A noite é um buraco que te engole por inteiro

Atrevi-me a caminhar por entre ela e foi areia movediça que se estendeu no meu caminho, a enterrar-me viva no que devia ser alcatrão fervente, a intoxicar-me os pulmões, a dissolver os meus gritos. Escuro. Silêncio.

A minha alma foi dilacerada e eu fiquei avariada, gaga, perra. Quando o dia nasceu, eu nem chorei, fosse de alegria ou tristeza. Sentei-me num banco do jardim onde as flores não abrem, abri eu as mãos e deixei-me cair nelas Continuar a ler A noite é um buraco que te engole por inteiro

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À noite todos os gatos são pardos

Tinha jantado sozinha mais uma vez. Sentada no sofá, olhava para o livro sem o ver. As letras eram pequenos montes de tinta negra na página branca. Tentara tirar um sentido do parágrafo que estava a ler mas nada surgia no seu cérebro vazio. Algo tinha de mudar. Cada vez eram mais frequentes aqueles momentos de alienação quase completa. Momentos que acabavam num estado de puro pânico. Pânico de morrer sozinha. Depois de voltar a si, convencia-se que estava a ser dramática, mas a verdade é que algo tinha de mudar. Continuar a ler À noite todos os gatos são pardos

Penumbra

Ainda não é meia-noite.
Não estamos perdidos na penumbra
que outrora consumiu
o dia.

Ainda há luz.
Espelha-se pelas árvores,
pelos animais nocturnos
que aparecem devagar
por entre a folhagem.

Vasculhamos por entre os ramos
Que o inverno estendeu pelo chão,
O pouco que resta de luz.

Com medo
A sombra afasta-se
Desalinha-se
Desconsertar-se

Ainda não estamos perdidos na penumbra.

TEMA PARA MARÇO: NOITE

Parece um tema tão óbvio que até parece impossível nunca o termos usado aqui no CPR como tema do mês. Até agora.
Abril será então o mês em que vamos escrever sobre a noite; pode ser como espaço narrativo, como personagem, divindade, o que quiserem.

Como sempre, o céu (da criatividade) é o limite!