pelo chão,
O pouco que resta de luz.

Com medo
A sombra afasta-se
Desalinha-se
Desconsertar-se

Ainda não estamos perdidos na penumbra.

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Medo

O frio do medo
onde me recolho
acolhe-me.

Vastas pingas
enfurecem a janela
torvam a visão
do que vejo lá fora.

É dia,
mais parece noite.
Conto os pedaços
do que vejo cinzento,
para o retorno
a casa.

Anseio
elos braços maternos
que fui desvalorizando.

Pai

Enquanto a minha mãe começava a acender todas as luzes da casa, a acordar-nos devagar com a preocupação na voz, o meu irmão ainda a deter-se com esta ideia de acordar, o meu pai estava estendido no chão de alcatrão da estrada onde eu também brinquei em pequena. O corpo gelado, a face branca em oposição à vermelhidão que sempre lhe conhecemos e os olhos muito abertos como se estivesse ainda a tentar ver as pequenas coisas que a vida não lhe tinha mostrado ou que mesmo ele tinha ocultado, tapando os olhos com as mãos secas de um trabalho que já detestava. Continue reading “Pai”

Não é Fé é Morte

A minha mãe, quando me olhou com os olhos de pena que as notícias referentes a doenças implicam, disse-me que estava na altura de acreditar em algo maior. Em alguma coisa, nem que levemente, que me trouxesse a força que o meu corpo já não tinha.
Como poderia eu fazê-lo? Sentia o corpo pedir por essa ideia, mesmo relembrando os momentos em que a Igreja me fazia estremecer, mas não era capaz de me deixar ir.

Continue reading “Não é Fé é Morte”

Diário

Eu ainda era uma criança.
Mas olhava as fotografias dos meus pais como se nunca mais os fosse voltar a ver.
Era uma criança com uma ânsia enorme de encontrar o meu lugar.
Hoje olhando para trás, tendo perceber o que teria acontecido se tivesse completado aquela mochila que caía no chão do meu quarto e tivesse aberto a porta sem medo do desconhecido. Continue reading “Diário”