Abril 2017

Penumbra

Ainda não é meia-noite.
Não estamos perdidos na penumbra
que outrora consumiu
o dia.

Ainda há luz.
Espelha-se pelas árvores,
pelos animais nocturnos
que aparecem devagar
por entre a folhagem.

Vasculhamos por entre os ramos
Que o inverno estendeu pelo chão,
O pouco que resta de luz.

Com medo
A sombra afasta-se
Desalinha-se
Desconsertar-se

Ainda não estamos perdidos na penumbra.

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Março 2017

Medo

O frio do medo
onde me recolho
acolhe-me.

Vastas pingas
enfurecem a janela
torvam a visão
do que vejo lá fora.

É dia,
mais parece noite.
Conto os pedaços
do que vejo cinzento,
para o retorno
a casa.

Anseio
elos braços maternos
que fui desvalorizando.

Janeiro 2017

Vilcieni

Quero ir para casa, penso. Essa casa naquele país solarengo que pensei que não amava. Quero ir para casa. Chega. Não quero mais viagens. Não quero mais entradas em autocarros. Aviões. Comboios que me levam para longe. Sempre mais longe. Mesmo quando retorno. Estou longe. Quero ir para casa. Continue reading “Vilcieni”

Dezembro 2016

Gustavs e a Magia da Aventura

Quando Gustavs abriu os olhos tudo era luz e cintilantes flocos de neves caiam na sua face. À sua frente uma enorme fábrica iluminada com cores vermelhas, amarelas, verdes e azuis, que mais parecia uma casa feita de biscoito, erguia-se.

Continue reading “Gustavs e a Magia da Aventura”

Novembro 2016

Pai

Enquanto a minha mãe começava a acender todas as luzes da casa, a acordar-nos devagar com a preocupação na voz, o meu irmão ainda a deter-se com esta ideia de acordar, o meu pai estava estendido no chão de alcatrão da estrada onde eu também brinquei em pequena. O corpo gelado, a face branca em oposição à vermelhidão que sempre lhe conhecemos e os olhos muito abertos como se estivesse ainda a tentar ver as pequenas coisas que a vida não lhe tinha mostrado ou que mesmo ele tinha ocultado, tapando os olhos com as mãos secas de um trabalho que já detestava. Continue reading “Pai”

Setembro 2016

Não é Fé é Morte

A minha mãe, quando me olhou com os olhos de pena que as notícias referentes a doenças implicam, disse-me que estava na altura de acreditar em algo maior. Em alguma coisa, nem que levemente, que me trouxesse a força que o meu corpo já não tinha.
Como poderia eu fazê-lo? Sentia o corpo pedir por essa ideia, mesmo relembrando os momentos em que a Igreja me fazia estremecer, mas não era capaz de me deixar ir.

Continue reading “Não é Fé é Morte”

Agosto 2016

Diário

Eu ainda era uma criança.
Mas olhava as fotografias dos meus pais como se nunca mais os fosse voltar a ver.
Era uma criança com uma ânsia enorme de encontrar o meu lugar.
Hoje olhando para trás, tendo perceber o que teria acontecido se tivesse completado aquela mochila que caía no chão do meu quarto e tivesse aberto a porta sem medo do desconhecido. Continue reading “Diário”